"Eu quero um apartamento pequeno, velho e sem varanda..." - I

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Dinorá recebe a primeira ligação no seu escritório recém-inaugurado no Itapetininga.

- Imóveis, bom dia.

- Oi, você tem apartamentos de dois quartos na região central?

- Claro, várias opções. Que tipo você tá procurando?

- Um bem central mesmo, meio pequeno... Sabe? Pra não dar muito trabalho de limpar. E não precisa ser muito novo não.

- Bem, então olha... Eu tenho um aqui nesse prédio mesmo onde eu trabalho. São dois dormitórios mais uma dependência de empregada, no décimo primeiro andar... Com garagem. Ah, a vista é ótima!

- Não tem nada num andar mais baixo?

- Tem no mesmo prédio, o mesmo tipo de apartamento, mas no sexto andar.

- Ótimo. Tem varanda?

- Não... Com varanda eu tenho um no...

- Não, não precisa! É que eu não queria mesmo, hehe. Piscina tem?

- Ah, no centro é difícil achar com piscina, né? Mas a...

- Ótimo! Nada de piscina. Tem algum playground? Área de convívio, churrasqueira?

- Não, não. Aqui é só o prédio mesmo, hehe.

- Perfeito então! Quando eu posso visitar?

- A hora que você quiser. É só passar no 202 do Itapetininga. O apartamento fica na portaria ao lado.

- Obrigada. Ahh... Não tem churrasqueira mesmo, né?

- Não senhora.

"Tem gosto pra tudo nesse mundo, né? Sem sacada, sem piscina... Ah, bom pra mim."

Ego

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"Rickie B. Rockfeller desce de seu Rolls Royce Silver Spur. O motorista o desembarca em frente ao Montecito Resort. Depois de uma longa viagem, "mister" Rockfeller, 33, magnata, dono de um conglomerado de empresas que incluía uma petrolífera e uma rede de fast food, se encontrava na efusiva Las Vegas, talvez a maior cidade de mentira do mundo.

Rickie era um yuppie no auge da exuberância que os petrodólares e os hambúrgueres gordurosos podiam comprar. Alto, bonito, de cabelo sempre penteado, terno e sapatos italianos, ele dispensa o casino. Queria algo mais terreno, como uma caminhada. Era noite em Las Vegas, as luzes dos cabarés e dos letreiros da Sony se misturavam na escuridão.

De óculos escuros e sorriso Colgate, Rickie caminhava tranqüilamente pela calçada, altivo e seguro de sua superioridade. De repente, ele é barrado por uma mulher loira, de beleza razoável.

- Pois não?

- Desculpe, mas você não é o Brian?

- Não, não sou. Passar bem.

- Espera. Podemos nos conhecer melhor.

- OK, qual é o seu nome?

- Julia. Julia Roberts, prazer.

- Tá, Julia. Meu nome é Rickie B. Rockfeller. Tchau.

Rickie esnoba a tal mulherzinha. Tudo o que ele queria era sossego. Só que não demora muito e uma outra aparece:

- Oi, bonitão.

- Não acredito! Mais uma prostituta?

- Não sou prostituta, hehe. Sou atriz, estou passando as minhas férias aqui.

- OK, não me importa, até mais.

- Puxa... vai me deixar aqui, sozinha?

- Vou. E dê um pulo no médico. Sua boca está inchada.

Angelina Jolie não era lá grandes coisas, mesmo. E enquanto Rickie andava, as mulheres se impressionavam e os homens se mordiam de inveja. Como podia, alguém tão perfeito, tão superior como Rickie B. Rockfeller, existir e sair por aí, impunemente? A vida é uma injustiça. As qualidades nos seres humanos são tão escassas, e Rockfeller concentrava boa parte delas. Ele detém o poder. E a beleza. Ele é o máximo. Os postes se intimidam com sua luz. Ele... "

- Deuterônimo! Já são seis horas! Hora de tomar seu remédio pra ansiedade e de fazer seus exercícios de matemática!

- Já vou, mãe.

- Ah, garoto, esse tal de Second Life só atrapalha sua vida! 

O búlgaro, o Sérvio e o russo (2)

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Tem duas semanas, o Sérvio (um rapaz totalmente brasileiro) descobriu a existência de um búlgaro (totalmente búlgaro) morando no Itapetininga.  O Pável (totalmente russo) não ficou tão interessado assim, mas e daí?

O caso é que o Sérvio (aliás João Roberto) estava na portaria esperando o Pável descer. Quando o russo chegou, o Sérvio estava todo animado, quase saltitando:

- Pável, Pável, sabe quem passou por aqui?

- ?

- O búlgaro! O búlgaro que mora aqui.

- Agora?

- Subindo, vindo com um pouco de pão, algo mais da padaria. Um velho loiro, alto. Vi no painel do elevador que ele foi pro segundo andar. Ele estava resmungando em búlgaro... Em búlgaro!

- Você ientendeu alguma coisa?

- Nada.

- Que bom! De fato, isso é muito bom, realmente é muito bom sinal para você, sabe?

O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)

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O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.

- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.

- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.

- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.

- Um búlgaro? Que concidyência.

- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.

(a história continua)

O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)

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O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.

- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.

- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.

- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.

- Um búlgaro? Que concidyência.

- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.

(a história continua)

Calor Latino - Parte II

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Soledad chegou no Aeroporto de Congonhas em 14 de Maio de 1976. O combinado era que Soledad fosse para o guichê da American Airlines esperar Enrique Fernando. E ela ficou esperando ele no guichê. Mas ele não havia aparecido até as 22h.

Soledad ficou preocupada. ¿Lo que se pasó con mi amor?, pensava ela. E enquanto pensava no que acontecia, ela foi olhar pra lua na janela, pensando em Enrique Fernando. Mas ela percebe que há algo de errado lá embaixo... fogo. Muita gente em volta. Sirenes.

Soledad, por curiosidade, desce e vai ver o que está acontecendo. Nossa, por Deus e Nossa Senhora de Guadalupe! Um acidente de carro. Médicos, enfermeiros e policiais em volta retirando os feridos. E, como manda o folhetim, um dos feridos era... sim, exatamente ele, Enrique Fernando. O estado dele era bem grave e, como manda o folhetim, ele morreu naquela madrugada do dia 15 de Maio de 1976.

Pobrezinha da Soledad. Estava perdida, sem dinheiro para voltar para o México e não sabia nada da língua. Mas ao contrário do búlgaro que habita o Itapê, Soledad se virou e foi à luta. Começou a trabalhar como babá, ajudante de cozinha e faxineira. Aos poucos, seu portunhol quase chulo virou um portunhol muito bem hablado. Soledad conseguiu constituir uma vida no Brasil e até se casou. Só que aqui não houve influência do folhetim: seu marido, Lauro, é um bêbado, mal-educado e galinha.

Os dois moram no Itapetininga desde 1989. Hoje em dia, Soledad trabalha apenas como babá ("me gusta mucho los niños"). É ela quem sustenta a casa, o marido vagabundo e o filho drogado. Mas ela faz isso com aquela alegria de personagem coadjuvante de novela mexicana. Gosta de tudo e de todos. Não se importa com seu marido e seu filho: sua vida é mais interessante do que isso.

Mas Soledad também tem seus defeitos: gosta DEMAIS de pimenta (o que gera problemas com os estômagos pouco acostumados de seu marido e filho), não lava o cabelo por superstição (acredita que o shampoo tira todas as energias boas do corpo) e talvez o mais visível (e audível): sabe aquela mexicana empolgada, que fala bastante? Pois é, Soledad fala, e fala MUITO, e fala MUITO RÁPIDO, e fala PORTUNHOL. Holatudobienquebomacáestátudomuybien mimaridoestáemcasaassistindotelevisiónemifilhoestáemlaescola...

Soledad é uma pessoa bacana, que empresta farinha de trigo para os vizinhos, que joga o lixo no lixo e que diz "buenosdiascomoestáeuestoymuybienblablabla..." para todo mundo. Amicíssima da síndica, que chama ela de "foquinha". Soledad a chama de "mumita". São grandes amigas. Essa é Soledad, a a mexicana que todo mundo gosta. Soloquetieneumporén:quelaspessoasevitamconversarmuchoconelapormotivos absolutamenteobviosmasnontemproblemalaspessoasgustandesoledadmismoassim.

 

Calor Latino - Parte I

A nova novela das 6, no SBT

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Devota de Nossa Senhora de Guadalupe, Soledad Días é uma rara moradora simpática e feliz do Itapetininga. Muito feliz. Dona de um sorriso sincero (embora os dentes não sejam os mais bem cuidados) e de uma alegria incomparável, Soledad é uma das moradoras mais queridas do Itapetininga, pra não dizer que é uma das únicas pessoas queridas. Mexicana de Acapulco, 51 anos, 1m56, cabelo preso, cara de asteca. Impossível não reconhecê-la.

Soledad veio para o Brasil em 1976, quando tinha 20 anos. Até então, morava na periferia de Acapulco e trabalhava vendendo os tacos que sua mãe Belita produzia. Mas não pense que Soledad veio para cá por acaso. Ela veio para cá por causa de Enrique Fernando Cortez y Villa. Uma passagem bastante trágica, diga-se.

Enrique Fernando era aquilo que vemos em toda novela mexicana: homem alto, de franja, cara de sedutor latino, terno e voz de ator de Hollywood. E como não podia deixar de ser, era rico também: tinha um alto cargo na Bosch mexicana. O folhetim é previsível: os dois se conheceram em 1975 na praia, quando Soledad ofereceu tacos para Enrique Fernando. Ele, que naquela altura, estava casado com Luna, uma perua fútil e futriqueira, se interessou muito pela simplicidade e espontaneidade de Soledad. 

Os dois passaram a se encontrar toda sexta-feira à noite. Ficavam na praia, olhando pra lua, jogando água um no outro e outras coisas mais íntimas. Era um sonho para a pobre Soledad, mas um sonho que estava prestes a acabar: Luna acabou descobrindo o romance paralelo. E como era filha do diretor geral da Bosch mexicana, acabou se vingando dos dois: pediu para seu pai para que Enrique Fernando fosse transferido para longe de Soledad. 

Enrique Fernando acabou sendo mandado para o Brasil no início de 1976. Mas os dois não queriam ficar separados e Soledad acabou prometendo que iria atrás dele no Brasil. Ela só precisaria de dinheiro para isso. O plano era que os dois se encontrassem por lá e se casassem em seguida. 

Três meses depois de Enrique Fernando ir, Soledad conseguiu o dinheiro necessário para ir para o Brasil. Depois, o resto do plano seria concretizado e ela viveria com ele feliz para sempre. Não foi bem assim...  

 

Ex-funcionário público e ex-fiscal do Sarney

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Não queria se aproximar Afanásio Ferreira. Quem passa por sua vida, não importa como, onde, quando e porquê, terá algum problema, infortúnio ou desgraça. Sempre, é claro, pela mente frustrada e antipática de Afanásio.

Afanásio mora em um apartamento sujo, de um quarto só, que é composto por embalagens vazias de comida de microondas, garrafas de 51 vazias, Playboys e alguns vinis do Sidney Magal, seu cantor preferido. A aparência de Afanásio combina bastante com a de seu apartamento: careca, acabado pelo efeito do álcool, baixinho, barrigudo, monocelha, nariz de batata inglesa, uma carranca imutável. Este é Afanásio, não queira se aproximar dele.

Afanásio nasceu em Juiz de Fora, em 1957. Sendo o filho caçula de uma família de 10 irmãos, Afanásio teve uma infância tranquila, jogava pião, brincava de pega-pega, enfim, essa infância saudável e impossível em dias contemporâneos. Seu sonho era ser jogador de futebol e seu ídolo era Rivelino, astro da Copa de 70. E sua primeira frustração começa aí, aos 14 anos. Tentou passar por uma peneira no time do Cruzeiro, mas foi reprovado, por ser baixinho, ter pernas curtas e pouco fôlego. A partir daí, Afanásio passou a ter certa raiva do futebol.

Bom, o raivoso Afanásio se converteu em um insano quando foi chamado para serviço militar, em 1975. Lá, comeu a padaria toda que o diabo amassou. Teve de passar por situações agradáveis como dormir 2 horas por dia, comer frango cru e passar as madrugadas de 7ºC do inverno mineiro dormindo apenas de ceroulas. Ficou nessa situação por 2 anos. Mesmo assim, gostou do negócio e ficou por lá até 1983, como soldado. Quando estava prestes a entrar para a Companhia, decidiu abandonar tudo, cansado daquela vida. O Afanásio do Exército aprendeu a beber como um russo deprimido, a fumar como um estudante de Ciências Sociais, a falar palavrões como um jogador de futebol efervecido. Enfim, virou um lixo.

Depois, Afanásio decidiu fazer uma faculdade. Acabou fazendo Ciências Contábeis em "Berzonte" e ficou ainda mais chato. Em 1988, foi para São Paulo e se instalou no Itapetininga, ficando lá até hoje. Desde então, trabalhou em tudo quanto é tipo de lugar burocrático e que existe para fazer um funcionário virar inimigo público número um: em um gabinete da prefeitura, no balcão do Procon, como fiscal da vigilância sanitária, como cobrador de impostos, como inspetor de alunos de escola pública, como tudo que é detestável. Atualmente, trabalha como delegado de exame de direção veicular. Dizem que os candidatos que pegam ele como delegado devem se preparar para chorar: ele reprova quase 90% dos candidatos que passam com ele.

Não dá pra dizer que Afanásio seja feliz ou triste com sua vida patética. Tirando alguns bebuns profissionais, não tem amigos, já teve duas namoradas, que o deixaram para trás por motivos bem próximos (uma pelo fato dele beber, outra pelo fato dele fumar), os vizinhos costumam evitá-lo e até saem de perto dele (estima-se que um apartamento próximo ao dele valha até 20% menos). Também, o que dizer de um cara que se orgulhava em ser fiscal do Sarney? Mas Afanásio não é só um cara que passa a vida sendo rude e bebendo. Ele também tem um amor... ah, Matilde.

Pena que o amor não seja recíproco. Matilde é instrutora de auto-escola e os dois se conhecem há quatro anos. Teoricamente, Matilde odeia Afanásio, mas sai com ele de vez em quando, em horário comercial. Sai a contragosto. Isso porque Afanásio viu Matilde beijando e fazendo coisas mais íntimas com alguns alunos. E Afanásio conhece o marido de Matilde. Então, para manter a boca um túmulo, Afanásio pede algumas coisas em troca. Feio, né? Isso é só uma amostra do caráter de Afanásio.

Se um dia quiser ver Afanásio, é só ir no boteco que fica a quatro quadras de distância do Itapetininga, o Boteco dos Amigo (sim, sem o S final). Lá você verá o tal baixinho barrigudo, coçando certas partes e dando risada enquanto entorna meia garrafa de vinho vagabundo com alguns colegas clones em aparência e comportamento. E lá você poderá ouvir histórias do tipo "reprovei uma menininha bonitinha pra caramba, e ela ficava ainda mais bonitinha chorando". Esse é Afanásio. Mas se você quiser vê-lo, fique bem distante. Não queira se aproximar dele.

Estranho, eu? II

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Duas horas depois.

(Som de campainha chata)

- Oba, João!
- Oi! É... Desculpa incomodar... Mas, você viu meu narguilé aí?
Já chamei, chamei, e nada dele aparecer... Acho que ele fugiu.
- Não vi, cara! Mas faz uns 10 minutos que ouvi um barulho na sua fechadura.

...

Estranho, eu?

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Dois vizinhos de meia idade se cruzam, um entrando e outro saindo:

- Carlos! Tudo bom, meu rapaz?
- Bem, e as coisas aí como vão?
- Ah, bem bem... Viu a vizinha nova, que pitelzinho?
- Não, nem vi. Não é nenhuma romena, né?
- Romena? Haha. Acho que não, por que?
- Cara... É que só muda gente esquisita pra esse prédio.
- Verdade, cheio de gringo, menina de cabelo verde, gente carregando galo, cabra...
- É. Acho que de normal, só a gente mesmo, haha.
- Verdade. Vai me desculpar, mas tenho que ir...
- Tudo bem, acabei de voltar da feira, ainda tenho que almoçar.
- Tá bem... Mas que é isso aí na sacola? Parece que tá mexendo...
- Aham, tá sim. São umas aranhas e umas mariposas que eu peguei no caminho.
- Nossa, e pra quê?
- Pra alimentar minha planta carnívora, tô achando ela meio desnutrida.
- Certo! Até logo. E aparece em casa qualquer hora pra experimentar meu narguilé novo.
- Ótimo. A gente se vê, até!

Búlgaro - 2ª parte

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(continuação)

Pois é, Yevgeny havia sido roubado. Estava apenas com a roupa do corpo, em pleno Aeroporto Santos Dumont, sem dinheiro, sem documentos, sem nada!

Yevgeny deixou o banheiro consternado, quando viu uma quadrilha levando as malas e tudo o que ele tinha. O que se seguiu foi um corre-corre até pra fora do aeroporto, onde a quadrilha conseguiu sumir da vista dele. Era de noite e nosso astro precisava de um lugar pra ficar, de alguma coisa assim. Uma simpática moça percebeu que ele estava sozinho e sem o que fazer e ofereceu sua casa para ele ficar lá esta noite e Yevgeny, inocentemente, aceitou.

No dia seguinte, quando Yevgeny acordou, ele estava nu e abandonado no acostamento da Via Dutra! Até as roupas foram roubadas! Maldita mulher!

Desesperado, ele começou a gritar e a fazer escândalos para os carros que passavam. Pessoas próximas ligaram para a polícia e Yevgeny foi levado a um distrito policial. Os policiais não acreditaram na história de que ele era um ator de sucesso na Bulgária e o mandaram para um manicômio em São Paulo.

Yevgeny ficou 29 anos neste manicômio. Fugiu, aos 59 anos, quando encontrou algumas portas abertas e um monitor dormindo. Nesse período, aprendeu quase nada de português e a pintar quadros abstratos. Passou a viver de vender os quadros que pintou no manicômio em feiras livres. Com o dinheiro, começou a procurar um lugar para viver, já que ele estava dormindo em albergues ou na rua. Encontrou um apartamento de um dormitório no edifício Itapetininga e mora lá até hoje.

Hoje em dia, Yevgeny é um desconhecido para todo mundo. Ninguém sabe sua história. Fechado, desconfiado e anti-social, não fala com os vizinhos nem aparece nas reuniões do condomínio. Mal sabe se comunicar em português e desaprendeu, com o tempo, as línguas aprendidas na Suíça. A exuberância vista na Bulgária deu lugar a uma carranca imutável no Brasil. Quando não está vendendo, está pintando ou conversando sozinho não se sabe o quê em búlgaro e em voz alta.

Pelo visto, as prováveis buscas feitas pelos governos brasileiro e búlgaro não deram resultado. Yevgeny é um sujeito deprimido, sem dinheiro, envelhecido e ignorado por todos. Maldita hora em que decidiu usar o banheiro!

Búlgaro

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Yevgeny Maliknov, além do nome difícil, tem uma história medonha. Muito medonha.

Yevgeny nasceu em 1942, em Sofia, Bulgária. De família rica (pai dono da maior fábrica de espelhos do país, mãe atriz), sempre teve do bom e do melhor em sua casa: comida boa, brinquedos, viagens, vários empregados no seu pé, enfim, era uma criança sortuda.

Aos 9 anos, Yevgeny foi estudar na Suíça. Lá, pôde aprender inglês, francês, alemão e italiano. Entrou na Universidade de Gênova aos 17 anos para estudar Artes Cênicas. Saiu de lá e voltou ao seu país em 1964. Sua mãe lhe arranjou um papel de segunda linha em um filme, um jornaleiro. Sua atuação foi excelente e ele foi escalado para fazer cerca de 120 filmes, virando um dos astros da Bulgária. Yevgeny tinha o perfil ideal para ídolo: loiro, alto, olhos azuis, voz grave, carismático, sorriso de comercial de creme dental. Aos 28 anos, estava no auge, com dinheiro, namoradas belíssimas e fama. Mas o destino, como sempre, pregando suas peças...

Em 1972, Yevgeny decidiu tirar umas férias em Aruba. Embarcou no dia 14 de Março em um avião velho da Lithuanian Airlines que iria para o Rio de Janeiro. De lá, Yevgeny pegaria um outro avião para Aruba. Até aí, tudo bem. Vôo tranquilo e Yevgeny chega perfeitamente bem no Rio. Depois de horas de viagem, o astro teve de ir ao banheiro no aeroporto. Com muita prudência, ele deixou as malas com carteira e documentos do lado de fora da cabine do banheiro e entrou nela. Quando saiu, onde estava seus pertences??

(continua)