Franz por Regina Campos

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Olha, pra começo de conversa, eu não gosto de falar de ninguém. Não me importo com os problemas alheios. Mas esse cara, esse tal de Franz... Já é problema meu. Morar perto dele é um problema.

Não bastasse aquela outra Regina (Sim, como ousaram colocar meu nome naquele tipinho?)... Agora tem esse Franz. Só porque tem o mesmo nome do Kafka, do Kline, do Liszt, acha que é alguém muito importante pra ficar andando todo empinado.

Falo bom dia pra ele só por dó. Mas na verdade queria que um Legacy o partisse ao meio.

Sabe, ele tem cara de quem tem dieta controlada e trabalha numa agência de publicidade fazendo propaganda de guaraná barato!

Cada um, viu?

Regina e Regina

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A Regina do 2017, Regina de Almeida, é uma pessoa agradável. A Regina do 2012, Regina Campos, nem tanto.

Se encontram de vez em quando no corredor do prédio. A do 2017 olha para a outra sem interesse e a do 2012 com um pouco de raiva. Não se sabe bem o que aconteceu entre as duas quando se conheceram, mas parece que deu algo errado. Elas não se entendem.

Regina Campos costuma evitar pegar o elevador com Regina de Almeida - e conseguiu por um bom tempo. Aquele dia as duas estavam com pressa e acabaram pegando um elevador junto. A Regina do 2017 tentou falar um:

- Bom dia!

Meu Deus, para quê? Dois constrangedores minutos se seguiram.

A amiga da Regina

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Bom, o título está errado.

Melhor seria "A vizinha da Regina".

Elas não são amigas. Sequer trocam um "bom dia" quando estão colocando o lixo no corredor. Mas culpa não é exatamente da Regina, que é simpática até com as formigas do açucareiro.

A tal vizinha também se chama Regina. O sobrenome é outro, mas o ano de nascimento também é o mesmo. E é outra que mora sozinha. Porém as coincidências terminam por aqui.

Essa Regina (do 2012) estuda Comunicação e Expressão Visual no Senac. Usa um óculos vermelho, de armação quadrada e há 8 meses decidiu que seria uma pessoa cult(a).

Comprou roupas com desenhos indianos e psicodélicos, sapatos de boneca e dois óculos escuros.
Leu "O Mundo de Sofia" e comprou (na fnac) vários livros de filosofia, sociologia, antropologia, história e a coleção completa de filósofos: "Aprenda Nietzsche em 24 horas".
Fez uma coleção completa de bandas indies, com The Strokes, Belle and Sebastian, Death Cab for Cutie, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e etc.

Além disso, alugou praticamente toda a seção de filmes alternativos da locadora.

Três semanadas depois, já não aguentava mais os livros. Passou a copiar as orelhas no caderno e decorar algumas frases célebres dos grandes pensadores.

De noite, longe dos ouvidos alheios, refestela-se com Britney Spears e Madonna, depois de ter que passar o dia inteiro ouvindo as bandinhas indies que ela tanto detesta.

E hoje já não assiste só a Amélie Poulain e Ken Park. Semana passada assistiu seis vezes ao Diário de Bridget Jones e chorou em todas.

Ao contrário da Regina que limpa o dedo sujo de iogurte no sofá, a Regina culta não é legal. Passa pelos outros de peito estufado e cabeça levantada, e tem a impressão de que todos estão olhando para ela.

E é assim. Enquanto uma fica esperando pelo dia em que um pombo correio pousará em sua janela para comer as migalhas, a outra tenta decorar nome de pintores e associá-los a seus respectivos quadros.

A Regina não gosta da Regina. E vice-versa.
E ambas podem jurar que nada tem a ver com o nome.