A família do Franz estava em festa. Dona Iracema e seu Giuseppe, os pais de Franz e Melissa, comemorariam bodas de prata. Foram 25 anos de um casamento perfeito e de uma família unida, coesa, com filhos maravilhosos e felizes. A festa não seria pequena: contaria com parentes, amigos, vizinhos. Era um acontecimento da pequena cidade de Cruzália, interior de São Paulo.
Teoricamente, a festa não contaria com a participação de Franz. Não fazia sentido, para ele, encontrar o pai, a irmã chata, os tios caipiras ou os primos invejosos. Franz, na verdade, só foi em respeito à mãe. E, a pedidos desta, levaria Marina também. "Quero conhecer minha nora", disse.
Dentro do carro:
- Olha, amor, se eu não conversar com ninguém lá, não se assusta. Meu pai só sabe arrotar na mesa, a Melissa só reclama da vida, meus tios só ficam falando do Palmeiras e eu mal conheço o resto. Compensa você ficar conversando com a Fofinha, a leitoa de estimação da minha mãe...
- Ai, Franz, não diz besteira. Pára de implicar com todo mundo!
- Eles são mal-educados, barulhentos, atrasados, fofoqueiros e provincianos. Do tipo que se olhassem pro MASP, diriam "cambada de pedreiro burro, sô, fizero tudo errado"!
- Tsc tsc...
Depois de uma longa viagem, o casal chega a uma fazenda, com o antagônico nome de "Harmonia". Era a fazenda onde o Franz tinha sido criado até ir pra São Paulo.
- Fraaaaaanz, meu filho! - dona Iracema o recebe com AQUELE abraço.
- Marina, esta é a tal da mamãe. E aquele bêbado barrigudo de camisa listrada que tá rindo feito idiota é o marido dela.
- Franz, não fala assim do seu pai!
Deu um certo trabalho apresentar todos os 84 presentes na festa, ainda mais pessoas como "Marina, este é o vizinho do amigo do tio do meu pai... ou da minha mãe?".
A melhor parte da festa, sem dúvida, estava na mesa. Leitão à pururuca, lombo recheado, maionese, polenta ao sugo, pudim ao leite com ameixas, doce de abóbora, tudo isso regado a vinho tinto. Franz e Marina, como bons anti-sociais cosmopolitas, sentaram em qualquer lugar com seus pratos enquanto as pessoas passavam e diziam qualquer coisa como:
- Ah... é essazinha aí que é sua namorada?, Franz?
.
- Nossa, mal começaram e você já está grávida?
- Mas eu não estou grávida!
- Tia, cala a boca!
.
- O cabelo dessa aí não era bonito como o daquela sua outra namorada...
- E você pode vir falar bastante dela com esse seu cabelo tingido com mostarda Arisco, né?
.
- Ah, vem mais aqui, que eu te levo pra conhecer a minha igreja... lá você vai realmente conhecer o caminho das pedras!
- A Marina não é garimpeira, porra!
.
- Quem é você?
- Como assim? Eu sou o Franz, o filho da Iracema e do Giuseppe!
- Iracema? Giuseppe?
Mas o pior veio da Melissa:
- O que você tá fazendo aqui? Você não gosta do papai.
- Você manda em mim?
- N...
- Minha filha, você não consegue nem mandar no seu filho ou no seu marido. Olha ele lá, o moleque quebrando o câmbio do trator da fazenda. Enquanto isso, seu marido tá conversando com aquela prima nossa que é modelo da Ford. Então, não me enche o saco.
- A propósito, eu achei que sua namorada era mais bonita.
Aí a Marina enfureceu.
- Pelo menos, não tenho chifres nem flatulências!
- FRANZ! Você conta coisas íntimas minhas para ela?
- Vá cuidar do seu marido. Olha ele colocando as mãos em território proibido na modelo da Ford...
.
A festa seguiu em um panorama mais ou menos constante. "Seo" Giuseppe se matava de beber caninha. Dona Iracema, solícita e simpaticíssima, tratava de atender bem as outras 85 pessoas da festa. Melissa reclamava. As crianças corriam pela casa. Alguns tios bebiam, outros comiam feito porcos, outros brigavam por causa do futebol. O bolo era gorduroso. Os animais, na média, estavam mais civilizados que os humanos. Franz? Sentado, evitando conversar com as pessoas. Marina? Jogando paciência no celular.
Depois de um longo dia, Franz e Marina estavam com seus humores característicos. Franz, dentro do carro:
- Que pena que fritaram a Fofinha, a "pessoa" mais legal da fazenda.
- Podiam ter fritado uma das tias... - Marina, sussurrando a si mesma.
- Como?
- Não, Franz, nada.
- Eu discordo. Acho que, se fritar o meu pai, rende mais carne.

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