Preocupação

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Meus amigos sempre se queixaram da preocupação excessiva dos pais. Aquela coisa chata de que horas vai chegar ou que horas foi, com quem esteve, onde, como e porque. Eu, particularmente, nunca sofri com isso.

Meu pai, bem, se preocupava tanto comigo que abandonou a família assim que eu nasci; e minha mãe nunca se importou muito com as minhas saídas, principalmente depois que nos mudamos aqui para o centro. Mas dia desses, quando estava comemorando a carta de motorista num bar das Amoreiras, ela me ligou:

- Fala mãe.
- Onde você está?
- Num bar, aqui nas Amoreiras.
- Ah, num bar, é?
- É, comemorando minha habilitação.
- Hmmm... E tem pão aí?
- Não sei, mãe. Por que?
- Nada, quando voltar pra casa, se encontrar alguma padaria aberta no caminho, traz pão.
(...)

Poxa! Tudo bem, até gosto do fato de não ter ninguém para me vigiar ou controlar... Mas eu estava num bar, nas Amoreiras e com gente que ela nem conhecia. Vá lá, depois não fique com remorso caso algo me aconteça.

Na segunda ligação dela, outro dia, eu estava numa rave, em Jaguariúna. Nem eu sabia bem ao certo como tinha chegado lá:

- Oooooooi mãe!
- Nossa, que barulho horrível!
- Bagulho? É... tô boladão.
- Onde você está?
- Ih, nem sei... Numa festa, mãe. Tem umas pessoas verdes aqui! Ih, olha, uma vaca!
- Se achar pão aí, compra quatro.
(...)

A parte da vaca era de verdade (afinal, Jaguariúna...).
Fiquei boladão mesmo foi com a super preocupação dela. Sei que qualquer amigo meu me crucificaria ao me ouvir reclamando que ela não pega no meu pé, mas eu fico imaginando a situação...

- Jorge, onde você está?
- Num cativeiro, mãe!! Eles me sequestraram e disseram que vão me matar se não mandarem o resgate.
- Não vai dar pra mandar, não. O dinheiro está contado para o pão... Aliás, se sair cedo daí, aproveita e compra.

Bem, eu nunca levei pão pra casa.

Quem é Felipe de Camargo?

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O telefone tocou.

- Alô, poderia falar com Joana Bastos?

- Sim, sou eu.

- Joana. Quem fala é o Doutor Luís Aschetti, do Hospital das Clínicas. Sinto muito, mais o Sr. Felipe sofreu um acidente de carro...

- Vovô!! - Joana gritou. - Meu avô?! Ele está bem?

O médico do outro lado da linha parou, sem entender. Esperou cinco segundos e perguntou:

- Avô?

- Ahn?

- Sinto muito senhora, aqui na enfermaria está um homem de não mais que trinta anos. Sr. Felipe de Camargo.

- Felipe de Camargo? Não, doutor, não conheço nenhum Felipe de Camargo. O único Felipe que eu conheço é o meu avô.

A história era a seguinte: Felipe de Camargo sofreu um acidente de carro na estrada e foi hospitalizado, inconsciente. No bolso dele acharam a carteira, os documentos e uma agendinha. O nome de Joana Bastos e seu número novo de telefone estavam na primeira página da agenda, como contato de emergência. Com um pequeno coração desenhado ao lado do jota. Mas Joana Bastos, atônita, não conseguia se lembrar de nenhum Felipe de Camargo. Depois de desligar pedindo que ligassem para ela se não conseguissem contatar mais ninguém, Joana começou a desempoeirar a memória.

Surgiu do fundo da memória, a lembrança de um rapaz que tinha freqüentado o segundo colegial junto com ela, já fazia quinze anos. Era um amigo não muito próximo, mas ainda assim um amigo. Ele tinha uma mãe, Carla. Não lembrava mais muito. Claro! Tinha encontrado o Felipe fazia três anos. Conversaram pouco. e... A mãe dele tinha morrido há três anos.

Joana começou a lembrar disso. E a cabeça dela ficou girando. Pegou a garrafa de conhaque, dois copos e foi bater na porta do apartamento da vizinha.

Revanche

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Menandro de Souza Almeida e seu irmão Lisandro tinham mais do que motivos para terem rancor da mãe, uma estudiosa de Literatura grega clássica. Ela ao menos poupou a filha, dando a ela o nome de Helena.

Mas os dois irmãos viveram uma infância feliz, apesar de alguns percalços, e sempre foram muito amáveis com a mãe e demonstraram interesse na Literatura grega.

Mas um dia tiveram sua vingança. Para o desespero dela, Lisandro virou um engenheiro civil e Menandro, latinista.

Vende-se um marido semi-novo e super agradável

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Toda mulher quer um companheiro que saiba respeitá-la como mulher e companheira, que seja atencioso, amável, romântico, que tome as decisões ouvindo a opinião dela e etc. A Mônica casou-se com o Charles justamente por causa disso.

- Amor, eu fui deixar as caixas ali no depósito da garagem e passei pelo nosso carro... Por que tem uma placa de "vende-se" nele?

- Carro aqui no centro só atrapalha.

- Mas Charles, o carro é nosso. Você nem me perguntou nada, nem...

- Mas sou só eu quem dirige e cuida dele, ué... E eu acho que não preciso mais dele.

- Tudo bem, mas ele é meu também. Sei lá, se você tivesse perguntado, eu teria concordado!

- Eu sei, por isso que nem perguntei, pô.

- Tá, mas e se eu não tivesse concordado?

- Eu ia parar de dirigir e você ia fazer o que com ele? Guardar caixas?

Mônica bateu o pé enfezada e foi até o quarto pegar outras caixas para o depósito. Voltando para sala, o marido termina o assunto:

- Olha, e nem inventa de querer vender o fogão só porque é você que pilota!

Alexia e o namorado do colegial

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Alexia encontrou esses dias o antigo namorado do segundo colegial. Marcos Funaro. Foi o namoro mais longo que ela já teve. Era um rapaz meio maluco. De vez em quando sumia por horas ou dias e reaparecia subitamente, uma vez por semana resolvia cismar com alguma besteira e gastava horas perseguindo uma formiga. Além disso, todo ano perto da Páscoa surtava e sumia para voltar uma semana depois, muito silencioso, quase catatônico. Mas era um amor, carinhoso, com a Alexia, e ela lembrava de tardes ótimas com ele.

Em outubro, ele resolveu se apaixonar por outra menina e, de qualquer maneira, ele foi embora para Belo Horizonte com a família. Três anos depois, ele voltou a procurar a Alexia, arrasado, tentando reatar, mas era o sábado logo antes da Páscoa e ela tentou ignorar. Na segunda-feira ele voltou para Belo Horizonte e a Alexia nunca mais teve notícias dele.

Nunca mais até semana passada. Numa conferência na USP, lá estava ele. Alexia, bióloga, representando o meio acadêmico, e ele, representando a Petrobrás numa mesa redonda sobre biocombustíveis. No coffee break conversaram. Ela que reconheceu ele.

- Há quanto tempo!

Depois de uns segundos puxando as imagens da memória, ele responde:

- Dezesseis anos.

Conversaram. Ela tinha avançado muito, conhecido o mundo. Ele tinha passado um período bem ruim depois do último encontro deles, mas felizmente isso foi o necessário para ele receber algum tratamento. Estava tratado, não desaparecia mais e lidava com a vida com um pouco mais de leveza. Continuava amável como era no colegial.

- E... que mais?

- E que faz sete anos que trabalho na Petrobrás e um ano que estou no setor de bio-combustíveis.

- E...?

- E mais nada.

Não se casou: era o que ela queria saber. Combinaram um jantar a noite. E pelo visto agora ela não tinha mais que se preocupar com a Páscoa chegando.

A grande história romântica

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- Alfonso? - disse baixinho uma voz de mulher no banco de trás do ônibus.

"Sempre quis ter um personagem chamado Alfonso", pensou o passageiro da frente, que tinha uma pequena mania de querer escrever. Histórias ruins, principalmente, histórias começando com "Alfonso? - falou baixinho a voz macia de uma jovem mulher." Uma história ruim, momentos cruciais da vida de outras pessoas, acontecendo ao ouvido de estranhos na grande metrópole. Um final feliz ou um começo de uma nova história de amor - e tire a metrópole, ponha os personagens em uma cidade longe que você nunca conheceu. A história de Alfonso e a mulher de voz baixinha. Uma voz aveludade, quase parecendo sonolenta para o ouvido pouco romântico. Uma voz que...

- Alfonso, me acorda um pouco antes do ponto da hospital, tá?

No metrô

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No metrô.

"Aquele ali", João Antônio narrava para um leitor imaginário, e digo leitor imaginário porque ele não chegou a por no papel a narrativa, nem ao menos falar em voz alta, para um ouvinte real. Quem escreveu fui eu, para leitores escassos, embora reais, não o João Antônio, que apenas imaginou a narrativa, e narrou ela, para um leitor imaginário.

Aquele ali, parece ser executivo, com aquela maleta com cara de maleta de laptop feita para não ter cara de maleta de laptop. (algumas pessoas sempre pegam o último vagão, o que nos permite encontrar certos desconhecidos todos os dias, apesar do tamanho da cidade) Ele trabalha na Paulista ou perto dela, que desce sempre no Trianon-Masp. E tem um carro com placa final 7 ou 8, porque ele só aparece no metrô de quinta-feira.

Aquela outra é a mulher dos óculos escuros. Uma pessoa comum, sempre de calça jeans ou uma saia, uma camiseta escura. Um homem, o namorado, sempre anda com ela. Os dois devem ter se conhecido no trabalho e hoje moram juntos, porque entram e saem do metrô juntos. Ou, numa hipótese mais romântica e menos improvável é que eles teriam se conhecido no metrô. Mas isso é difícil porque ninguém conversa no metrô, exceto esse casal, que conversa bastante.

Voltando ao que é importante, a mulher de óculos escuros sempre está de óculos escuros no metrô. Eu imagino que ela tire os óculos quando sai para a rua, mas isso é só maldade minha. Não sei porque ela usa óculos escuros (e antes que me perguntem: cega ela não é, enxerga muito bem, pelo contrário), mas parece que o namorado também nunca soube. Uma vez eu sentei do lado da mulher dos óculos escuros, e do seu namorado, e pude ouvir a conversa deles. Conversa trivial, mas depois de um momento de silêncio, o namorado da mulher de óculos escuros perguntou para a mulher de óculos escuros:

- Mas você ainda não me disse o porque dos óculos escuros.

- Não, é mesmo, não disse.

Rapidamente ela puxou outro assunto e deixou a pergunta de lado. Eu fiquei sabendo depois que aqueles óculos não eram nem mesmo de grau, mas não fiquei sabendo o porque dela usar os óculos escuros.

Idas, e uma vinda

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Dois meses depois de decidirem o divórcio, o Carlinhos e a Marina ainda não tinham conseguido vender o apartamento. E embora nominalmente estavam dormindo por um tempo ele na casa de um amigo e ela na casa de uma prima, o ex-casal ainda passava muito tempo junto no apartamento. Isso porque tinha sido um divórcio por pura falta de interesse, não por excesso de briga.

Quando a Marina finalmente achou um apartamento, agora no começo de fevereiro, ela ficou pressionando mais o Carlinhos e a corretora a acharem alguém para comprar o lugar, para que ela tivesse o dinheiro para o novo apartamento dela.

- Carlinhos, ninguém quis comprar? - ela perguntou num final de tarde desses, quando eles estavam num apartamento.

- Até agora ninguém, né?

- E aqueles estudantes que queriam montar uma república?

- Eles queriam alugar, e por pouco dinheiro. Daria trabalho demais.

- E aquela família que a mãe do marido era do Acre?

- Quem? Aquela com dois filhos grandes e um bebê?

- É.

- Não sei bem, não deram retorno.

- E aquele casal... Paulo e Adriana? Aquela mulher que saiu de olhos arregalados só porque viu um casal se divorciando?

- Juliana. E ela disse que eles não vão precisar mais não.

A Marina parou. Estranhou um pouco. "não vão mais precisar"?

- Como você sabe, falou com ela?

- Falei. Ah, e não durmo aqui hoje não, tá, Marina?

- Ah, uhum.

Quinze minutos depois, quando a Marina estava fazendo um chá de hortelã, ela começou a ligar uns pontos e perguntou:

- Carlinhos?

- Sim?

- Quando que você falou com a tal Juliana?

- Éhm...

- Não está namorando a recém-casada de olhos arregalados não, está?

- Ela ainda estava noiva, tá?

- "Estava"?

- Sim, sim estava! Agora não ela está mais. Ah, e, Marina. Pode se mudar que eu te pago... eu fico com este apartamento. - disse com um sorriso.

"Eu quero um apartamento pequeno, velho e sem varanda..." - I

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Dinorá recebe a primeira ligação no seu escritório recém-inaugurado no Itapetininga.

- Imóveis, bom dia.

- Oi, você tem apartamentos de dois quartos na região central?

- Claro, várias opções. Que tipo você tá procurando?

- Um bem central mesmo, meio pequeno... Sabe? Pra não dar muito trabalho de limpar. E não precisa ser muito novo não.

- Bem, então olha... Eu tenho um aqui nesse prédio mesmo onde eu trabalho. São dois dormitórios mais uma dependência de empregada, no décimo primeiro andar... Com garagem. Ah, a vista é ótima!

- Não tem nada num andar mais baixo?

- Tem no mesmo prédio, o mesmo tipo de apartamento, mas no sexto andar.

- Ótimo. Tem varanda?

- Não... Com varanda eu tenho um no...

- Não, não precisa! É que eu não queria mesmo, hehe. Piscina tem?

- Ah, no centro é difícil achar com piscina, né? Mas a...

- Ótimo! Nada de piscina. Tem algum playground? Área de convívio, churrasqueira?

- Não, não. Aqui é só o prédio mesmo, hehe.

- Perfeito então! Quando eu posso visitar?

- A hora que você quiser. É só passar no 202 do Itapetininga. O apartamento fica na portaria ao lado.

- Obrigada. Ahh... Não tem churrasqueira mesmo, né?

- Não senhora.

"Tem gosto pra tudo nesse mundo, né? Sem sacada, sem piscina... Ah, bom pra mim."

Profissão Economista

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Alberto Delgado, formando em economia, chamado para entrevista na B3 Recursos Humanos.

- Alberto Delgado, aqui de São Paulo mesmo?

- Isso.

- Certo, Alberto. Vamos ver seu currículo... Hum, bom. Bom, bom. Economia, formado em 99. Na USP. De onde veio seu interesse por economia, Alberto?

- É coisa de família. Meu pai era economista, trabalhou no governo... Meu vô também foi.

- Ah, seu pai trabalhou para o governo, que interessante. O que ele fazia?

- Ele foi do Ministério da Fazenda, no governo do Sarney. Depois pra alguns bancos, como o Banco Nacional, o Bamerindus...

- Sarney? Hmmm... Bom, mas falemos de você. Aqui diz que você fez estágio, né?

- Fiz sim. No último semestre eu estagiei na administração do Mappin.

- Ah, do Mappin? Aquela rede de lojas que fa... digo, que encerrou as atividades?

- É, eles fecharam uns 4 meses depois do meu estágio, aí eu fui pra Transbrasil.

- Ah, você também estagiou na Transbrasil?

- Só peguei o finalzinho dela, em 2001. Logo depois eu fui pra outra empresa do mesmo setor, a VASP.

- Certo. Aí depois da faculdade você fez pós, certo?

- Foi pelo programa de intercâmbio da universidade. Fiz pós em Buenos Aires, na Argentina.

- E você ficou uns seis meses lá... Daí que você aprendeu o espanhol, suponho.

- Isso mesmo.

- No mesmo ano você teve outra vivência no exterior, pelo que diz aqui no seu currículo.

- É, eu fui selecionado no programa de trainee da Enron, nos Estados Unidos.

- E qual é a atuação dessa empresa lá? E o seu cargo?

- Era uma das maiores empresas de energia lá dos Estados Unidos. A sede era no Texas. Eu trabalhei em Houston, no QG deles, na área de contabilidade.

- Era uma das maiores? O que aconteceu?

- Ah, lá pra 2001, 2002, teve um escândalo financeiro... Eu não fiquei muito a par, porque meu setor foi dissolvido na empresa... Foi por causa desse escândalo que a empresa abriu falência.

- Hmm, claro... Acho que é tudo por ora. Olha, Alberto, seu currículo é excelente. Inglês, espanhol, francês. Vivência no exterior e em processos de concordata. Assim que obtivermos um retorno, contataremos você, tá bom?

Assim que o candidato saiu, a entrevistadora virando-se para seus colegas de trabalho:

- Pessoal, tem um candidato ótimo aqui. Algum dos nossos clientes está em processo de falência?

Mudança de planos

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- Renata! Renata, tá me ouvindo, Renata!

Depois de ter trazido o namorado desde Manaus para o sudeste, para um emprego que ele não gostava, para uma cidade que ele detestava, e para conviver com os amigos dela que ele implicava, a Renata mudou de planos.

Mudou de planos e avisou o namorado que tinha mudado de planos, só se esqueceu de avisar pra ele qual era esse novo plano. Falou para ele que tinha mudado "todos os planos" para 2008, mas como ela estava saindo correndo, ela explicava depois.

- Tô te ouvindo, tá me ouvindo bem? - o celular velho não estava pegando.

- Não, agora tô.

- Que história era aquela, Renata?

- Alô? Ah, deixa disso agora, é importante, mas não é nada de urgente... A gente fala disso depois.

- Renata, não, explica, porque...

- Amor, a gente conversa direito quando eu voltar de noite, ok?

- Renata!

E ela desligou. Às sete, quando ela chegou, o namorado manauara estava esperando com uma cara amarrada de quem queria explicações.

Ela sentou no sofá da sala e ele perguntou:

- O que era, Renata, que era a "grande mudança de planos"?

- Nada, nada, querido. Nada de importante. Esquece isso. Pega uma cerveja?

Ele fez "bah!" com as mãos e foi para a cozinha pegar duas latinhas, enquanto maldizia o apartamento velho e aquela cidade detestável.

Tábuas, armários, etc.

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- Ah, então era dessas tábuas que estavam falando. Tá dando uma briga por causa disso.

Parece banal falar de tábuas, quanto mais brigar sobre elas! Não consegui entender direito do que se tratava, mas em seguida, ela mostrou a pilha de tábuas e explicou:

- Uma pessoa deixou as tábuas numa. (estávamos no estacionamento) E deixou aí, e tem gente pedindo para ele tirar.

- E?

- E ele não tirou. E agora estão brigando com a síndica para que ela brigue com o cara para que tirasse as tábuas.

Mas em seguida já estávamos em outro canto do estacionamento:

- Ahh, esse aqui é o armário de que estavam falando.

Um armário, montado junto a um pilar e camuflado de pilar de estacionamento, pintado com o mesmo preto e amarelo dos pilares.

- Estavam querendo mandar tirar esse armário porque...

Herança

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Lucas já tinha passado uma semana em luto, já tinha ido no funeral do velho tio Sinésio e já tinha chorado o que precisava. Agora só faltava ver o que faria com o apartamento.

A mãe do Lucas, Maria Olga, estava velha demais para se preocupar com essas coisas. Ela nem queria saber do apartamento. Maria Olga gostava muito do falecido irmão mas não visitava ele muito. Ela, que morava numa cidade de não mais que cinco mil habitantes, detestava São Paulo com todas suas forças.

A Olga não quer o apartamento. O irmão mais velho da Olga e do Sinésio já tinha morrido. O Sinésio não tinha tido filhos e a tia Júlia tinha morrido seis anos antes de acidente. O irmão mais novo do Lucas, o Roberto, estava fazendo pós-graduação na Inglaterra... Era o Lucas que iria ter que cuidar de tudo.

A propriedade tinha sido dividida, por algum motivo complicado, entre o Lucas, o Roberto, a Olga e o enteado do Sinésio, filho da tia Júlia, o Paulo Sérgio. Para piorar, estava dividido em porcentagens diferentes. Vender agora? Dor de cabeça demais, ainda mais porque o tal do Paulo Sérgio (apesar de completamente honesto e muito generoso) era um enrolado. Não sabia se iria querer morar agora, ou não.

Enquanto isso, que alugasse!

Grande idéia

Créditos

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- Êeeee, meu! Bem vindo de volta!

- Tudo jóia, irmão?

Era volta das férias. Não bem volta das férias, porque as aulas não tinham recomeçado ainda, mas os dois colegas de cinema estavam de volta para trabalhar carregando peso em algum curta que aparecesse.

- Sabe duma coisa? Eu tive uma idéia ótima para um curta.

- Contaí. Conta.

- Começa assim. A câmera mostra um quarto de um homem dormindo e dá um close no relógio que marca quinze para às seis. Ainda não amanheceu. No fundo, se ouve uma torneira pingando.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc... No ritmo da torneira começa a música. A gente usa um rock inglês bem indie ou uma coisa assim, com uma guitarra tocando três notas: tuntãtintãtuntãtintãtuntãtintan....

Daí começa os créditos: "Nira Filmes apresenta".

Corta para uma vista aérea que a gente filma do alto de um prédio de São Paulo amanhecendo. ("Um filme de Bernardo do Carmo") Filma a marginal Tietê vazia.

Não esquece o rock. Põe um piano. A quinta sinfonia do Beethoven no piano. Ou sei lá que sinfonia.

A marginal Tietê vazia, amanhecendo e se enchendo de mais e mais carros, a gente filma tudo acelerado para as pessoas verem o tempo passar. Filma o prédio da Petrobrás na Paulista, no amanhecer, e escreve: "com o Patrocínio da Petrobrás".

O homem se levanta em silêncio. ("com Ricardo Mello") Só se ouve a música. Do outro lado da cidade, uma mulher está escovando os dentes ("e Luiza Gianni")

- Você não está pensando por a Luizinha contracenando com o Bacuri, tá por acaso? Depois de...

- Calma. Naquela luz de amanhecendo filma o carro da mulher andando numa avenida. O carro do homem para no semáforo e aparece bem grande o nome do filme: "Crédito".

- Eles trabalham numa financeira?

- Daí a gente filma umas pessoas num prédio velho lá perto do Anhangabaú, tomando café olhando para a janela. E põe mais letreiro: "fotografia de Paulo Henrique Freitas". Corta e mostra o carro do homem parado em frente uma loja de discos. "Música de..." de quem, do Rogerinho? Enfim, precisa ainda acertar mais umas coisas.

- Tá, depois vemos isso. Mas qual é a idéia do filme? O que vem depois dos créditos?

- Nada, hora. Não disse que era um curta?

- Só os créditos?

- Só.

- E o que acontece no final?

- O homem e a mulher chegam no trabalho. Cada um trabalha em um lugar diferente da cidade e eles não se cruzam.

- Genial!

- E depois vêm os créditos finais, é claro.

Frases de Novela

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Mais uma pro caderninho da D. Lucrécia, diretamente do Vale a Pena Ver de Novo, Amélinha Mourão, a filha de fazendeiro mimada e que faz de tudo pra ter o que quer, conversando com o apaixonado Nélio, o peão bonitão que acreditava que ia ser o pai de Amélinha:

- Poxa, Amelinha, eu tinha tantos planos pra essa criança... - dizia o peão, muito decepcionado ao receber o resultado do exame de DNA que verificou outro pai para a criança.
- Pára com isso, Nélio! Plano de pobre é aposentadoria e a sua vem mais cedo porque é rural! - disse a mimada mocinha.

Volta das férias

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De volta das férias na Rhadetec.

O casalzinho feliz, João e Clarisse foram para o trabalho juntos, pensando em como iriam estar o Roberto e a Janice, ex-namorados que por nada nesse mundo voltavam a namorar.

- Vão voltar, morrendo, morrendo de saudade um do outro. - disse a Clarisse, com um tom maldade, digamos, pontuda, na voz.

- Pois bem. Agora vão perceber... - retrucou o João.

Muito pelo contrário, quando os dois chegaram, com dez minutos de diferença, apenas (os horários na Rhadetec são flexíveis), apenas se cumprimentaram gentilmente.

"Bom dia, tudo bem? Tudo bem? passou bem de final de ano? Ah, sim claro, e você? Passei com minha irmã e a família dela. Nossa, tua irmã, claro! Há quanto tempo que não vejo ela, ela está bem? Sim, muito; perguntou de você e mandou você ir visitar ela uma hora dessas."

João e Clarisse ficaram boquiabertos. Nem mesmo um olhar de "meudeus, morri de saudades de você". Mas como um mau cientista que ignora os dados que contradizem sua teoria - ou melhor, como dois fofoqueiros obstinadamente intrometidos na vida alheia - resolveram tirar outras conclusões.

Cochicharam por uns cinco minutos e depois o João foi ter com o Roberto na salinha do café.

- E então Roberto?

- Tudo jóia João? E aí, passou bem de ano novo?

- Passei, mas tenho certeza que você passou um ano melhor ainda. - respondeu, com um risinho.

- Ah, foi bom até, na casa da minha irmã, com o marido dela e...

- Estou falando da Janice.

- ?

- Ora, a gente viu como vocês se encontraram, não estavam morrendo de saudade, o que quer dizer que vocês se viram...

- A gente se encontrou no supermercado no dia 30, e...

- E... - concluiu o João. E combinaram de se encontrar no dia 2, e no dia 3, e no 4, no 5...

- Mas, mas, claro que nã... Bah, donde raios vocês inventam isso?!

O Roberto saiu direto da sala, emburrado. Pelo menos dessa vez não jogou um grampeador.

Rua Amapá

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Passei o ano novo na casa da minha vó, que fica no centro do Centro de Londrina. O prédio dela fica no calçadão.

No dia 29, eu desci um pouco para andar e fui descendo, descendo.

As ruas do centro de Londrina todas têm o nome de estados brasileiros (ou no mínimo de uma cidade importante).

Fui descendo. Desci, fui parar na Rua Niterói, saí do Centro propriamente dito, passei do Terminal de Ônibus e continuei descendo. Cheguei num bairro velho. Todo residencial, com algumas grades, umas duas cercas elétricas. Casinhas pequenas, uma mulher sentada na calçada com o cachorro. Atravessei a rua Rio Grande do Norte e continuei descendo. Ainda várias casas da rua eram umas casinhas de madeira da época da colonização do Norte do Paraná.

Continuei descendo e cheguei no fim da rua que eu estava. O fim da rua era o fim da parte central da cidade. Acabava num grande barranco, cheio de mato, vazio. Embaixo, tinha um terreno espaçoso, com algumas ruelas e nada além de um galpão abandonado.

O nome da última rua? A parte central, mais antiga, da cidade de Londrina termina num barranco deserto, cheio de mato e abandonado. O nome da rua? Rua Amapá.