A família do Franz

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A família do Franz estava em festa. Dona Iracema e seu Giuseppe, os pais de Franz e Melissa, comemorariam bodas de prata. Foram 25 anos de um casamento perfeito e de uma família unida, coesa, com filhos maravilhosos e felizes. A festa não seria pequena: contaria com parentes, amigos, vizinhos. Era um acontecimento da pequena cidade de Cruzália, interior de São Paulo.

Teoricamente, a festa não contaria com a participação de Franz. Não fazia sentido, para ele, encontrar o pai, a irmã chata, os tios caipiras ou os primos invejosos. Franz, na verdade, só foi em respeito à mãe. E, a pedidos desta, levaria Marina também. "Quero conhecer minha nora", disse. 

Dentro do carro:

- Olha, amor, se eu não conversar com ninguém lá, não se assusta. Meu pai só sabe arrotar na mesa, a Melissa só reclama da vida, meus tios só ficam falando do Palmeiras e eu mal conheço o resto. Compensa você ficar conversando com a Fofinha, a leitoa de estimação da minha mãe...

- Ai, Franz, não diz besteira. Pára de implicar com todo mundo!

- Eles são mal-educados, barulhentos, atrasados, fofoqueiros e provincianos. Do tipo que se olhassem pro MASP, diriam "cambada de pedreiro burro, sô, fizero tudo errado"!

- Tsc tsc...

Depois de uma longa viagem, o casal chega a uma fazenda, com o antagônico nome de "Harmonia". Era a fazenda onde o Franz tinha sido criado até ir pra São Paulo. 

- Fraaaaaanz, meu filho! - dona Iracema o recebe com AQUELE abraço.

- Marina, esta é a tal da mamãe. E aquele bêbado barrigudo de camisa listrada que tá rindo feito idiota é o marido dela.

- Franz, não fala assim do seu pai!

Deu um certo trabalho apresentar todos os 84 presentes na festa, ainda mais pessoas como "Marina, este é o vizinho do amigo do tio do meu pai... ou da minha mãe?".

A melhor parte da festa, sem dúvida, estava na mesa. Leitão à pururuca, lombo recheado, maionese, polenta ao sugo, pudim ao leite com ameixas, doce de abóbora, tudo isso regado a vinho tinto. Franz e Marina, como bons anti-sociais cosmopolitas, sentaram em qualquer lugar com seus pratos enquanto as pessoas passavam e diziam qualquer coisa como:

- Ah... é essazinha aí que é sua namorada?, Franz?

.

- Nossa, mal começaram e você já está grávida?

- Mas eu não estou grávida!

- Tia, cala a boca!

.

- O cabelo dessa aí não era bonito como o daquela sua outra namorada...

- E você pode vir falar bastante dela com esse seu cabelo tingido com mostarda Arisco, né?

.

- Ah, vem mais aqui, que eu te levo pra conhecer a minha igreja... lá você vai realmente conhecer o caminho das pedras!

- A Marina não é garimpeira, porra!

.

- Quem é você?

- Como assim? Eu sou o Franz, o filho da Iracema e do Giuseppe!

- Iracema? Giuseppe?

Mas o pior veio da Melissa:

- O que você tá fazendo aqui? Você não gosta do papai.

- Você manda  em mim?

- N...

- Minha filha, você não consegue nem mandar no seu filho ou no seu marido. Olha ele lá, o moleque quebrando o câmbio do trator da fazenda. Enquanto isso, seu marido tá conversando com aquela prima nossa que é modelo da Ford. Então, não me enche o saco.

- A propósito, eu achei que sua namorada era mais bonita.

Aí a Marina enfureceu.

- Pelo menos, não tenho chifres nem flatulências!

- FRANZ! Você conta coisas íntimas minhas para ela?

- Vá cuidar do seu marido. Olha ele colocando as mãos em território proibido na modelo da Ford...

.

A festa seguiu em um panorama mais ou menos constante. "Seo" Giuseppe se matava de beber caninha. Dona Iracema, solícita e simpaticíssima, tratava de atender bem as outras 85 pessoas da festa. Melissa reclamava. As crianças corriam pela casa. Alguns tios bebiam, outros comiam feito porcos, outros brigavam por causa do futebol. O bolo era gorduroso. Os animais, na média, estavam mais civilizados que os humanos. Franz? Sentado, evitando conversar com as pessoas. Marina? Jogando paciência no celular.

Depois de um longo dia, Franz e Marina estavam com seus humores característicos. Franz, dentro do carro:

- Que pena que fritaram a Fofinha, a "pessoa" mais legal da fazenda.

- Podiam ter fritado uma das tias... - Marina, sussurrando a si mesma.

- Como?

- Não, Franz, nada.

- Eu discordo. Acho que, se fritar o meu pai, rende mais carne.

Despedida

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- Desliga você.

- Não, desliga você!

- Não, amor, desliga você.

- Não, não, você desliga, hihi.

- Ah, Má, desliga você, é um desprazer pra mim, ter de fazer isso.

- Não, Franzinho, desliga você, pra mim tambem é, hihi.

- Ah, então tá.

(tu-tu-tu)

.

Em um outro dia:

- Vai, Má, desliga você.

Silêncio.

- Amor?

- Não, tava conferindo uma conta de água que chegou hoje.

- Ah, tudo bem. Hehe. Então, desliga, vai.

- Claro, Franz, claro.

(tu-tu-tu)

.

- Ei, o que deu em você naquele dia, de desligar com tudo?

- Ué, Franz, você tinha feito o mesmo comigo.

- Ah, é que a gente ficou no lenga-lenga de um falar pro outro desligar. Como aquilo ia longe, eu preferi abortar antes que a conta de telefone ficasse alta. Daí...

- Tá, tá, Franz. Já entendi. Mas não precisava ser abrupto daquele jeito.

- Ah, desculpa, amor.

- Não, tudo bem, daí eu reagi do mesmo jeito depois. Fui estúpida. Me desculpa também por aquele dia.

- Não, tudo bem, amor, se eu não tivesse feito, nada disso teria acontecido. Eu que peço desculpas.

- Não, mas eu poderia ter reagido de outro jeito, sei lá. Eu que peço, é sério.

- Desculpa, Má.

- Desculpa eu.

- Não, desculpa eu!

Má Educação

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Apartamento da Marina. Os dois assistem a "Má Educação". Marina está deitada no colo do Franz.

- Nossa, o Gael Garcia Bernal é muito gostoso!

- ...

- Não, gostoso é pouco... ele é um pedaço de mau-caminho!

- ...

- Os olhos dele... ah, os olhos!

- Ele se parece muito com um garoto que comia cola Tenaz que estudava na minha escola.

- Como?

- Haha, tô brincando, amor, ignora o que eu disse e assiste aí.

- Nossa, ele só de cueca! Ele tá tirando a cueca!

"Brincadeira, meu. Que diabos eu fiz pra merecer isso, ver homem gay pelado?" - pensa Franz

- Nossa, ele é muito delicioso! Ai, ai...

- Frito, com azeite e acompanhado de batatas sautée, então...

- Ah, Franz, não começa a atrapalhar, vai. Você mesmo quis ver o filme, agora fica falando aí...

- Na verdade, foi algo meio compulsório: você ficou falando durante toda a semana sobre ele, e não tinha como fugir!

- Ah, mas é muito bom! E ainda tem o Gael...

- Sei... um mexicano, que se posa de menino bonzinho e alternativo, que só faz filmes pra pessoas metidas a intelectuais e que virou sex symbol de mafaldinhas em geral.

- Franzinho, ciúmes não, tá?

- Ciúmes, han... já passei dessa fase. Ele pode ser bonito e rico, mas tem de aturar paparazzis enchendo o saco a cada vez que espirra ou enfia o dedo do nariz, e além disso, tem de distribuir autógrafos a fãs mexicanas com cara de foca. Além do mais...

- Além do mais?

- Um: na certa, ele é gay. Isso é regra. Todo atorzinho, com cara de moleque de 12 anos e olho claro é. Não adianta.

- Mas isso é gener...

- Dois: por trás dessa cara de santo, deve ter um caminhoneiro: bêbado, fedido, viciado e galinha. A vida dele deve ser cheirar cocaína, passar as noites com tequila e focas mexicanas, não nessa ordem.

- Franz, você tá estragando o meu filme!

- Que diferença faz? Você já viu ele 7 vezes, mesmo. Até já sabe as falas.

- É? Você queria que eu chegasse na sua casa, e ficasse falando daquela magrela anciã da Judith enquanto você tenta assistir ao Two and a Half Men?

- Não mete a Judith no meio!

Depois disso, o próximo filme que os dois assistiram juntos foi Shrek Terceiro.

Sono

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Telefone.

- Então, Franz, você precisava ver. As pessoas ficaram horrorizadas! Como pode, meu chefe sair com a secretária, ficar em um motel a 500 metros da casa dele, tirar fotos e ainda colocar no orkut secreto dele?

- Pois é.

- Meu chefe, no dia seguinte, nem olhou para cara de ninguém hoje, entrou na empresa e foi direto para o escritório dele, hehe.

- Aham.

- Coitada da mulher dele. Trabalha duro, mal vê os filhos e pensa que o marido fica até mais tarde na empresa resolvendo pepino. É um cafajeste mesmo.

- ...

- Não, pior que a mulher dele nem é tão feia. Na verdade, aquela secretária de 19 anos é magrela e ridícula, não sei como ele se interessou nela.

- zzzZzzzzzZzzzzzzzZ...

- Ahm?

- zzzzzzZZZZzzzzz... nham, nham... zZZZzzzzzzzzzz

- Amor?

- zzzZzzzz... rrrrRRRRRRrrrRRRRRRRRRR

- FRANZ!

- Ahm? Que foi? Onde?

- Você tava dormindo, por acaso?

- Ah... tava, oras. Você já tinha contado essa história aí semana passada. Como eu já tinha ouvido, achei melhor dormir até acabar.

- Então você dorme enquanto eu falo no telefone?

- Só quando eu tô cansado ou de mau-humor.

- Às 20:12?

- Amor, eu tive um dia do cão hoje. Tive reunião, meu chefe tava estressado, peguei congestionamento, tive enxaqueca à tarde e, de quebra, eu ainda tive de consertar um vazamento na pia de casa. 

- Eu sei lá. Vai que você dorme enquanto eu falo e eu aqui, bobona, falando pro nada?

- Ai, amor, não começa.

- Quem é o tio do vizinho da minha prima de Londrina?

- Quê?

- Falei dele três vezes semana passada!

- Sei lá. Você conhece tanta gente, dava pra lotar três Itapetiningas.

- Tô esperando.

- Ah, amor, larga de criancice, vai.

- Que criancice? Eu preciso saber se você presta atenção no que eu falo.

- Sei lá... o Barbosa?

- Que Barbosa, Franz? Tá louco?

- Não, foi mal, o Barbosa era o vizinho da minha ex. Não faço idéia.

- Porra, Franz, falei dele três vezes! É o que trabalhou na Globo! O que foi atropelado por um ônibus e sobreviveu!

- Jura?

- Ah, Franz, vai dormir, vai. (tu-tu-tu)

- Ufa. Han, na verdade, eu sabia que o tio do vizinho da prima se chamava Dionísio Macedo de Arruda, que ele torce pro Vasco, gosta de cerveja preta e trabalhava na produção do TV Pirata. E eu não tava dormindo. Quem quer ouvir fofoca de casinho de chefe quando se tem o Two and a Half Men daqui a pouco?  

Laranja Mecânica

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Papo vai, papo vem, a noite modorrenta de Franz e Marina se transforma em algo interessante. Cada um acaba conhecendo a história da vida do outro: Franz e sua péssima relação com seu pai e com produtos da Walita e Marina e seu sonho, nunca realizado, de andar de lhama (?). Mais alguns drinks e mais algumas horas e eles acabam tendo de voltar para o Itapetininga. Cada um em seu carro, Franz em seu Celta e Marina em seu Honda Civic, presente do pai.

Mas a noite ainda é uma criança. Marina, depois, acabaria indo para o apartamento do Franz. Rápido, não? Os dois terminariam a noite bebericando um pouco de prosecco enquanto vislumbravam a madrugada do centro de São Paulo pela janela. Ou melhor, apenas Franz ficou na janela, pois Marina ficou vasculhando sua coleção de DVDs:

- UAAAAAAAU, você tem Laranja Mecânica em alemão! E ainda autografado pelo Kubrick! Que preciosidade!

- Grande merda, não sei quase nada de alemão. E não gosto dos filmes do Stanley Kubrick. Pode levar embora. Eu quase joguei no lixo nessa semana.

- Como assim "eu não gosto do Kubrick"? Que tipo de pessoa não gosta do Kubrick?

- Eu, ué. Vi "2001: Uma Odisséia no Espaço", "Nascido para Matar" e "O Iluminado" e detestei todos eles.

- Franz, Você tem algum problema?

- Puxa, não sabia que não gostar do Kubrick era crime, hehehe.

- Hum... mas o quê? Você tem American Pie 2? HAHAHAHAHAHAHAHA!

- Qual o problema? Só porque não é cult o suficiente?

- Franz, que droga, American Pie é um lixo, hahahaha. Pelo visto, nós não podemos ir juntos ao cinema, hehe.

- Marina, hehehe, larga de infantilidade, moça. Eu vejo o que eu acho bom. Vi Trainspotting 12 vezes, tenho o DVD aí, pode ver. Não tem essa de gostar de filme cult ou não.

- Tá, Franz, foi mal, hehe. Tava só brincando, não precisa levar a sério.

Marina levantou-se, ambos ficaram um tempo na varanda, e depois se recolheram em um quarto para intimidades. Mas a história não acaba por aí:

- Franz...

- Que foi?

- O que aquele Todo Mundo em Pânico está fazendo na sua prateleira, hihihi?

- Mas vai começar de novo, porra?

O tempo passa e os dois começam a namorar. Mas o namoro entre eles promete.

Franz e Marina

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O Franz estava sozinho em um lounge qualquer por aí em uma noite fria do sábado paulistano, bebendo qualquer coisa com martini e pensando na morte da bezerra. De repente, ela entra. Bonita, cabelos longos e esvoaçantes, óculos de aro preto grosso, sobrancelha afilada. Senta-se em um sofá qualquer. Não possuia aliança em nenhuma das mãos. 

Passaram-se 20 minutos desde então e o Franz não deixou de ficar olhando para ela. Pelo visto, ela também estava sozinha. Não é todo dia que uma mulher bonita dessas aparece, e sozinha ainda. Ele se levanta e vai até ela:

- E aí, moreeeena, tu é mó gostosa, hein, hein?

- Como é?

- Haha, tô brincando. Não sou desses, que comem lingüiça nos fins de semana, arrotam e ainda tem a petulância de chamar a mulher de "morena" ou "princesa".

- Ah... e daí?

- E daí que isso foi uma cantada.

- Haha. Jura?

- Eu sei, foi de péssima qualidade. Na verdade, você não esperava ouvir coisas tão bizarras. Se eu fosse uma mulher, me sentiria ofendida. Mas foi sim.

- Hum... você é baixinho, magrelo, usa um óculos vermelho e o penteado que você usa é estranho. Mas foi original, pelo menos.

- Obrigado. Franz Giotto, publicitário, 28 anos.

- Aham. Isso é uma tentativa de me impressionar, com uma boa profissão? Meu caro, já ouvi muuuuito disso. Meu último namorado, aquele maldito do Gabriel, me persuadiu andando de Audi A4 e dizendo que falava alemão. Homem que tenta me impressionar não dá.

- Ótimo, porque eu não tenho um Audi, mas sim um Celta e uma Parati velha e abandonei minhas aulas de alemão em 1999. Eu poderia te persuadir com meu iPhone desbloqueado, mas deixei ele em casa, hehe.

- Humm... Marina Damasceno, prazer.

- Uau, avanços! Até o seu nome você me deu. Belo nome, Marina. Se bem que a última pessoa que eu conheci que se chamava Marina era a minha professora de Latim II na faculdade.

- Ahm... eu vou ignorar isso pra continuar mantendo sua cantada.

- Garçom, dois dry martinis aqui!

- Hey, hey, vamos com calma. Um que eu tenho meu dinheiro pra comprar a bebida. Dois que nós não temos essa intimidade pra você me comprar alguma coisa. Três que você não sabe se eu gosto de dry martini ou não.

- Ha-ha. Sei. Era o que você estava bebendo antes de eu me aproximar.

- Você estava me observando?

- Existe algum crime em observar mulheres bonitas?

- Hehe. Você é divertido. É estranho, magrelo, tudo aquilo que eu disse, mas é divertido.

- Gosto da sua sinceridade. Você é das minhas.

- Hehe. Senta aí, vamos tomar o martini.

- Uau, a Marina está convidando um publicitário solitário, magrelo, de óculos vermelhos e que anda de Parati para tomar um martini. 

- Tá, não vai se achando muito, que é só um martini.

- Ou o primeiro, hehehe... mas, e aí, você é daqui de São Paulo, mesmo?

- Não, não, sou campineira, mas moro aqui há uns 2 anos, depois que eu terminei o doutorado de Matemática lá na Unicamp. Eu moro em um prédio lá na Zona Norte, não sei se você conhece, é um prédio grande na Travessa Santos, que possui uma parte residencial e uma comercial...

- VOCÊ TAMBÉM MORA NO ITAPETININGA?

Continua...

9mm

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Olhando no jornal, o Franz encontrou um anúncio perfeito: 3 dormitórios, duas vagas na garagem, espaço para adega e escritório com suporte a conexão wireless, tudo isso acomodado em um generoso espaço de 200m² dentro de um suntuoso prédio em Moema. E tudo isso custando "apenas" pouco mais de 250.000. Resumindo: um ofertão, muito bom. Bom demais para se acreditar.

"Eu conheço esses vigaristas da especulação imobiliária. Pra esse lugar ser tão bom e estar custando tão barato, alguma coisa deve ter, nem que seja local para testes de bombas de hidrogênio!"

Como o Franz é meio paranóico, ele levou sua pistola 9mm. E lá foi ele, em um Sábado de manhã.

O prédio, aparentemente, era bonito, com jardins de acácias e colunas gregas. O apartamento em questão era no 15º andar. Quem negociaria com o Franz era o Vicente, um executivo que seria remanejado para a Rússia:

- E aí, Franz, o que achou do prédio e do apartamento?

- Eu ainda acho que tudo isso é uma grande brincadeira comigo à la Show de Truman. Eu ainda não acredito como esse prédio é bom! E o apartamento cumpre certinho o que está no jornal!

- Pois é, eu procurei ser o mais honesto possível.

- Hum... deixa eu dar uma olhada nas janelas dos quartos.

- Claro, claro. Algum motivo em especial?

- Só pra ver se existe alguma chaminé, hehe.

- Você sofre de asma ou bronquite? Não, não se preocupe. Aqui não existe poluição, nem poeira, nada disso.

- Não, são outros motivos, hehe.

Franz observa tudo. A cozinha é impecável, com azulejos limpos e novos, uma pia de inox impecável e uma bela vista para a cidade. A sala é perfeita, toda envidraçada. Os quartos são arejados e espaçosos. A sala de escritório é igualmente grande, e a conexão wireless funciona bem lá dentro. O banheiro, então, foi a maior surpresa, com banheira de hidromassagem. Franz anão estava em um apartamento em Moema, mas sim em um hotel em Dubai!

- Olha, parabéns... puta apartamento o seu. Tô com uma arma aqui, se eu não prezasse tanto a minha consciência, daria um tiro na sua cabeça e tomaria esse apê para mim, de tão bom.

- Haha, obrigado.

- Sério mesmo. Gostaria de acertar os detalhes da compra o mais rápido possível, antes que algum yuppie desgraçado tome essa preciosidade de mim.

- Claro, claro, Franz. Só tem o seguinte: a escritura ficou lá no escritório da minha empresa. Então, eu acho melhor a gente continuar a negociação lá na Segunda, horário de almoço, o que acha?

- Não, sem problemas.

- Então, vou te dar o meu cartão de visitas. Aqui consta todas as informações de endereço e telefone pra você me visitar lá, certo?

Franz pegou o cartão e leu: "Vicente Castro - gerente de testes e de qualidade de produtos - Walita".

Ainda bem, para ele e sua consciência, que a arma estava descarregada. Vale notar que Franz descobriu isso na prática.

Walita

post scriptum: posições geográficas não são totalmente fiéis

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O Franz tá cansado. Cansou-se do Itapetininga, da vizinhança boçal, das rachaduras, das reuniões de condomínio imbecis, e até mesmo do canário de estimação do porteiro. Ele queria sair de qualquer jeito daquele prédio.

Então, Franz começou a procurar um novo apartamento. 6 meses depois de se mudar para o Itapetininga, Franz estava à procura de um novo lar novamente. Vários apartamentos seriam visitados. O primeiro é um, em Interlagos, propriedade de um novo amigo de Franz, o Dionísio.

Dionísio é um novo funcionário da Apex, típico gente-boa, que fala com todos, que seria capaz de ser amigo da Heloísa Helena e do Geraldo Alckmin ao mesmo tempo. Anda almoçando com Franz todo dia, e enquanto comia bife com ervilhas descobriu que Franz estava procurando um novo apartamento. Por coincidência, ele estava se mudando também e estava vendendo esse seu imóvel. Franz visitaria no Sábado e, depois, iriam a algum bar encher a cara, como bons amigos que eram.

Sábado. Os dois já estão no apartamento:

- E aí, Franz, que achou?

- Olha, cara, a fachada no prédio tá um pouco melhor que aqueles prédios abandonados da Encol, alguns gerânios estavam morrendo por falta de água lá no jardim da entrada, o porteiro usava um boné do PT e o elevador cheirava a shampoo aloe vera de cabeleireiro barato, mas de resto tudo bem.

- Que legal, hehe. Bom, aqui é o meu apartamento. Ele tá precisando de uma limpezinha, mas isso se ajeita.

- Aham. Essa sala tem por volta de 30m², certo?

- Na mosca, Franz, como você sabe?

- De aperto eu entendo, amigo. Ando de Celta, haha.

- ...

- Bom, a pintura tá meio descascada, e tem umas teias de aranha, mas isso dá pra ser ajeitado, né?

- É, Franz, nesse caso, ficaria por sua conta mesmo.

- Hum... Ok, Ok, vamos para o banheiro. BANHEIRA?

- Sim, banheira.

- E ducha? Não tem?

- É um apartamento antigo, Franz.

- Percebe-se pelo azulejo azul pastel desgastado e com essa assinatura "Bibo e Marcão 1971".

- Er... 

- Vamos pra cozinha... aaaaaaah, ela é boa, espaçosa, acho que vou colocar a minha TV aqui, hehe.

- Sabia que você iria gost...

- Opa, opa, eu vi um artropodezinho andando por aqui... que beleeeeza! Uma baratinha. Não, eu até gosto de baratas, tem umas morando no meu quarto. No quarto.

- Ah, Franz, foi mal, cara. Mas você entende, né? Toda casa tem dessas.

- Sem problemas. Não, cara, sério mesmo, eu até tô gostando do apartamento. Eu que sou chato mesmo e fico procurando besteiras.

- Ah, que bom, que bom!

- Sabe? Acho que vou ficar com ele mesmo. É o que eu preciso. Isso mesmo.

- Perfeito!

- Opa, tem mais um cômodo. Um quarto. Deixa eu dar uma olhada.

- Certo. Olha, Franz, esse é o maior quarto do apart...

- QUE PORRA É AQUELA LÁ FORA?

- Que que tem? Ah, sim, é uma chaminé. Mas não se preocupe, ela tem filtro, nem polui mais, a gente nem sente que ela tá aí.

- Não tô falando disso, porra! Tá vendo que fábrica é essa? Tá vendo que marca que tá aparecendo na chaminé?

- Walita?

- "Walita"? - Franz, fazendo careta.

- O que tem de mais na Walita, Franz?

- O que tem de mais? Você, por acaso, enquanto fazia seu suco de carambola com um liquidificador da Walita, viu ele explodindo na sua mão e a base do liquidificador acertando a sua testa, deixando você em coma por 5 dias? 

- Ah, Franz, desculpa. Mas eu pensei que você tinha superado isso.

Franz coloca a mão no bolso.

- Que é isso?

- Remédio pra pessoas que sofreram hematoma subdural. Tenho de tomar 3 por dia. 920 reais por mês. Faz o seguinte: eu compro seu apartamento, você financia meus remédios.

- Mas Franz!

Franz virou-se e saiu sem dar maiores explicações, batendo a porta com tudo. Isso gerou uma leve rachadura na parede da sala.

Dionísio, o simpático, passou a moderar sua simpatia com certos colegas de trabalho.

O estagiário do Franz - parte IV

lógica nietzschiana: o mais esperto AINDA sempre vence!

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Ah, moleque! Você vai se arrepender de ter aparecido aqui com esse sorriso...

O que eu fiz? Não, eu não fui contar para o meu chefe. Se fizesse isso, iria ficar parecendo recalque puro.

No dia seguinte, levei minha câmera digital escondida (zoom óptico de 16x, permite até 10 horas de vídeo, algo realmente notável!). Em todas as vezes que ele foi no banheiro atender ou ligar para algum cliente, eu ia atrás e deixava gravando, embaixo da porta. Quando ele se despedia do cliente, eu desligava e voltava para a sala rapidamente. Funcionava assim. E olha o que o crápula dizia:

"Olha, a Apex, mesmo, não permite essa cláusula no contrato, não, mas olha: eu tenho uma empresa, que é parceira autorizada da Apex, que permite, sim... podemos negociar..." - parceira autorizada?

"O telefone da Apex é 6948-4112" - essa informação ele deu quando ele ligava para arranjar novos clientes. Na verdade, é (11) 6948-2139.

"A Apex faz esse preço, mas nós fazemos um menor" - canalha!

E coisas assim, ou piores.

Depois de 3 dias de filmagem sem problemas, já tinha umas 3 horas (!) de imagens.

Para enviar para o chefe, fiz o seguinte: escolhi as melhores (ou mais elucidativas) e fiz um arquivo de vídeo com o nome shiatsu_tailandesas.wav (o safado a-do-ra receber esse tipo de vídeo). Ele abriria o vídeo pensando encontrar sacanagem, seria surpreendido com o que seu pupilo anda fazendo, e daí ele tiraria suas conclusões. De 3 horas de gravação, o vídeo compilado ficou com 20 minutos.

Enviei pra ele na mesma hora que terminei, e pedi para não ser identificado. A resposta veio meia hora depois, em e-mail enviado para todo mundo na Apex: "todos na minha sala".

O chefe estava lá, mais taciturno do que nunca. Eu, sério mas quase carnavalesco por dentro. Todos sentaram, apreensivos:

- Bom, eu recebi um e-mail, anônimo, que não me agradou muito.

E ele colocou o vídeo para todo mundo ver. E lá estava o Oscar, o garoto que iria revolucionar a Apex, roubando clientes da empresa. 

A mamãe Carmem desmaiou.

O Oscar ficou vermelho. De vergonha.

O chefe também ficou vermelho. De raiva.

Eu também fiquei vermelho. De vontade de rir.

Para ser eufêmico, seguiu-se uma "acalorada discussão", seguida de demissão sumária. Não foi só isso. Meu chefe processou Oscar e a empresa dele, bem, não teve um começo auspicioso. Até a Carmem foi advertida, e está sob júdice na empresa.

Quanto a mim? Não recebi aumento, nem gratificação, nem nada. Ah, sim, recebi algo, sim. Uma sala só pra mim. Sem aquele mala. Um Franz já é o suficiente: saber que existe outro é um saco. E trabalhar com ele é uma punição.

O estagiário do Franz - parte III

lógica gersoniana: o mais esperto se dá bem!

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Pois é, me ferrei. O garoto pode ser esquisito, magrelo, prepotente e irritante, mas conseguiu um bom resultado. Uma semana depois, envergonhado, fui cumprimentá-lo:

- 61,4% de aumento nas vendas. Parabéns, Oscar, você é bom.

- Hehe, obrigado, não foi nada.

- Desse jeito, você é contratado logo.  

- Não quero ficar aqui. Aqui é muito pouco para mim.

Isso me assustou (e me ofendeu).

- Por quê?

- Estou abrindo uma empresa de publicidade com meus amigos. Aqui estou ganhando experiência, é legal, mas não é o que eu quero. Meu negócio é a empresa com meus amigos, que já está em estágio avançado.

Não vi nada demais nisso, se ele se acha tão bom, que vá fazê-lo. Mas eis que começa a acontecer o seguinte: o Oscar começa a atender o pessoal do Silveirinha usando seu próprio celular e seu e-mail pessoal. E começou a fazer isso longe de todo mundo. O banheiro virou seu escritório.

Aos poucos, ele também começa a se envolver com os outros projetos da Apex. E consegue alavancar as vendas de todos eles, mas naquele esquema de atender nossos clientes no seu celular e usar seu e-mail pessoal. Ele começou a se isolar de todo mundo, e passou a fazer todo o trabalho. Como ele era muito bom, não era difícil pra ele desenvolver os projetos e ainda entrar em contato com as empresas. E, aos poucos, os clientes da Apex estranhamente começaram a se distanciar. Decididamente, alguma coisa estava cheirando mal.

Um dia, perguntei pra ele:

- Garoto, vem cá.

- Diga, Franz.

- Não tô recebendo mais nenhuma chamada nem e-mail nem requisição do Silveirinha.

- Ah, é? Estranho, né? O telefone da empresa não toca mais...

- Pois é, e isso depois de você entrar e se envolver mais com a empresa... mas não deve ter nada a ver, né?

- Er, não.

5 minutos depois, ele se isolou no banheiro. Dessa vez, o segui sorrateiramente. E lá estava ele, negociando com o Silveirinha! E pior ainda: "Olha, se você assinar esse contrato comigo, eu te dou o desconto que a Apex não te deu".

Cínico! Pusilânime! Nerd magrelo e safado! Ah, mas vai ter troco, ah, se vai...

O estagiário do Franz - parte II

começa a disputa de território entre os dois animaizinhos

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Eu e Oscar fomos para minha sala (entenderam? MINHA sala). Eu, de péssimo humor, e ele olhando pra mim com aquele sorriso cínico, como se estivesse na empresa unicamente para me irritar.

Tentei ignorar tudo isso, tentando uma conversa minimamente amistosa com ele:

- Então você é aluno da USP, certo?

- É, na verdade, eu fiquei um ano em Cambridge, mas não aguentei os ares ingleses. Preferi voltar para o Brasil e ficar na USP. É incrível como o vestibular era fácil, e eu nem sabia...

Arrogante.

- Ah, foi fácil, mesmo? E você passou em que posição?

- Fui terceiro. Na verdade, eu fui terceiro porque no meio de uma das provas, tive de ir ao banheiro e perdi muito tempo, deixando de fazer uma parte da prova. Dava pra ter sido primeiro e, cara, fiquei muito puto por não tê-lo sido.

1- O que diabos isso me interessa?

2- Isso tudo é pra me impressionar? Chega a ser patético.  

- Hum, legal. Mas, amigão, te digo o seguinte: o mercado não tem nada a ver com a vida acadêmica. Na USP, você pode fumar e beber a vontade e, se for o caso, colar o trabalho de algum colega japonês nerd e se dar bem. Aqui, é trabalho duro mesmo, você deve mostrar produtividade, e se não mostrar, se dá mal.

- Sem problemas, eu me garanto.

E eu achava que o Pelé era arrogante e autosuficiente...

- Bom, tudo bem. Veremos, hehe.

Mostrei a ele o projeto do Guaraná Silveirinha e ele, como era de se esperar, não se surpreendeu. Achou a empresa um desperdício de CNPJ e o refrigerante "uma água suja e com bolhinhas de algum gás duvidoso". Até aí, tudo bem. Mas depois ele me veio com essa:

- Cara, pra ser sincero, você tá fazendo tudo errado.

Como? Agora, o pivete tá tentando dar aula de marketing e publicidade em mim? Essa é MUITO boa!

- É? Me explica então, garoto.

- Simples. O guaraná tem um anúncio chocho, obsoleto, desses que parecem aqueles anúncios dos anos 60, quando o "vendedor" ficava atrás de um balcão apresentando friamente um produto e suas características. Isso não funciona mais! O produto deve despertar uma sensação forte, deve atingir tanto a razão quanto o coração, e principalmente o coração da pessoa. A pessoa não compra o produto, mas sim o sentimento.

- Sério? E o que você sugere?

- Mulheres seminuas!

Há, esse nerd, me sugerindo mulheres seminuas?

- Isso é um atentado à qualidade de um anúncio!

- Jura? Então, fica aí, com seu anúncio à la anos 60... coloca a Dercy Gonçalves pra apresentar aí seu produto, hehe. Se me permite, vou pensar em algo diferente.

E o Oscar simplesmente virou as costas e foi "desenvolver" no computador dele. Garoto idiota! Que se vire com seu projetinho meia-boca. Ele acha que fazer anúncio de guaraná é igual a fazer anúncio de cerveja. É um amador, mesmo.

Na reunião da Sexta Feira, ele apresentou o projetinho dele e... não é que tanto o chefe da Apex quanto o representante do Guaraná Silveirinha aceitaram e quis fazer um teste? Bom, fomos ver, né? Eu estava pronto pra dar risada do fracasso da campanha.

A campanha, com muitas mulheres seminuas e sensualidade, foi um sucesso. O Guaraná Silveirinha vendeu cerca de 60% a mais que o normal em uma semana.

Merda.

O estagiário do Franz - parte I

quando dois animaizinhos de espécies parecidas se encontram em determinado habitat

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Dia qualquer no trabalho. Acordei com uma bruta dor de cabeça e ainda tendo de usar minha Parati 97 para ir para o trabalho, graças ao rodízio. Apesar de ser um carro da Volkswagen, é incrível como dá problemas na minha mão: já tive de trocar a embreagem duas vezes esse ano. Só uso nas Segundas, quando o Celta não pode rodar. Prometia ser um dia enfadonho, como todos os outros. Não foi. Mas não pense o leitor incauto que foi um dia bom, porque ele foi desastroso.

Ao entrar na Apex, vejo um burburinho em um dos corredores. Todo mundo em volta de alguma coisa, falando bastante. Ué, que houve? Será que a Carmem teve um ataque cardíaco fulminante e morreu? Será que uma barata morreu por lá?

Nem uma barata nem a barata da Carmem. O centro das atenções era um moleque.

O mais incrível é que o moleque era uma cópia barata minha, com a diferença de que ele era bem alto (1m90, ou um pouco mais), usava a mesma marca de óculos que eu (Essilor), cabelo bagunçado e uma cara irritante de alguém que pensa que é esperto. Deveria ter por volta de uns 19, 20 anos, algo assim. É como se eu olhasse para o espelho e visse um reflexo distorcido.

- Quem é ele?

- Franz, ele é o Oscar, o filho da Carmem - responde o meu chefe.

- Ah, prazer.

O cara me cumprimentou com um sorriso de uma orelha a orelha. Senti algo esquisito nisso. Aí meu chefe complementa:

- Franz, o Oscar vai ser seu estagiário.

- Como?

- É, ele é estudante de Marketing da USP e ficará por 6 meses aqui conosco.

Oscar olhou pra mim e sorriu daquele jeito de novo. Meu estômago doeu. Trabalhar com essa aberraçãozinha? Filho da Carmem? Isso, por acaso, é alguma punição dos céus?

- E ele vai trabalhar na minha sala?

- Sim. Nos próximos 6 meses, vocês estarão juntos, trabalhando no projeto do Guaraná Silveirinha. E você será o orientador dele. Se importa?

Óbvio que sim!

- Claro que não, hehe.

- Perfeito. Oscar, o Franz irá comentar com você sobre o nosso projeto e vocês discutirão o que você fará no projeto. Voltem pro trabalho, senhores.

- Aham... - eu, com cara de quem tomou um balde de vinagre.

- Ah, Franz, só mais uma coisa: é incrível como vocês dois são parecidos! Você é o irmão mais velho dele? Haha.

Vá se foder, pensei na hora. Até meu chefe, muito gente boa, diz asneiras de vez em quando.

A velha amiga

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O Franz é um cara sincero. (leia também o histórico dele) Mas às vezes ele também mente.

Ele estava numa agência do Banco do Brasil que fica a uns poucos metros do Itapetininga e eis que vê um rosto conhecido. Ele olha um pouco, pelo rabo do olho, pensa e por fim reconhece. É a Thalissa, da sétima série. Ele pensa: "Puta que pariu, que azar. Essa daí é uma chata desgraçada. Me infernizou a vida, já. Ela era filha de alguém... ah, do dono de uma loja no Shopping. Nossa, e olha como está nojenta, hoje. Típica mulher rica feia tentando parecer bonita. Ah, saco ela me viu."

A Thalissa cruza a agência e com um sorriso Colgate fala com o Franz.

- Minha nossa! Franz, é você?

- Não. - o Franz responde do jeito mais seco o possível.

- Você não estudou na sétima série em Pinheiros? Eu sou a Thalissa, amiga da...

- Olha Talita,

- Thalissa.

- ... não sei quem você é e não estudei em Pinheiros, tá? Essa coisa de fazer cirurgia nos olhos para não ter que usar lente de contato não fez muito bem para você. Então me deixa eu terminar de digitar minha senha antes que eu ache que você está tentando me dar um golpe.

A Thalissa voltou a falar com a amiga. O Franz resolveu o que tinha resolver e foi saindo. Deu o azar de, na porta da agência, cruzar com um primo - o único com que ele mantém contato - que o cumprimentou:

- Oi Franz, e aí?

A Thalissa virou com cara de ofendida e o Franz explicou:

- Olha, Lissinha. Não falei nada para evitar constrangimento. Se tivesse que explicar cada motivo pelo qual eu não quero falar com você - do seu nome até aquele cachorro ridículo que você amarrou na calçada - a agência fechava antes de eu terminar!

O encontro dos dois agradáveis

na Padaria São Pedro

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Os dois nunca tinham se visto antes.

Um deles se mudou para o Itapetininga faz pouco tempo. O outro é morador antigo. Ambos não possuem um círculo social muito extenso. Cada um com seus motivos. De um lado, Franz Giotto, com queijo cottage e pão integral. Do outro, Jean-Jac... Juvêncio, com tudo quanto é tipo de queijo. Ambos entram na fila ao mesmo tempo. Conhecendo os dois... seria o caso dos extremos se unindo. Não é impossível.

O diálogo começa quando o pacote de pão integral do Franz cai no chão, exatamente no pé de Juvêncio, que, sem se mover, continua olhando para os lados. Franz se agacha e pega o pão. Em seguida, Franz ironicamente diz:

- De nada.

- Merci, je ne parler pas votre langue.

- Pardon, je ne savais pas que vous êtes français.

- Brrasilerro símio terrcerro-mundista, seu frrancês nom é ruim, mas é frrancês de sauvage, racaille.

- Você tá de brincadeira, né? Quem tem testa de babuíno aqui é você. Além do mais, se você não é brasileiro, eu nasci no Japão e minha pele é azul.

- Símio de óculos rouge, sou frrancês, morrei em Parris e...

- OK, OK, então por que você veio para o terceiro mundo? Com certeza, a França era um país muito bom para você ter de vir pra cá, correto?

- Muito melhorr do que terrcerro-mundo.

- Você tem cara de nordestino! A não ser que você seja imigrante! Você é tão brasileiro quanto um jogo de futebol do Flamengo!

- Nom me ofenda, magrrelo! Norrdeste é deserrto, pauvreté. Eu nasci na cidade luz!

- Tá, tá, Napoleão... não te deram educação, não? O pão caiu em cima do seu pé.

- Ficarr pegando comida parra macaquinho? Colônia é quem trabalha para metrrópole!

- Caramba, cara, como você é chato. Só sabe dizer isso? Você não tem cara de francês, tem cara de coitado que come macaxeira, que toma água no Natal e no Ano Novo e se acha o chique só porque aprendeu meia dúzia de palavras vendendo água de côco para um estrangeiro lá em Fortaleza. Faça-me o favor! E conserte seus dentes: você se diz um francês, mas seus dentes são piores que os dos ingleses.

- Macaquito de óculos rouge! Mais respeito comigo! Nom me comparre com norrdestino! Quem é magrrelo e baixinho aqui é você!

- Ó, com emmental não dá pra fazer leite de coalho, OK?

- Você acha que morra em cidade de gente só porrque aqui tem poluição e rio fedendo terrcerro-mundo! Acha que com óculos rouge parrece com eurropeu!

- Quem acha que é europeu aqui é um certo testa de babuíno aqui...

- Ferme la bouche!

- "Ui, ui, sou metido a besta, odeio o Brasil, odeio o nordeste, hehe, olha a minha testa, ui"

- Singe!

- E me deixa em paz que agora é minha vez de pagar.

- Oui, pagarr em moeda desvalorizada, hohoho.

- Meu país não fica sustentando vagabundo, pelo menos.

- Clarro que nom! Os vagabundos brrasilerros vão pra França!

- Pois é, né? - responde Franz, com um sorriso cínico.

- Não aparreça mais na minha frente!

- Não precisa me pedir.

Os dois nunca tinham se visto antes. Preferiam ter continuado assim.

Franz por Franz

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Falar do meu dia? Inicialmente, eu quero deixar claro que, pra mim, uma apresentação em primeira pessoa me parece um desses diários ridículos de adolescente, ou uma manifestação de esquizofrenia.

Meu dia é um saco. Gostaria de ter nascido milionário, não precisar trabalhar, fazer um curso qualquer de Ciências Sociais e viver às custas do meu pai. Mas como não nasci assim e não vou morrer assim, tenho de trabalhar. Tudo começa às 6h. Sair da cama é um sacrifício hercúleo. Lavar o rosto, escovar os dentes, nada demais. Depois, algumas flexões e abdominais. O café da manhã é aquela coisa: café, leite, pão com queijo cottage e alguma fruta, mamão ou abacaxi. Todo dia. Dieta prescrita pela Dra. Maria Rita Siqueira. Folheio o Estadão enquanto como o pão. Diabos. Gasolina sobe, deputado petista é denunciado em CPI, menina é assassinada pelo padrasto. Desgraça de país. Classificados, resultado do jogo do Palmeiras, previsão do tempo, novela das 8, só lixo. Às vezes, não sei porque ainda insisto em assinar esse jornal. Ah, sim: adoro fazer aviões de papel com o caderno de economia.

Às 7h30, saio de casa. 20 andares dentro de um elevador. Ainda bem que dentro de um elevador: imagine se eu tivesse de descer pela escada? Para meu azar, no mesmo elevador, aquela lambisgóia nerd da, qual o nome dela mesmo? Ah, sim, Regina Campos. Ela olha pra mim. Arrisca um "bom dia". Eu respondo "bomdia" com a voz mais gélida do mundo. Acho que nem um suíço seria tão frio. Ela abaixou a cabeça. Obviamente, eu tava pouco me lixando se ela teria um bom dia ou se seria atingida por um Boeing 747.

Entro no meu Celta 2005. Me arrependi de não ter colocado vidros elétricos e direção hidráulica. Pelo menos, coloquei um CD Player da Pioneer, muito bom. Que CD eu escolho? Cranberries, Oasis, Jack Johnson ou Carl Orff? Eu sei, os três primeiros são um lixo, mas eu gosto, fazer o quê, mesmo não me conformando que uma das músicas do Oasis, Wonderwall, possa ser traduzida como "Murovilha" (!). Quanto a Carl Orff, adoro aquele clima de apocalipse gerado por "Fortuna Plango Vulnera". E, obviamente, "O Fortuna". Bom, vai Cranberries mesmo.

O trânsito em São Paulo é aquilo que todo mundo já sabe. São quase 2 horas até chegar na Apex, a agência de publicidade onde eu trabalho, lá na Moema. No meio do caminho, uma vaca tingida fechou o meu Celta e quase causou um acidente. Não teve como, eu tive de gritar "volta pro pasto!". Saco. Maldito trânsito. Malthus estava certíssimo, tem gente demais no mundo. Pelo menos, dá pra observar com atenção aos detalhes da cidade. Olha, tiraram o outdoor da Johnnie Walker!

Chego na Apex às 9h30. O bom de trabalhar lá é que eu posso chegar bem mais tarde que o normal. Mas só isso também. Trabalhar na Apex é uma porcaria. O salário é bem menor que na W/Brasil, os clientes são piores (trabalhar com o Guaraná Silveirinha não é nada animador) e meus colegas de trabalho são um saco. Só a secretária, a Paula, que é mais simpática. Pena que ela seja tão feinha, meio orelhuda. Passo por ela, dizendo "bom dia". Ela nem responde. Desde que a chamei de "dumba".

Minha sala? O ar condicionado vive desregulado, meu PC é um Celeron e a minha cadeira já está nas últimas. Meu projeto atual é um anúncio para a TV do Guaraná Silveirinha. Uma porcaria. O que deve de gás, sobra no açúcar. Parece um H2OH de melaço. Eca. E pior que os representantes da empresa são muito chatos. E vivem martelando "por favor, não façam nada parecido com a propaganda da Dolly", "não queremos parecer com a Dolly". Oras bolas! Quem falou em Dolly? Nunca passaria pela minha cabeça bolar uma animação desenvolvida em Flash por uma criança de 8 anos com uma garrafinha afeminada cantando com uma voz de menininha surtada. "Sou Dollynho, seu amiguinho"? Na boa, isso é deprimente. Eu não fiz 5 anos de faculdade pra ouvir um "não faça que nem eles".

O almoço é lá pras 13h, em um restaurante à la carte nas imediações. Eu como junto com meu único amigo da Apex, hehe, meu chefe, além de mais dois colegas, o Júlio e o Renato. Meu chefe, apesar de pagar mal, é uma figura. O Júlio é um jornalista da Bravo. Apesar da revista ser um panfleto pseudointelectual, ele é muito gente boa (e inclusive concorda comigo sobre a revista: ele odeia trabalhar lá e odeia ainda mais seus leitores). O Renato é um bancário frustrado. 5 anos de Economia na FGV pra ganhar R$ 2.000. Coitado. Gostaria muito de vê-lo em um lugar melhor. Seria legal vê-lo lá na Apex. No lugar na Carmem. Ô loira tingida do inferno! Burra, tingida e arrogante. Deve ter feito teste do sofá para alcançar o cargo e o salário que conseguiu... Mas, enfim. Nós quatro passamos o tempo falando sobre tudo enquanto comemos: futebol, política, economia, cultura, trabalho, mulheres, tecnologia. É o momento mais satisfatório do dia.

À tarde, é o mesmo esquema de trabalho. De vez em quando, a Carmem vem me encher o saco, reclamar do pé doendo dentro do salto, do frio, do calor, que o cliente dela é exigente, de tudo! OK, eu também reclamo, mas ela chega a ser irritante. Isso quando não me chama pra sair depois do expediente. Que desgraça! Eu não estou interessado! Qualquer dia, ainda conto pro marido dela...

Saio da Apex às 18h30. Mesmo trânsito, mesmos CDs, mesma chatice. Só nas Sextas que eu não pego trânsito, pois vou pra happy-hour com o pessoal descrito acima. Nesse momento, minha dor de cabeça ataca meu humor. Chego no Itapetininga, dou de cara com a síndica, aquela que usa creme de formol no rosto. Ela me cumprimenta. Eu passo reto. Ela tem bigode. Ela fuma. Bastante. O marido dela ainda vai morrer por ser fumante passivo. A voz dela parece de uma ovelha gripada. Tá, eu não poderia querer a Ana Hickmann como síndica, mas, caramba, precisa ficar andando com bobes na cabeça, parecendo com a Dona Florinda?

Ufa, finalmente. Lar, doce lar. Vou direto para um banho. Depois, faço minha comida enquanto escuto U2 ou Pearl Jam. Arroz, feijão, frango grelhado e algum legume. Dieta da Dra. Maria Rita Siqueira. É óbvio que eu queria trucidar carne vermelha, mas meu grupo sanguíneo não permite. Depois, a melhor parte: ver os seriados que eu programo para serem gravados na TV a cabo. Two and a Half Men e ER! Nada como a TV Digital para satisfazer você. Ficar dependendo de Globo e SBT é um chute no saco. Se for o caso, com umas pringles e Carte D'or. E vou dormir feliz, lá pras 10, 11h.

Tem gente que pergunta pra mim: você é feliz? Como assim? Por que não? As pessoas dizem "mas você não fez família, não tem muitos amigos". Bom, eu fico pensando comigo: "ter filhos e ter de dividir minhas pringles e pagar escola e curso de inglês pra eles? Não, obrigado". Mania a do povo se meter!

É isso aí, a minha vida é composta de uma Dra. Maria Rita, um Celta, Guaraná Silveirinha, Two and a Half Men e outras banalidades. Guaraná Silveirinha... na boa, alguém tomaria um refrigerante chamado Silveirinha? Eu até pensei em fazer um final decente, mas aquele H2OH de melaço realmente me intriga.

Incor

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Ligam para o Franz:

- Alô?
- É a Melissa.
- Que é agora? Vem falar mal do seu marido outra vez?
- O papai tá mal no hospital.
- Ah, é? Quando for o velório, me avisa. Eu posso levar os salgadinhos.
- Ô seu idiota, é o seu pai quem tá no hospital!
- E daí? Por mim, aquele bêbado pusilânime já tinha ido comer capim pela raiz.
- Eu não acredito! Ele tá mal e você vem dizendo isso dele? Você nunca teve coração, não? Hein?
- Tá... qual é o problema dele?
- Teve dois infartos seguidos e tá mal no hospital.
- Dois infartos? Depois eu é que não tenho coração, hahaha!

Melissa desliga o telefone na cara dele. Franz liga e volta:

- Tá, onde é o hospital?
- Por que você quer saber?
- Fala logo, caramba!
- Ele tá no Incor.

Franz vai para o Incor. Terceiro andar, sala 4. Lá está seu pai, com sua mulher e Melissa. Coitado, um senhor de aparência simpática, não muito alto, de óculos e poucas rugas para a idade. Estava em estado deplorável, quase cataléptico. Franz o encontra.

- Filho, você veio me visitar!
- Pois é, pai...
- Eu tenho algo a lhe dizer.
- Ahn?
- Eu queria que você me desculpasse. Por não ter te dado atenção quando você era criança. Por ter bebido e brigado com sua mãe na sua presença tantas vezes. Por não ter ido ver você na sua formatura na escola e na faculdade. Por nunca ter comprado aquele Atari para você.
- ...
- Eu gostaria que você me perdoasse.
- Pai...
- O que é, meu filho?
- Só gostaria que você me respondesse uma pergunta...
- Pode dizer.
- Assim que você for comer capim pela raiz, você vai deixar aquele apartamento no Guarujá pra mim ou pra chatinha da Melissa? Alguma coisa que preste você tem de deixar pra mim, né?

Depois de ouvir isso, o senhor iniciou uma recuperação surpreendente. Em cinco dias, já estava inteiro. Quanto a Franz, obviamente, e mais do que nunca, continua odiando o pai.

0800 12 15 20

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- Central de atendimento Speedy. Para se tornar um novo assinante Speedy, tecle bláblá...

- Puta que o pariu, viu.

 - Para reparos e suporte técnico, tecle 8.

- Porra de empresinha...

 - Luiza Lombardi, bom dia.

 - Bom dia? Acordei com dor de cabeça, tá chovendo, perdi o último episódio do Two and a Half Men, meu banheiro entupiu, ainda tenho um puta problemão com meu Speedy e você ainda vem me falar bom dia?

- Qual o seu nome, endereço e telefone?

- Franz Giotto, Travessa Santos, nº 74, apartamento 2018, DDD 11, 6941-7812. Quer meu time de futebol e tipo sanguíneo também?

- Não, obrigada. Em que posso estar ajudando?

- Minha filha, primeiro de tudo: gerundismos só pioram a minha dor de cabeça. Segundo: o problema é que o produto do seu patrão também está ajudando a piorar a minha dor!

 - E qual é o seu problema?

- O problema é que eu preciso abrir minha caixa de e-mails só que o lixo do Speedy não quer conectar!

- Sei. Você está tendo alguma mensagem na tela quando tenta conectar?

- Uma coisa de computador remoto não respondendo, sei lá. Não sei nada de computador.

- Você já desligou o computador, desligou o modem e ligou tudo outra vez?

- Minha filha, eu não entendo de computador, mas não sou idiota! Claro que eu já fiz isso! Já tô cansado dessa porcaria caindo! Acho que vou mudar pro Virtua. Você pode, por acaso, me mandar o telefone da Net pra mim?

- Fique calmo, iremos resolver o problema. Só um momento.

- "Só um momento"... conheço vocês.

3 minutos depois...

- Só um momento, estou checando no sistema o seu status. Posso tentar conectar você remotamente.

- Ô Luiza, vem cá. Eu sei que seu salário é uma merda, que eu na minha época de estagiário trabalhava um décimo do que você trabalha e ganhava dez vezes mais, que você deve ser feia, nariguda, que seu namorado deve te chifrar, se é que você tem um, que você deve viver à base de salgadinhos e que isso te dá cólicas, mas não poderia apressar um pouco aí, não? O atendimento tá pior do que uma velhinha dirigindo um Fusca à base de soníferos!

- ...

- E aí, é pro Natal ou pra minha aposentadoria?

- Pronto. Conecte aí. MaisalgumacoisaaTelefônicaagracedetenhaumbomdia.

- "Tenha um bom dia"... é cada uma...

Franz se conecta.

Conectando.

Verificando usuário e senha.

Conectado.

Logo depois que Franz conecta, o monitor desliga, todos os chips e placas queimam e começa um princípio de incêndio no PC.

A vingança é um prato que se come frio.

Estacionamento

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Franz saía com seu Celta preto de um lado. Estava morrendo de pressa. Reunião na Apex, sua agência de publicidade.

Adriana Barros, como sempre, estava nervosa. Ia levar Bernardo ao
hebiatra. Dor de cabeça, provavelmente oriunda da TPM. Ela ia dando ré
com seu Civic vermelho, sem prestar atenção.

Quando Adriana estava terminando de tirar o carro, o Celta de Franz
bateu em sua traseira. Parachoques quebrados. Ela desce do carro. Franz
abre o vidro do carro para ouvir a verborragia. Começa a discussão:

- Você viu o que você fez com o carro?

- Minha colega, se eu fosse cego, eu nem teria carta de motorista.

- Você tem carta? Então como você consegue bater dentro de um estacionamento?

- Se uma barbeira dá ré sem prestar atenção e surge na frente do seu carro, acho que a batida se torna inevitável, né?

- Barbeira? Eu? Você já me viu dirigir, por acaso?

- Não vejo corridas de demolição.

- Ora, seu...

- Fica calma. Você tem seguro, não tem? Como nós dois temos, isso não será uma dor de cabeça completa.

- Bom...

Bernardo abre a boca:

- Mãe, ligaram do seguro semana passada dizendo que o contrato havia expirado e perguntaram se você não iria lá renovar.

Franz dá uma risadinha de canto de boca. Adriana entra em desespero:

- COMO ASSIM? O que eu faço agora?

- Bom... como eu tô morrendo de pressa, poderemos resolver depois. Vamos deixar isso pra lá.

- Não vamos a lugar nenhum! A pintura do meu Civic!

Bernardo: "Mãe, deixa pra lá!". Franz concorda:

- É, deixa pra lá. Só vai piorar as pregas na sua testa. Além do
mais, você sabe. EU tenho o seguro, portanto EU posso ferrar você, mas
EU estou te dando a chance de esquecer tudo. OK?

- Mas... mas....

- Passar bem. E escolha uma pintura melhor pra esse carro. O seu Civic vermelho desse jeito parece uma pimenta chili ambulante.

Adriana xinga até a oitava geração de Franz. Mas entendeu que era
melhor aceitar a oportunidade de esquecer. Ela só teria de arcar com o
conserto do próprio carro. Resignada mas raivosa, terminou de dar a ré
e embicou o carro, acelerando com tudo. A pressa é inimiga da
perfeição, diz o ditado. E Adriana, acelerando tudo, atropelou alguém,
quase que no portão.

- Caramba! Tô ferrada!

Pobre Alex. Fica pra outra história.

Sinceridade

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Um dos novos inquilinos do Itapetininga era Franz Giotto. Uma figura, o Franz. Não é uma pessoa fácil de lidar. Na verdade, não é nem um pouco fácil de lidar.

Franz sempre foi um cara sincero. Extremamente. Cortou relações com o pai depois de dizer que ele era um "completo acéfalo, ruim de cama e de banho, bom só de mesa". Também não fala mais com a irmã, Melissa, depois que disse que ela "deveria cortar o cabelo e vendê-lo como arame pra Belgo Mineira". Teve uma única namorada, por 2 meses. Terminaram quando ela perguntou "o que achou do meu perfume" e ele respondeu "cheiroso que nem gasolina adulterada". Indivíduo magricelo, não muito alto, metido a "cool", óculos vermelhos, fez Publicidade e Letras na USP. Ganha bem como publicitário, mora bem, come bem, é feliz. E sincero.

Franz chegou ao Itapetininga semana passada. Ontem, um amigo ligou para ele:
- E aí, Franz, como é o seu apê?
- É grande, meio mofado, tem rachaduras em dois dos quartos, na cozinha, no hall. A vista é boa, posso ver algumas mulheres peladas no prédio da frente, alguns acidentes de carro e velhinhas sendo assaltadas de vez em quando. A pintura é horrível e descascada, um pastel com uma aparência de vômito de bebê, sabe? É um lugar divertido.
- E a vizinhança?
- Não conheci ninguém ainda. A síndica é uma velha desgrenhada que usa creme para pele à base de formol (toca a campainha) ah, um momento, tem gente lá fora.

Franz olha cautelosamente no olho mágico. Uma adolescente lá fora, cara de pseudocult. Sim, era Regina. Ele abre.

- Pois não?
- Oi... você é novo aqui?
- Sim, por quê?
- Não, nada. É que eu tô precisando de farinha pra...
- Olha, eu sei que você tem cara de drogada, mas eu não vou ficar alimentando vício de vagabundo não, OK?
- Não, você me entendeu errado. Eu só estou precisando de farinha de trigo. É que eu estou fazendo tipo uma coisinha lá pra levar pra um encontro entre amigas e tal, sabe?
- Não. Mas eu não tenho farinha de trigo, infelizmente. Mais alguma coisa?
- Não, er...
- OK, passar bem.

E Franz fecha a porta na cara de Regina. 99% das pessoas tentariam nunca mais ter contato com esse tipo de gente. Mas Regina se interessou. Ele era diferente, cool, cínico. E, sabe-se lá o porquê, ela gostou disso. Regina aperta a campainha de novo:

- Você de novo?
- Não, é que...
- Quer endereço pra comprar farinha? O Carrefour fica a 10 minutos daqui.
- Não, não é nada disso. É que eu gostaria de conhecê-lo melhor, sabe? Você é novo aqui e precisa se sociabilizar.
- Não preciso, odeio menina vagabunda.
- O quê? Você não sabe não ser grosso, não? Sim, eu estava te chamando pra sair, amistosamente! Mas você só me deu patada até agora!
- Quem tem patas aqui é você. Desembaça.

E Franz fecha a porta. Regina despejou todo uma série de palavrões e ofensas e voltou para seu apartamento, com a classe de uma jovem culta. Minutos depois, toca a campainha no apartamento de Regina. Ela abre a porta. Era Franz.

- Mas você?? O que você quer??
- Bem, eu vim pedir...
- Hum, veio pedir desculpas?
- Não, vim pedir pra você escovar os dentes. Mas que mau hálito do capeta o seu, hein?