Alexia e o namorado do colegial

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Alexia encontrou esses dias o antigo namorado do segundo colegial. Marcos Funaro. Foi o namoro mais longo que ela já teve. Era um rapaz meio maluco. De vez em quando sumia por horas ou dias e reaparecia subitamente, uma vez por semana resolvia cismar com alguma besteira e gastava horas perseguindo uma formiga. Além disso, todo ano perto da Páscoa surtava e sumia para voltar uma semana depois, muito silencioso, quase catatônico. Mas era um amor, carinhoso, com a Alexia, e ela lembrava de tardes ótimas com ele.

Em outubro, ele resolveu se apaixonar por outra menina e, de qualquer maneira, ele foi embora para Belo Horizonte com a família. Três anos depois, ele voltou a procurar a Alexia, arrasado, tentando reatar, mas era o sábado logo antes da Páscoa e ela tentou ignorar. Na segunda-feira ele voltou para Belo Horizonte e a Alexia nunca mais teve notícias dele.

Nunca mais até semana passada. Numa conferência na USP, lá estava ele. Alexia, bióloga, representando o meio acadêmico, e ele, representando a Petrobrás numa mesa redonda sobre biocombustíveis. No coffee break conversaram. Ela que reconheceu ele.

- Há quanto tempo!

Depois de uns segundos puxando as imagens da memória, ele responde:

- Dezesseis anos.

Conversaram. Ela tinha avançado muito, conhecido o mundo. Ele tinha passado um período bem ruim depois do último encontro deles, mas felizmente isso foi o necessário para ele receber algum tratamento. Estava tratado, não desaparecia mais e lidava com a vida com um pouco mais de leveza. Continuava amável como era no colegial.

- E... que mais?

- E que faz sete anos que trabalho na Petrobrás e um ano que estou no setor de bio-combustíveis.

- E...?

- E mais nada.

Não se casou: era o que ela queria saber. Combinaram um jantar a noite. E pelo visto agora ela não tinha mais que se preocupar com a Páscoa chegando.

Reminiscências II

Alexia e o menino da oitava série

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Alexia:

- Quando eu tinha 12 anos, eu queria namorar um menino da oitava série. Era um garoto muito bonitinho, com um cabelo loiro e olhos verdes. Demorou, mas consegui chamar a atenção dele e um dia troquei uns beijinhos com ele. Mas minha amiga, a Luci - eu adorava ela, ela sempre garantia que tudo desse certo. Depois do ginásio, a gente nunca mais se falou... Ela me convenceu a não ficar com o menino; ele era um mal sujeito, meio encrequeiro e ela tinha razão: eu ia me dar mal junto dele.

- Que bom, então. E daí?

- E daí que eu encontrei o menino da oitava série de novo ano passado. Tava outra pessoa, formado, bem-empregado, e tudo mais. Casado, até... Com a Luci.

 

Coincidências

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Alexia e Flávia estão em mais um sábado a noite compartilhando a solidão de uma azarada e a de uma divorciada.
O programa dessa noite é assistir uma peça de teatro bem engraçada que não as faça pensar em como são rejeitadas.

Escolheram Terça Insana. Todo mundo do trabalho da Alexia foi assistir e voltaram elogiando muito. Elas conseguiram o que queriam. Riram durante uma hora e meia com uma freira, uma ex perseguida pela ditadura, um ex homossexual, uma letra I de bico com o mundo do alfabeto e um fórum das putas.

No final, hora de voltarem para casa, Flávia não sabia como fazer, qual rua deveria tomar.

- Pega a 11 de agosto, Flá.  - Alexia disse quando chegaram a uma bifurcação do centro.
- Eu sei que hoje é dia 11 de agosto, mas e daí? - respondeu Flávia, distraída e com o rádio ligado.
- Hahahahahahahahahahaha! Eu tô falando de pegar a rua! - respondeu Alexia muito contente.
- Ah, tá, entendi!

Quando, depois de quase 30 minutos, conseguiram chegar ao Itapetininga (que ficava há 5 minutos do teatro), no elevador, Alexia começa a ter um ataque de riso incontrolável.

- Você tá bem, amiga? - perguntou Flávia bastante assustada
- Ah, Flá, você não se tocou? A gente passou na  11 de Agosto, no dia 11 de agosto, às 11 horas da noite!

Flávia começou a rir também. 

Cascão Hippie

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- UM HIPPIE?

Margareth estava assustadíssima. Afinal de contas, o que deu na cabeça de sua amiga Alexia para que ela, uma mulher refinada, inteligente e, acima de tudo, higiênica, se engajasse com um hippie?

- Ai, Margô, qual o problema?

- Sei lá. Eles... não tomam banho.

- Bem, o Bento Aristides não é a pessoa mais limpa que eu já vi, é verdade. Mas o que importa? Além do mais, isso é só um preconceito idiota!

- Bom, Alexia... sei lá. Boa sorte. Mas, fica na retranca... imagina o beijo dele? Deve ter gosto de orégano com lentilha! 

- Que bobagem, Margô!

Como dito acima, Bento Aristides é o nome dele. Bento Aristides Joplin Hendrix Moura, 36 anos. Seus pais se orgulham de terem sido amigos de Janis Joplin, daí o nome. Bento Aristides estudou Artes Plásticas na UNICAMP e voltou para São Paulo. Mora em uma casa cheia de gerânios e gatos na Freguesia do Ó. Trabalha na feira hippie (só podia ser lá), vendendo quadros e bijouterias. E foi lá que ele conheceu Alexia.    

Apesar de, na aparência, os dois combinarem tanto quanto feijão e manga, Bento era um homem culto e inteligente, que sabia como tratar uma mulher. Seu comportamento era diferente do normal de um hippie, fora que era um homem sem vaidades e bastante sensível, o que atraiu Alexia. Todo fim de semana, Alexia passava para ver Bento na feira hippie, e a amizade evoluiu para um "caso".

O telefonema acima aconteceu pouco antes do primeiro encontro, no Fran's Café, um lugar que ambos gostavam. Diga-se, esse encontro só serviu para colocar caraminholas na cabeça de Alexia: e se ele não for ao Fran's de banho tomado? Argh! Ele geralmente não cheirava muito bem na feira, mas no encontro deverá ser diferente.

20:00, hora do encontro. Alexia, como sempre, impecável: cabelo arrumado, vestido da Zara, salto alto e perfume Chanel. Bento chegou minutos depois, um pouco melhor arrumado que o normal: barba feita, uma camiseta do Led Zeppelin, calça amarela e um All-Star. O encontro foi ótimo: ambos gostavam de Chico Buarque, de vinho branco, de Freud e, quem diria, de patê de fígado. Mas havia um problema, um problemão: ele fedia, muito. Fedor de falta de banho mesmo.

Ele cheirava tão mal que Alexia quase vomitou a casquinha de siri que ela tinha comido quando os dois se abraçaram na despedida do encontro. Quando ela voltou pra casa, ligou para Margareth:

- Ai, Margô. É do jeito que você disse: ele fede! Mesmo não estando na feira!

- Eu não falei, amiga? O que você vai fazer agora?

- Não sei. Não quero desistir dele. Ele é um rapaz muito interessante.

- Bom, dá uma outra chance pra ele.

Alexia deu. Na semana seguinte, Bento a chamou para ir em sua simplória casa. Lá, os dois comeriam fondue ao som de Beatles. Outra vez, tudo correu muito bem, com exceção do cheiro, que estava ainda pior! Alexia tomou dois dramins durante a noite, para conter as náuseas. Até o fondue tinha um gosto ingrato, o da falta do banho. Vez ou outra, ela até fazia uma cara estranha, ao que Bento respondia algo do tipo:

- Puxa, não sabia que você não gostava de Twist and Shout. Deixa que eu mudo.

No abraço, ela quase desmaiou. Ao voltar, ligou para Margareth de novo:

- Ai, amiga, NÃO DÁ MAIS! 

- Então, termina.

No dia seguinte, Alexia foi excepcionalmente à feira hippie. Lá, conversou amistosamente com Bento, dizendo "olha, você é muito bacana, mas não sei se é isso que eu quero, então é melhor a gente parar por aqui". Bento sorriu cordialmente e aceitou a decisão dela, dizendo que os dois ainda seriam amigos e que ela poderia contar com ele.

- Que bom, Bento. Você é um homem de verdade, que aceita a opinião dos outros.

- Obrigado, Alexia. Mas olha, a gente pode se falar mais tarde? Vou ter de fechar a barraca mais cedo.

- Por quê?

- Vou dar uma passada na Sabesp, porque tá faltando água lá em casa. Faz duas semanas que eu não tomo banho, acredita? E olha que eu nunca tinha ficado um dia sem tomar banho na vida... não tô suportando mais o meu cheiro. Até pensei que você tinha terminado comigo por causa do cheiro, haha.

Dez dicas para sobreviver ao dia dos namorados

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O dia doze de junho para Alexia é, definitivamente, a coisa mais frustrante.
Esse ano, não foi diferente.

Ela acordou cedo para ir para o trabalho. Tomou banho, ligou o rádio e foi preparar o café da manhã. O locutor, que normalmente só faz piadas, estava extremamente romântico fazendo uma linda declaração de amor para a namorada e a pedindo em casamento ao vivo. Ela desligou o rádio. (1)

Pegou seu carro e foi pro trabalho. Pegou um congestionamento gigantesco. Passando pela ponte, descobriu o motivo. Uma declaração de amor em um bungee jump.
Alexia pensou "Oras...depois morre e o amor fica onde? Povo doido!" com uma bela pontada de inveja e tomou um atalho mais longo, mas menos movimentado. (2)

No trabalho, a colega dela, a mais chata e que passava todos os dias falando para Alexia como seria o seu casamento, recebeu uma serenata daquelas com duas mulheres vestidas como nos anos 20 e um homem tocando violão.
E Alexia pensando o que aquela nariguda, magrela e fútil tinha de melhor que ela...Pelo menos ela não precisou ouvir que os bonequinhos do bolo seriam customizados.

No almoço, todos os colegas de Alexia foram comer com seus respectivos pares. Exceto aquele nerd do departamento de informática, que não lava os cabelos nem o rosto e tem um aspecto bastante seboso. Ela almoçou com ele. (3)
Se não bastasse isso, o restaurante estava lotado de casais trocando presentes, beijos e carinhos.
Alexia fingiu que seu estômago não estava muito bem e voltou mais cedo pro Itapetininga. (4)

Entrou, tirou os sapatos, ligou a TV. Todos os programas da tarde falavam sobre aquele casalzinho novo, rico e famoso. Desligou a TV. (5)

Aquilo já se tornara perseguição!

Se arrumou, colocou suas sandálias mais bonitas. (6)
O vestido com a maior fenda e decote que encontrou. (7)
Se maquiou, colocou aquele batom vermelho e foi para a aula de Enologia. (8)

Depois de passar por pelo menos 30 carros lentos onde os namorados andavam abraçados, chegou à escola.
Uma tabuleta na porta "Devido ao dia dos namorados, não teremos aula hoje. Até a próxima aula e feliz dia dos namorados" Com direito a coraçãozinho vermelho e tudo

O que fazer numa terça a noite, sozinha? Pegou o jornal...Tinha um filme ótimo passando, mas de jeito nenhum, ela não ia pro cinema no dia dos namorados! (9)

Voltou pra casa. Interfone tocando. Era Flávia.

- Alê? Não tinha aula hoje?
- Tinha, mas você sabe, hoje é o dia maldito...
- Sei...Quase liguei pro meu ex-marido hoje...Se não fosse o Joãozinho cair e começar a chorar...
- Chuta que é macumba, amiga! Como tá o João? Melhorou do tombo?
- Já sim...Tá dormindo. Ai, amiga, tô quase ligando pro falecido! Esse dia dos namorados tá me matando!
- Calma, amiga! Quer que eu suba? Tem um resto de champanhe do Juan aqui e alguns DVDs...
- Ai, Alê! Você faria isso por mim? Vem sim!
- Faria por nós duas! Já vou! (10)

Alexia separou os DVDs...
Mas que droga! Só tinha coisa melosa: Um Lugar Chamado Notting Hill, Uma Linda Mulher, Doce Novembro, Um Amor Para Recordar, Diário de Uma Paixão, E O Vento Levou...

Toca a campainha. Flávia corre com suas pantufas de salto alto.

- Oie! Ué, cadê seus DVDs?
- Ah, não achei nenhum apropriado pra hoje e pensei que você tivesse alguma coisa...
- Ai, não sei...Quem tem mais DVD é o João...Sabe como é, não tinha muito tempo de assistir quando o Falecido morava aqui, mas deve ter alguma coisa sim.

E elas terminaram a noite tomando champanhe com pipoca e assistindo O Rei Leão e chorando quando tocava Nesta Noite O Amor Chegou...

Pior para Regina Almeida, que além de ficar com Hakuna Matata o dia inteiro na cabeça ainda foi obrigada a ouvir o salto alto de Alexia também.

William

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E entrou um aluno novo nas aulas de enologia que nossa querida Alexia frequenta.

O tipinho em questão se chama William Heandersen Schultz. No seu primeiro dia, apresentou-se como um "executivo que adorava a gastronomia e a enologia e que gosta de experimentar coisas novas". Era um boa-pinta, com cara desses germânicos de 1m85 que vêm para o Brasil em busca de prostituição barata e Carnaval. Mas apesar da aparência e do nome, era brasileiro, muito bem nascido.

William tem 35 anos e nasceu em Blumenau, Santa Catarina. Filho de uma médica e do diretor da filial da Bayer em Santa Catarina, sempre teve uma vida confortável. Depois de estudar Administração na UFSC, William se mudou para a Alemanha e por lá ficou 8 anos fazendo doutorado e MBA em Frankfurt e trabalhando na DHL. Em 2005, voltou pro Brasil. Hoje, é diretor geral da Kärcher do Brasil. Mora em um duplex na Avenida Paulista, anda de Audi A6 e passa as férias nos Alpes. Sozinho.

As mulheres, solteiras e casadas, se interessaram muito por aquele cara. Endinheirado, loiro, alto, olhos azuis, que fala francês e italiano fluentemente, solteiro! Por acidente do destino, Alexia foi uma das poucas que despertou seu interesse. Ambos se tornaram ótimos amigos, o que despertava muita inveja nas outras mulheres. E também nos homens: eu sou careca, tenho barriga de cerveja, não tenho um Audi, não sou loiro, não tenho olhos azuis e matava as aulas de francês na escola!

Aos poucos, a amizade foi avançando e ultrapassou os limites das aulas de enologia. Telefone, e-mail, SMS, orkut, até telegrama. Aos poucos, William se tornou o motivo de viver para Alexia. Não demorou muito e os dois combinaram de sair.

Alexia estava morrendo de medo. E se der errado, como nas outras 4129 vezes? E se eu descobrir que ele é gay? Ou que tem outra? Ou que tem uma doença terminal? Ou que irá embora para a Alemanha e nunca mais irá voltar? Bom, um dia a sorte teria de abençoá-la.

Abençoou. O encontro foi fer-peito! Os dois foram em um restaurante francês, William pagou a conta, o coq au vin estava perfeito, e o vinho branco estava melhor ainda! Fora o buquê trazido por William. William, além de endinheirado e boa-pinta, era sociável, simpático, engraçado, inteligente e espontâneo. Na semana seguinte, se veriam de novo. E na outra. E na outra. E na outra. Estavam namorando. O primeiro namoro de Alexia! Com o melhor homem do mundo!

Eles ficaram 5 anos assim. Um namoro perfeito. Cada vez mais, eles se amavam. Um dia, a pergunta, tão surpreendente quanto crucial:

- Vamos?

Uma caixinha. Dentro, duas alianças. Um pedido de casamento. Foi lindo, perfeito! Uma mulher não podia ser mais feliz! Alexia estava sonhando.

O casamento seria uma festança. A igreja seria, veja só, a Catedral da Sé. Em seguida, de limusine, eles iriam para um salão de festas no Alto dos Pinheiros, onde teria comida japonesa e francesa, as duas preferidas de Alexia. Muitos convidados. Glamour, luxo e felicidade. Depois disso, passariam a lua-de-mel no Chipre.

Tudo correu certo até o dia. Um vestido lindo. Seu cabelo, suas mãos e pés não podiam estar em melhor estado. Sua mãe repetia e repetia "você deu sorte, minha filha". Isso não podia estar acontecendo.

Chega o horário do casamento. A noiva, depois de 30 minutos de atraso, entrou na igreja. Cerca de 200 pessoas estavam vendo. Sua mãe, chorando. Suas amigas dando tchauzinho. Até aquela vizinha, que a odiava quando Alexia era uma criança, estava lá, chorando. Alexia estava emocionada. William, boa-pinta, como sempre, estava lá, todo seguro de si.

Depois da missa e de todos os ritos, veio o momento definitivo. A pergunta de William:

- Alexia, você aceita se casar comigo?

- Eu ac...

 

Toca o despertador.

Pepinos estragados - Parte II

Quem tem pressa come cru! Leia a primeira parte!

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Era um daqueles dias ensolarados, bem quentes. Aliás, extremamente quentes. Céu azul, crianças sorrindo, gramado verde (tudo bem que não existem crianças sorrindo, muito menos gramado verde no Itapetininga). Alexia acordou de ótimo humor. Era o dia de ver Juan na sua casa.

Tudo encaminharia perfeitamente bem, se não fosse uma coisa que assustava Alexia: Juan queria cozinhar para ela. Chef de cozinha nas horas vagas, ele queria mostrar a Alexia que entendia de nouvelle cuisine. Nouvelle cuisine? Sei, sei... mas tudo bem, ele entende que eu não tenho o mesmo paladar que ele, pensou Alexia.

O encontro estava marcado para as 19h, mas Juan chegou às 16h, o que pegou Alexia de surpresa. Juan, todo empolgado, trouxe uma sacola de compras. Puxa, ele realmente parecia empolgado com esse negócio de cozinhar para Alexia. Dentro da sacola, champanhe Möet-Chandon, trufas negras, shiitake, endívias, enfim, apenas coisas chiques. Pois é, a noite soava gastronomicamente espetacular.

Mas Alexia ainda não estava arrumada. Então, o combinado foi o seguinte: ela se arrumaria enquanto ele prepararia tudo. E Alexia ficou espetacular: aquele vestido da Louis Vuitton, salto alto, unhas e cabelo renovados, tudo perfeito. Depois de 1h30 se arrumando, provavelmente, estaria tudo pronto.

Bem, estava. Juan preparou o que ele chama de "peixada à chinesa". Puxa vida, justo peixe? Alexia odeia peixe, mas ela comeria para agradar seu Monsieur Troisgros. Mas por que chinesa? A explicação veio quando ela abriu a panela: um punhado de coisas misturadas! Punhado mesmo! Tinha de tudo, ingredientes animais, vegetais, minerais e se bobear, até ingredientes espectrais. Brócolis, carne de sol, mariscos, nozes... que diabos de mistureba é essa?

Alexia não podia dizer não, ainda mais com a cara empolgada de Juan, como se ele tivesse feito a oitava maravilha do mundo. Com um sorriso amarelo, ela colocou um pouco no prato, respirou fundo e deu algumas garfadas. De repente, os olhos arregalam:

- Tem cenoura no cozido????

Que droga, Alexia era alérgica à cenoura. Depois de passar alguns agradáveis minutos com asfixia e toda empipocada, Alexia se recompôs:

- Estava meio forte, mas eu tenho uma pergunta.

- Diga, Lê.

- Eu senti um gostinho de pepino, meio diferente. Por acaso...

- Se eu usei o vidrinho que estava na geladeira? Usei. Não podia?

- Você usou o vidrinho com pepino estragado?????

- Não era pepino em conserva?

- NÃO!

Pobre Alexia. Foram três dias alternando entre o Floratil e o Dramin. Nem preciso dizer que o curto relacionamento acabou por aí.

Juan, depois disso, arranjou uma namorada libanesa, que gostava de pão com shoyu e homus com feijão. Romântico. Quanto à Alexia, "se eu cruzar com a Ana Maria Braga, dou-lhe um tiro na cabeça"!

Pepinos estragados - Parte I

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Alexia Cavalcante é uma pessoa que, em teoria, não se encontra no (baixo) nível dos moradores do Itapetininga. Ao contrário da maioria dos moradores, é uma pessoa normal. Aliás, está muito acima do normal.

Se Alexia está aqui é porque deve ter algum defeito ou problema grande, além do nome esquisito. Ela é feia? Nem um pouco. Já foi confundida com uma miss venezuelana e com a Carol Castro. Bom, deve ser burra que nem uma porta. Também não é. Ou uma pessoa que fez pós-doutorado em Biologia na Bélgica e que fala 6 línguas pode ser chamada de burra? Deve ser uma mulher antipática, então. Muito pelo contrário: simpática, expansiva e humilde. Também não é pobre, não fede, não é problemática. Então deve ser homossexual! Não é.

Então o que diabos uma pessoa como essa faz no Itapetininga? O caso é que Alexia tem azar no amor. Muito azar. Em especial, sempre nos primeiros encontros. Em muitos casos, no primeiro. E isso é o motivo crucial para, aos 31 anos, nunca ter conseguido ter tido um relacionamento sério. Obviamente, já teve rolos e amizades coloridas. Mas nada além disso. 

E a idade vem chegando e ela se encontra solteira. E a vontade de ter filhos? E o medo da menopausa? Pois é, e por isso ela vem atirando para todos os lados. Faz curso de enologia, de artes plásticas e retomou o curso de Italiano exatamente para tentar encontrar alguém interessante. E, olha que coincidência, um rapaz, Juan Castro, boa pinta, aparentando ter uns 35 anos, e, veja só, solteiro, fazendo os mesmos cursos de enologia e de Italiano que ela. Papo vai, papo vem, ambos se tornam amigos. O resto é previsível, né? O cupido entra em ação e marca o primeiro encontro entre os dois, para o sábado, no Shopping Iguatemi.

Alexia morre de medo: e se eu tiver uma crise de enxaqueca? E se ele se revelar que é homossexual? E se eu bater o carro? E se? E se? Levar o santinho e usar o tamanco da sorte é até pouco para deixá-la tranquila. 

Na verdade, o encontro acabou sendo ótimo. Juan é simpático, divertido, inteligente. Até cavalheiro ele foi, ao pagar o jantar pra ela. E aí começa um pedaço do problema. Juan tem um paladar um tanto quanto inusitado: polvo ao molho de ervilhas e cozido de shimeji com goiabada e queijo emmental. Delicioso pra ele. Quando os dois se beijaram, Alexia jura que sentiu um tentáculo se movendo em sua boca. Fora aquele gosto de goiabada com cogumelo... bem, deixa pra lá.

Os outros encontros foram tão agradáveis quanto, do mesmo jeito que deixavam um sabor estranho na boca de Alexia, literalmente. Ou peixe ao molho de mexericas e soja é algo comum? E arraia ao molho de conhaque e batata doce? Credo. Mas quem se importa? Alexia estava feliz, seu relacionamento estava indo bem, nunca tinha durado tanto. Até o dia em que Alexia convidou Juan para ir em sua casa...