Preocupação

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Meus amigos sempre se queixaram da preocupação excessiva dos pais. Aquela coisa chata de que horas vai chegar ou que horas foi, com quem esteve, onde, como e porque. Eu, particularmente, nunca sofri com isso.

Meu pai, bem, se preocupava tanto comigo que abandonou a família assim que eu nasci; e minha mãe nunca se importou muito com as minhas saídas, principalmente depois que nos mudamos aqui para o centro. Mas dia desses, quando estava comemorando a carta de motorista num bar das Amoreiras, ela me ligou:

- Fala mãe.
- Onde você está?
- Num bar, aqui nas Amoreiras.
- Ah, num bar, é?
- É, comemorando minha habilitação.
- Hmmm... E tem pão aí?
- Não sei, mãe. Por que?
- Nada, quando voltar pra casa, se encontrar alguma padaria aberta no caminho, traz pão.
(...)

Poxa! Tudo bem, até gosto do fato de não ter ninguém para me vigiar ou controlar... Mas eu estava num bar, nas Amoreiras e com gente que ela nem conhecia. Vá lá, depois não fique com remorso caso algo me aconteça.

Na segunda ligação dela, outro dia, eu estava numa rave, em Jaguariúna. Nem eu sabia bem ao certo como tinha chegado lá:

- Oooooooi mãe!
- Nossa, que barulho horrível!
- Bagulho? É... tô boladão.
- Onde você está?
- Ih, nem sei... Numa festa, mãe. Tem umas pessoas verdes aqui! Ih, olha, uma vaca!
- Se achar pão aí, compra quatro.
(...)

A parte da vaca era de verdade (afinal, Jaguariúna...).
Fiquei boladão mesmo foi com a super preocupação dela. Sei que qualquer amigo meu me crucificaria ao me ouvir reclamando que ela não pega no meu pé, mas eu fico imaginando a situação...

- Jorge, onde você está?
- Num cativeiro, mãe!! Eles me sequestraram e disseram que vão me matar se não mandarem o resgate.
- Não vai dar pra mandar, não. O dinheiro está contado para o pão... Aliás, se sair cedo daí, aproveita e compra.

Bem, eu nunca levei pão pra casa.