Mau pagador III

Mau pagador e mau observador

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O Felipe voltou para a imobiliária. Tentou explicar a situação sobre o contrato que não devia ficar no nome dele, mas acabou ficando.

- Sinto muito, seu nome está no SPC, não posso fazer nada.

O contrato tinha terminado, o senhorio queria o apartamento de volta para alugar para a filha-do-primo-da-esposa que ia se casar. Com o nome sujo por engano, não conseguia fazer um contrato novo e não tinha quem o fiasse. Iria demorar um tempo até resolver as coisas e até lá - onde ficar?

Na terça-feira seguinte bateu na porta da República dos Picles. Foi atendido por uma Bárbara de cara fechada que disse:

- O Pinga, no quarto.

Felipe passou pelo Vinícius sentado num canto do corredor e entrou no quarto que ele dividia com o Pinga. O Pinga estava lendo um livro de Cálculo.

- Oi, Gabriel. Vim pedir que você assinasse uns papéis, pode ser?

- Sentaí, ô Filipeta. Que é isso?

- Eu estou sem condição de alugar um apartamento, por causa da merda com os papéis. Isso aqui é pra tentar dar algum jeito.

- Você tá precisando alugar um lugar pra ficar, é isso?

- Sim, e com o rolo, não tá fácil. E o meu contrato vence em uma semana. Então seja amiguinho do tio Felipe e assina isso, por favor, Pinga.

O Pinga assinou e entregou os papéis. Nisso, o inesperado:

- Ora Felipe. Você não tem parente aqui pela cidade, né? Se você não conseguir apartamento ou onde ficar, pode passar um tempo na República. Afinal, o aluguel ainda está no seu nome.

O Felipe parou e olhou surpreso. Primeiro pensou: "esse cara não tá me chamando pelo apelido?" - e depois: "justo ele tá me chamando de volta?".

- Ahn, como assim? Falando sério?

- Ora, eu sei que você me odeia profundamente. Mas lá no fundo, lá no fundo, você só me odeia um pouquinho, não é? A Bárbara também não gosta de você e o Vinícius - e apontou com a cabeça para a massa amorfa deitada no corredor ouvindo música Indie - tá, o Vinícius não sei tem a capacidade de odiar alguém...

- Entendi, entendi.

- Enfim, a safra de bixos esse ano está muito ruim: ninguém mais come picles e acha que aquelas coisinhas verdes no sanduíche do McDonalds é picles de verdade. Dá para aceitar gente dessas? E depois que você e a Marcela saíram, a gente está com muito lugar vago, o aluguel está ficando pesado pra cada um. A gente precisa trazer mais gente. Principalmente agora que o Jonas foi embora...

- Epa, que história é essa, o Jonas saiu daqui também?

- Porra, Filipeta, mas você é um imbecil, também, né? Por algum acaso não reparou que já faz duas semanas que a Bárbara está de olheira, cara amarrada e com raiva do mundo inteiro? Conseguiu somar isso com o fato do Jonas não ter aparecido aqui nas últimas duas semanas?

Mau pagador II

Morte ao Pinga

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Na terça-feira, o Felipe voltou para a República, ainda babando de raiva. Tinha acabado de ter o cartão rejeitado no mercado por causa do Pinga, que não passou o aluguel do apartamento para o nome dele e acabou mandando o Felipe para o SPC.

A Bárbara atendeu a porta, o Felipe disse:

- Bom dia Bárbara, tem uma faca afiada na cozinha? Preciso trucidar o imbecil do Pinga.

- Ele tá no quarto, ô nervosinho. - a Bárbara respondeu com uma cara de o-que-quer-que-seja-não-é-problema-meu.

O Felipe entrou, deu de cara e foi batendo com força na porta fechada do quarto que ele antes compartilhava com o Pinga.

- Ô bandido! Taí, seu ladrão?

O Pinga abriu:

- Fala, Felipeta! Há quanto tempo, tudo jóia?

- "Felipeta" o caralho, salafrário! Esse maldito apartamento está alugado no meu nome, caralho. E vocês não pagam o aluguel faz dois meses!

- Calma, a gente ficou duro, que sem você e a Marcela por aqui ficou mais pesado pra cada um... A gente tá chamando uns caras novos pra preencher o espaço, já que o Jonas tá indo embora...

- Sua paca de jardim, meu nome ficou sujo na praça, eu não consigo alugar mais porra nenhuma por tua causa, que não passou o apartamento para o teu maldito nome.

- Como não! Eu passei sim, te entreguei os papéis direitinho assinado com a transferência no final de janeiro, cara!

Por mais irresponsável que o Pinga fosse, ao menos com papel ele sabia lidar. O Felipe ficou bufando de raiva, procurando uma explicação. Abriu a gaveta da escrivaninha do quarto e descobriu que ele tinha deixado alguns papéis ali, ainda. Entre eles, a transferência do aluguel, devidamente assinada.

O Felipe ficou com aquela cara, fervendo de raiva e querendo trucidar ainda mais o Pinga.E ficou lá, parado por meia hora, fervendo ante a cara impassível do antigo colega de quarto.

A única coisa pior que um imbecil é um imbecil que está com a razão.

Mau pagador I

Apesar de tudo, a república continua

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Em fevereiro de 2008, a República dos Picles voltou de férias, mas incompleta. Marcela tinha entregue as chaves um mês antes e levado consigo todos os picles com alecrim, que só ela gostava. Logo em seguida, o Felipe anunciou que havia conseguido alugar sozinho um apartamento não longe dali e que passaria o contrato de aluguel para o nome do Pinga, que (Felipe suspirou) era a pessoa mais confiável dos que sobraram. O Felipe saiu em seguida sem levar picles nenhum.

Para o azar do Felipe, o senhorio do seu novo apartamento tinha alguns problemas pessoais e tinha um contrato de apenas seis meses. No final desse período, Felipe tentou renovar e descobriu que estava com o nome sujo na praça. Ficou fulo da vida, explodido: o imbecil do Pinga tinha esquecido de pagar os meses de junho e julho e - surpresa! - o contrato ainda estava no nome do Felipe.

Voltou correndo para o Itapetininga e bateu com raiva na porta do 1617. O Felipe ainda estava espumando de raiva quando a Bárbara atendeu. Estavam só ela e o Vinícius. O Vinícius estava sentado no chão do quarto lendo e ouvindo música, e parecia que estava na mesma posição em que tinham deixado ele da última vez que o Felipe viu. As duas únicas perguntas do Felipe foram:

- O que vocês sabem do aluguel?

- Nada. - o Vinícius respondeu. - A gente tá transferindo a nossa parte todo o mês para o Pinga e ele paga a imobiliária.

E:

- Cadê o imbecil do Pinga?

- Só volta segunda - a Bárbara disse.

Antes que pudessem ter alguma conversa mais amigável que isso, o Felipe foi embora rosnando "quando-aquele-filho-da-puta-voltar-digam -que-eu-quero-falar-com-ele-ouviram?" e desceu para tomar um café na padaria do lado.

Ressureição social V

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- Felipe! - Marcela disse feliz quando ouviu o "alô" apático característico do veterano
- Boa noite, estou indo dormir. Me desculpe por atrapalhar a conversa.

- Não, espera, Felipe! Tenho que conversar com você!!

Felipe pára na porta, vira e vê Pinga e Marcela sentados um em frente ao outro e responde:

- Sério, Marcela, tô muito cansado...

- Sentaê, Felipeta!! Já tô me mandando...Levantei só porque o babaca do Jonas me acordou. - Pinga se levanta, dá uma piscada para Marcela e um tapinha nas costas de  Felipe e saiu da cozinha.

Felipe olha torto pra Pinga "quem ele pensa que é pra ficar me dando tapa nas costas?".

- Felipe, eu tive uma idéia nova para esse Natal! - Marcela ficava radiante quando falava do assunto - Olha,  tô até fazendo uma árvore de Natal de crochê!

- Legal, Marcela - Felipe decidiu entrar na cozinha e pegar um copo de leite antes de ir dormir.

De todas as respostas sobre Natal, a do Felipe foi, com certeza, a mais seca. Marcela atribuiu o desinteresse ao cansaço e perguntou a ele o que ele andou fazendo.

- Bom, eu tava com poucas matérias na faculdade...Já tinha fechado tudo há um mês. Aí eu passei um tempo fora, fazendo umas visitas aqui, outra ali, fui dar um alô na casa dos meus pais, resolver umas coisas...

- E por que você não avisou a gente?! Todo mundo aqui tava preocupado, achando que você tava super ocupado, morrendo de pena!

- E daí, Marcela? Eu não devo satisfações pra ninguém aqui, devo?! Além do mais, a maioria aqui quer me ver pelas costas. Pra que me preocupar em avisar todos esses filhinhos de papai?

- Como assim, Felipe? Tem gente aqui que se preocupa mesmo com você! Eu mesma me preocupo com você! Muito!

Felipe ficou vermelho.

- Você diz isso agora, mas com certeza é da boca pra fora....

- Da boca pra fora? Então você está falando por você! A única coisa que eu vejo você fazendo é reclamar de todos aqui dentro!
Você nunca deu uma demonstração de que alguém aqui fosse importante de
alguma maneira pra você!- O rosto de Marcela
começou a ficar vermelho como da vez que ela chegou da conversa com
Ricardo, seu ex-namorado.

- Marcela, calma, não é isso que eu quis dizer... - Felipe se preocupava que a amiga tivesse alguma parada cardíaca..

- Calma? Você pede calma? Mas como se você não tem consideração nem comigo e nem com os outros que estão
aqui! É isso? É você que não gosta da gente?  É você que quer nos ver pelas costas? Então pode ficar tranquilo, Felipinho!

- Ei, espera aí! Tá me ameaçando, tá? Tá querendo me expulsar? Então se lembra que o aluguel desse muquifo tá no meu nome!

- Não, queridinho! - Quando Marcela usava queridinho ou queridinha seu humor não estava nada bom! - Eu tô caindo fora! Vou morar com a minha prima! Eu tava a fim de fazer um Natal bacana antes de contar pra todo mundo que eu ia embora! - a vermelhidão do rosto de Marcela começou a virar lágrimas.

- O que?! Não, não, pára, Marcela! Eu vou embora, você fica! Pára! - Felipe se ajoelhou pra ficar na altura da cadeira em que Marcela estava sentada - Pára, vai...Pára de chorar! Eu vou embora...Eu só causo problemas aqui, mas você não, você é querida por todos! E eu já tô procurando outro apartamento... Eu andei sumindo por isso, também. Já faz tempo que eu tô falando que queria me mudar. Por favor, Marcela, pára de chorar!

- V-v-você tá falando sério? Você também tava planejando sair daqui?

- Como assim também? Não era só um ataque de raiva? Você vai mesmo embora?

- Claro que vou! Mas eu não queria que ninguém soubesse, ainda!! Agora eu voltei a ser amiga da Joana, vou morar com ela, com meus tios, sai mais barato...Não tem nada a ver com a república ou com o Itapetininga...

- Sabe, Má...Ainda bem que eu vou embora também, então...Isso vai ficar insuportável sem você aqui...

Marcela sorriu e achou que aquela era a melhor hora pra falar do amigo secreto.
Felipe queria distância de amigo secreto, por motivos próximos ao do Pinga, mas então lembrou que seria a despedida e aceitou participar.

Ressureição Social IV

Pinga

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Marcela continuou na sala esperando algum sinal do Felipe ou do Pinga. Ficou fazendo a árvore de Natal enquanto Jonas babava por todo o sofá.

Já passava da meia noite quando Jonas acordou e foi deitar na sua cama. Como ainda estava meio sonolento, Jonas errou a porta e deitou na cama de Pinga, que acordou assustado e mandou Jonas ir pro outro quarto.

Já que tinha acordado, Pinga resolveu comer alguma coisa, já que não fazia isso direito há uns cinco dias. Quando passou na sala assustou em ver a politicamente correta Marcela acordada.

- Pô, Má, acordada, ainda?

- Ah, sim, tô fazendo crochê e a luz do quarto é muito ruim...Tem dias que ela só acende com uma pancada!

- Esse prédio tá mesmo caindo aos pedaços - Pinga respondeu indo para a cozinha

Marcela foi para a cozinha, também, não tinha jantado e precisava de um copo de leite quente.

- Pinga, você tá acabado!

- Nem me fale, Marcela...Eu tomei tanta porcaria pra ficar acordado e terminar os projetos do curso que tô acabadão! E os nerds da minha sala nem quiseram me dar uma força, cara!

- Bom, eles tão certos, né , Pinga? Você só ia em festas, nada de fazer seus trabalhos...

- Iiiiih! Ter aulas com o Felipe te fez ficar mais chata! Já vai começar com lição de moral, é?

- EI! Eu não tô chata como o Felipe!! E faz dias que eu não o vejo, também...Ele matou as últimas aulas que faziamos juntos e tá trabalhando e tal...Hoje ele nem chegou, ainda!

- Como assim a bichinha ainda não chegou? Ele tinha me dito que já tinha acabado todas as matérias, pô!

- Sério? Nossa, será que aconteceu alguma coisa com ele?! - disse marcela assustada.

- Ah, não, vaso ruim não quebra fácil, desencana, Má! - Pinga ria enquanto imaginava Felipe torturando os sequestradores com seu jeito.

- Marcela, que você tá fazendo aí de crochê?

- Ah, é uma árvore de Natal pra República! Queria deixar de presente pra casa...

- Pô, da hora! Pena que a galera aqui não é muito ligada nisso, né?

- É...Pinga, eu tô falando com o pessoal de fazermos uma confraternização de final de ano...Um Natal com direito a amigo secreto antes do fim das aulas!

- Ah, legal a idéia, mas eu não sei, não... O último amigo secreto me deixou com um olho roxo! E você sabe como a turma não é muito unida, né?

- Eu sei que não... Por isso mesmo eu acho que a gente precisava se unir pra fazer alguma coisa. Eu não consigo acreditar que ninguém goste de ninguém, aqui!

- Ah, claro que tem gente que gosta de gente, aqui...Hehehehehe - Pinga dava uma risadinha irônica e piscava pra Marcela, que não entendeu onde ele queria chegar com aquilo.

- Vai, Pinga, me ajuda com a festa, vai! Participe!!!

- Tááááá! Tá bom, Mascote! Eu te ajudo! E participo dessa baboseira!

- AH!!!! Obrigada, Pinguinha lindo do meu coração!!! - Marcela deu um abraço profundamente agradecido em Pinga.

- Alô. - dizia uma voz séria vindo da porta

Ressurreição social III

Jonas

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Depois de chegar em casa com Vinicius, Marcela foi correndo avisar Barbara de que já tinham condições de fazer o amigo secreto.

- Certo, guria! Mas o Vinicius nem conta, né? Ele é todo alegrinho, meigo e bobo feito você! Lógico que ia aceitar! Hahahahaha! - respondeu Bárbara, ainda duvidando da capacidade da colega de organizar a confraternização da república.

Marcela, em compensação, já tinha se sentado na sala esperando a próxima vítima.
Enquanto esperava, a garota fazia uma árvore de natal de crochê que tinha aprendido com a avó.

Três horas depois, quando a base da árvore estava pronta, a porta do apartamento abriu.

- Alô! - dizia uma voz embriagada.

- Boa tarde, Jonas! Tá vindo da faculdade?

- Pode crer...Tem picles aberto? Aquele livro do Gramsci me deixou faminto!

- Senta aí que eu pego, você parece...meio...atordoado! 

- Valeu, cara!

Marcela abriu os picles, separou num prato e levou pra Jonas.

- E aí, já acabaram as provas?

- Pô, finalmente, cara! Mas tô manjando aquele chauvinista do adorador de Foucault me deixando de "dp"...

- Poxa, mas por que, Jonas? - Marcela não tinha idéia do que ele tava falando, mas deu corda.

- Ah, mano! Ele tá se achando depois que a Globo ficou falando de Foucault naquela babaquice de Tropa de Elite, lá...O cara não manja que o real sentido do filme é  fazer a galera se tocar que a elite não tá com naaaaada! Que o que falta no país é uma divisão igualitária de bens e meios de produção. Se a galera da favela partisse pra cima do B.O.P.E. de verdade, eles estariam enfrentando os representantes do governo, véio! Daí pra tomar o poder do governo é um passo, só! Aí, véio, os caras iam fazer a Revolução! Se pá, iam fazer florescer em toda a galera das massas a consciência de classes que eles não tem, cara! - Jonas começou a rir todo feliz pensando na revolução contra o B.O.P.E.

- Puxa, Jonas, eu nunca pensei no filme por esse aspecto, você tem razão, cara! - Marcela deu um tapa no ombro de Jonas que fez ele cair no tapete (e ela não é forte).

- Tá vendo, Má? Falei isso praquele babaca e ele disse que não tem nada a ver com a lógica de Foucault, cara! E daí?! Foucault não tá com nada! Aquele bichinha careca! Marx sim sabia das coisas!!!

- Falando em Marx, Jonas, onde você vai passar o Natal?

- Natal? Aquela festa capitalista com comidas gostosas? Pô, Má, sei lá! Em casa, eu acho! Por queee??? - a voz de Jonas ficava cada vez mais arrastada...

- Ah, porque a Bá tá a fim de organizar uma festinha pra celebrar o fim de ano aqui em casa!

- A Bá? Pô, cara, a Bá não me quer na festaaaa!!! - a voz passou de arrastada pra chorosa

- Claro que quer, Jonas! Ela que pediu pra eu convidar, porque ela tá sem graça de falar com você depois de tudo que ela fez, sabe?

- Sééééério?! - os olhos dele brilhavam.

- Claro, Jonas! Mas não fala nada pra ela que eu já te convidei, não! Pra fazer surpresa!

- Pô, Má, que da hora! Será que a Bá quer fazer as pazes??

- Hum, não sei, Jonas...Mas tem mais umas exigências que ela fez!

- Se for ler Foucault eu não venho em festa nenhuma! Nem que tenha Itaipava no prédio todo!!!!

- Não, não!! Ela não quer que você leia Ficou! A primeira é que você se vista de Marx!

- Marx? Como assim?!

- Deixa tudo comigo! Eu arrumo a barba e a roupa vermelha pra você! - Marcela ria por dentro enquanto imaginava a cena - A outra é a mais importante! Você tem que participar do nosso amigo-secreto!

- Ah, não, Má! Isso é muito capitalista, cara! Pô, ficar comprando presentinho? Pior ainda, presentinho chinês, porque o limite de preço é sempre baixinho! Isso aí é fortalecer a exploração de mão de obra chinesa, cara!

- Muito pelo contrário, Jonas! Com isso você fortalece a imagem da China perante o mundo! E você ainda se lembra que a China é um dos últimos países comunistas do mundo, né? Você vai fortalecer a imagem do comunismo e de Marx no mundo inteiro!!!

- PÔ, MÁ! Tu é gênia, cara!!! Eu agrado a Bá, ganho um presentinho e ainda levanto a imagem do Marx no mundo! Pô, da hora! Tô dentro, vou participar!!

- Isso, Jonas! É assim que se fala! Nada de deixar o Ficou ficar na mídia!!

- É, é isso, mesmo.... - a voz foi ficando cada vez mais arrastada e Jonas adormeceu no sofá.

"Só espero que ele ainda se lembre disso quando acordar!" - pensou Marcela.

Ressurreição social II

Vinicius

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Depois da aposta que fez com Bárbara, Marcela ficou de prontidão na portaria do Itapetininga esperando seus colegas de república.

O primeiro a chegar foi Vinicius. Ele vinha com uma sacola do sebo cheia de livros de poesia, ouvindo seu mp3 e com o sorriso bobo e tímido de sempre.

- Vini!! - Marcela gritou da portaria para o colega que vinha na outra esquina.

- Ah, oi, Marcela! - respondeu Vinicius, na portaria, enquanto tirava o fone do ouvido - Aconteceu  alguma coisa no apartamento?

- Siiim! Você nem acredita! O Pinga reapareceu!!

- Ah, puxa, que legal, né? Eu não converso muito com o Pinga, mas eu acho ele um cara super legal! Hehehehe - Vinicius dizia tão espontaneamente que Pinga era legal, que até parecia que eles eram amigos de infância.

Marcela sorriu. Sabia que convencer o Vinicius não seria uma tarefa difícil.

O rapaz foi abrindo a porta do elevador, esperou Marcela entrar e apertou o 16º.

- Vini, quando você tá pensando em voltar pra casa?

- Não sei, Marcela...Estou esperando sairem as notas pra poder voltar. Vai que eu pegue algum exame, né?

Marcela pensou consigo mesma "Ele não tem mesmo noção de quanto é nerd ou é só tipo?"

- Ah, então, Vinicius, tava pensando em organizarmos um amigo secreto com a galera da república! O que você acha? - Marcela fez um sorriso tão grande e tão alegre que nem a pior pessoa do mundo conseguiria resistir. Muito menos o Vinícius!

- Ah, claro! Com todo o prazer! Eu participo, sim! - Vinicius respondeu empolgado.

Chegaram no 16º andar. Marcela abriu a porta do apartamento saltitando!!

Ressurreição social I

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Pinga abre a porta da república de sopetão, com cara de sono e uma barba 3 vezes maior.

Marcela e Bárbara, que estavam em seus quartos, saem, assustadas com o barulho.

- PINGA!!! - gritam as duas.

- Fala, galera! Ow, não é nada pessoal, mas tô indo pra cama, me acordem semana que vem, falou? - e bate a porta do quarto.

Marcela e Bárbara se olham:

- Tadinho do Pinga, né, Bá? Ralou pra caramba nessa última semana!

- Eu também, né, Marcela? Mas eu finalmente terminei o último fichamento!! Só tô esperando uma resposta aí e, se pá, semana que vem tô indo de volta pra terrinha! - disse Bárbara com um sorriso maroto e aliviado no rosto.

- Nossa, é mesmo! Todo mundo já tá acabando tudo por aqui!!! E eu quero fazer um amigo secreto com toda a galera, Babi!

- Amigo secreto? Fala sério! Já pensou eu tirando o Jonas, ou o Pinga e o Felipeta se tirando? Desiste, Má! Nem rola!

- Mas é final de ano, Bárbara! Hora de todo mundo dar as mãos, cantarem juntos, esperarem coisas boas pro ano que vem! E não tem nada melhor do que terminar o ano em paz! - o olhar de Marcela reluzia enquanto falava.

- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!! Você é tão engraçada, Marcela! Seu jeitinho meigo é muito engraçado!! Tá bom, você me convenceu! Mas tem que convencer todo mundo a participar, também! E você, sozinha, tem que fazer isso!!! - dizia Bárbara com risadas intercaladas

- Você tá duvidando, Bárbara? 

- De você? Não! Eu duvido é que os outros queiram participar!! - E Bárbara ria ainda mais.

- Então espera todo mundo chegar, espere! 

Marcela não tirava a idéia da cabeça desde o dia em que despareceu da República. O desespero de todos a sua procura fez ela sentir-se imensamente feliz de fazer parte dos Picles Acadêmicos. Ela achava que deixar tudo em ordem, todo mundo de bem, seria a melhor forma de agradecer.

Recesso Social

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Nunca se viu a república tão vazia e tão silenciosa desse jeito.
Ninguém come junto e nem param na frente da tv para comentários estúpidos.
Não, não, eles não estão em mais uma das infinitas brigas; Muito pelo contrário, há um mês não brigam!

A razão para tanto silêncio e tanta paz acontece duas vezes por ano e é conhecido como final de semestre.
Nessa época do ano alguns fenômenos estranhos acontecem, como:

- Fim da militância política: as eleições para o DCE marcam o final dessa luta. Jonas desistiu de fazer Bárbara voltar pra Juventude Socialista momentaneamente. Bárbara, por sua vez, largou o livro do Comte de lado e está fichando um interminável Maquiavel.

- Fim dos apelidos carinhosos: talvez porque não se encontrem mais na república ou porque não tenham tempo de se falar, Filipe e Pinga não trocam mais farpas. Felipe só volta pra casa para dormir e Pinga...Bom, ninguém sabe exatamente do Pinga há duas semanas, desde que apareceu um bilhete na lousa dizendo que tinha um projeto pra terminar. A última vez foi visto saindo de um laboratório do IC em direção à cantina com uma xícara na mão.

- Fim das visitas: Joana também sumiu da república. A prima de Marcela que estava acostumada a fazer visitas frequentes deu uma sumida. Está se preparando pra prestar o vestibular de medicina pela 3ª vez.

- Fim dos projetos poéticos: Nem o nerd do Vinicius escapou dessa tempestade. Seu projeto de escrever um livro foi engavetado por tempo determinado: sai de lá depois do Natal.

A única  que ainda tem um mínimo de vida social é Marcela, que volta toda semana com Felipe da aula, que já entregou uma parte dos trabalhos e só tem duas provas pra fazer até o final do semestre e que está excepcionalmente empolgada em fazer um amigo secreto antes que todo mundo viaje de volta para casa.

Desavença

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Jonas e Bárbara ainda não fizeram as pazes. Continuam em stand by. Trocam apenas murmúrios e grunhidos, situação essa que anda irritando o já estressado resto da casa. O ápice da situação foi esses dias, quando Bárbara comentou uma coisa com Jonas:

- Tô saindo da Juventude Socialista.

- Por quê?

- Sei lá, a galera lá não tem a mesma filosofia que eu.

- Só se você não for socialista, oras.

- Eu tenho a impressão de que eles são tipo mencheviques aburguesados, e não materialistas históricos dialéticos marxistas.

- Bobagem a sua, Bárbara. (Jonas geralmente chama sua namorada de "amô". A situação não está normal)

- Já tomei a decisão, vou avisar ao pessoal que eu tô saindo do grupo. Também tô saindo do PSTU.

- Que tá acontecendo com você?

- Jonas, você não manda na minha vida. Quero sair porque não dá pra eu ficar lá, só isso.

- Alguma explicação deve haver. Deve ser aquele livro do Comte que você anda lendo.

- Como você sabe que eu tô lendo Comte? Você anda mexendo nas minhas coisas?

- Não. O livro tá na sua escrivaninha. Tá virando positivista, agora?

- Não! Claro que não, Jonas!

- Hunf. Não acredito que você comprou um livro do Comte. Daqui a pouco, tá comprando Veja.

- O livro não é meu. É de um amigo.

- Deve ser daquele babaca hegeliano do Danilo. Advogado da San Francisco é uma merda mesmo.

- Não fala assim dele! Ele é bonzinho!

- Ele é gay!

- O quê?

- Er... esquece.

- Eu deveria não mais olhar pra sua cara de novo. Gay não é xingamento. E os nossos amigos do grupo GLBT do PSTU? Tá virando preconceituoso também.

- Tá, eu perdi a cabeça. Mas....

- Mas nada! Deu pra ter ciúmes agora? Você sabe que o ciúmes amoroso é egoísta e um dos fundamentos da sociedade capitalista-imperialista, né? Depois eu que sou pelega.

- Eu não te chamei de pelega!

- Me chamou de positivista, chamou o Danilo de gay, não me surpreendo com mais nada.

- Bárbara, quer calar a boca? E nem vem com esse negócio de ciúmes que você me encheu o saco por causa da Dulce.

- Mas a Dulce é capitalista!

- Ai, chega desse papo, parece uma papagaia, "capitalista", "burguesa", "imperialista".

- Engajadinho de araque, pelego!

- Girondina!

- Menchevique!

- Hegeliana!

- Positivista!

- Determinista!

- Arenista

- Burguesa!

- Neoliberal!

- Udenista!

- Tucano!

- Fascista!

- Lacerdista!

Depois desse punhado de ofensas terminadas em "ista", os dois ficaram mais um bom tempo sem se falar. Compreensível. Chamar o próximo de "menchevique" é um absurdo do fim dos tempos.

Picles de outubro

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Nos últimos dias, o Felipe andou brigando com o chefe. Dizia que estava contratado como estagiário fazendo trabalho de formado. O trabalho era interessante, mesmo, ele está aproveitando bastante, menos na hora de receber o salário. Por outro lado, como passa o dia na empresa e a noite estudando, está passando cada vez menos tempo na República dos Picles Acadêmicos. Quando está lá, passa a maior parte do tempo resmungando com o Pinga, colega de quarto.

A Marcela já estava se recuperando da tristeza. Uma coisa foi certa: graças ao rompimento do namoro, estreitou a amizade com a prima, que deu para visitar a República quase todo dia. (A prima, Joana, era na verdade filha do tio Lucas, o segundo marido da tia Fernanda, irmã da mãe da Marcela. Marcela e Joana se conheceram já quando tinham 12 anos. Passaram a se considerar família quando, no ano seguinte, a Joana e o pai ficaram um ano e meio morando no Acre. Quando o tio Lucas voltou para São Paulo, a Joana e a Marcela perderam contato, tanto que quando a segunda veio para São Paulo estudar, nem cogitou em ficar na casa da tia Fernanda)

O Vinícius, por sua vez, está ruminando uma grande idéia. Vai escrever um livro de poesias.

Reminiscências I

Maria e Pablo

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Vinícius:

- Eu sei que sou muito novo pra ficar tendo reminiscências, mas... Eu lembro que na terceira série, o que mais me intrigava era por que nos problemas de matemática nunca usavam o artigo antes do nome das pessoas: "Maria foi a feira e...". Além disso, metade dos problemas do livro era com um tal de Pablo.

Ou derreter

Continuação de "Você pode empenhar"

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- Não vai dizer nada?

- Você tem razão. Eu não presto. Eu não sei viver com dificuldades.
Estar longe de você é uma dificuldade. Eu achei que minha felicidade
não podia ficar longe de mim. Fui procurá-la perto. Quando você chegou,
nas férias, eu quis terminar tudo, me sentia um cafajeste, mas você
veio logo embora, ou melhor, eu fiquei adiando até você ir. Quando o
Felipe ligou desesperado em casa eu percebi, finalmente, que a
felicidade era você, que não importava a distância, a dificuldade, era
você que eu precisava pra ser feliz. Me perdoa, por favor. Eu quero vir
pra São Paulo só pra ficar com você! Depois podemos voltar pra
Curitiba, se você preferir, eu vou onde você for!

Marcela, a doce Marcela, aquela que chorava em todos os filmes (até com
Procurando Nemo), aquela que ouvia uma música e chorava pensando em
tudo que lhe acontecia, manteve o rosto firme. Olhou nos olhos de
Ricardo e disse:

- Está perdoado, mas ainda assim, você não é mais meu namorado. Quero terminar. Ou melhor, já terminei.

Ricardo abaixou a cabeça. Pareceu arrependido de tudo, mas resignado, consciente de que não tinha outro jeito. Marcela levantou e foi pra república.

Às 14 horas ela entrou em casa. Passou direto por todos, que estavam
abrindo um picles na sala, e foi pro quarto. Ficou lá até às 23 horas. Ouviu toda a sua playlist especial de fossa e chorou. Chorou tudo o que
tinha aguentado no restaurante. Chorou enquanto separava as fotos, os
presentes, os cartões e os desenhos.Não teve coragem de jogar nada fora. Não era hora. Colocou numa caixa e
levou pra sala. Ia guardar no baú do sofá cama, já que não tinha espaço
no quarto. No próximo feriado levava pra Curitiba.

Mas até ali ele tinha que estar?
Felipe dormia no sofá com a tv ligada baixinho naquelas orquestras da Cultura. Marcela sorriu.

- Felipe? Acorda...Felipe? Vai pra cama...

- Ahn? Droga, dormi no sofá de novo. Que horas são?

- Quase meia noite, eu acho...

- Você tá legal?

- Acho que sim. Me ajuda a guardar isso aqui? Prometo que levo embora no próximo feriado.
Eles guardaram a caixa.

- Precisa de mais alguma coisa? - perguntou Felipe, com medo de alguma bronca por não ter sido cavalheiro.

- Não, não precisa, vai deitar...

- Tá certo. Boa noite, Marcela.

O veterano da república foi deitar, estranhando a amabilidade de Marcela com ele. Mas percebeu que ela estava com os olhos inchados. Sabia que ela tinha terminado com o
namorado. Deu pra ver que ela estava sem aliança e sem o cordãozinho
com um M pendurado no pescoço. Ele até queria falar com ela, mas ela
disse que não precisava de nada. Ele ficava triste de ver Marcela triste. Era como um mascote na casa. Todos gostavam dela, até Vinicius ria com ela. Se ela não estivesse bem, a casa não estava bem. Mas não podia fazer nada, também. Precisariam esperar, tentar não mostrar a tristeza que sentiam com Marcela e ter muita paciência. Muita.

Você pode empenhar

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É domingo. A República ainda está meio abalada depois do sumiço de Marcela.
Todos continuam com aquelas caras de sono atrasado.
Marcela passou o resto do sábado dormindo, trancada no quarto.
O resto da República estava igual e Felipe estava contente de não ter acontecido nada para Marcela, ou seria torturado até a morte como culpado, por ter deixado a pobre donzela sozinha no meio da rua à noite.
Domingo de manhã.
Às nove, toca a campainha.
Era o namorado de Marcela. Com toda a confusão, Ricardo tinha feito amizade com Felipe e Pinga e combinaram de assistir a corrida de Fórmula 1 ali.

Às quinze para as dez, Marcela levanta e vai com o cabelo despenteado e com as pantufas pra cozinha pegar água.

- RICARDO! O que você tá fazendo aqui?
- Ah, bom dia, meu amor! Eu vim passar um tempo com os seus amigos e ficar pra almoçar com você.
- Muito obrigada por ter avisado antes, viu? Olha o meu estado! Estou um lixo!!
E ela volta pro quarto, onde fica trancada até às 12, se arrumando um pouco, arrumando o quarto que tinha sido revirado atrás da agenda dela.

Ao meio dia a casa estava muito animada e Bárbara e Jonas começavam a tirar as coisas da geladeira pro almoço.
Marcela sai do quarto com a bolsa a tiracolo e fala pro Ricardo:
- Vamos, então.
- Pra onde? - responde ele confuso.
- Almoçar. Quero almoçar só com você.
- Ah, tá, eu não tinha pensado nisso, mas tudo bem!

Eles saem, param num pequeno restaurante que tem perto do Itapetininga. Pedem dois pratos de massas.
Marcela pede raviolli de frango. Ricardo, lazanha.

- Ah, Marcela, você nos deu um susto tão grande!
- Dei, foi? Eu não imaginava que o pessoal da república se preocuparia...
- Não só eles, mas eu também me preocupei!
- Por favor, Ricardo! Você me ignorou as férias praticamente inteiras!
- Ah, você sabe que eu tava atarefado com algumas entrevistas de emprego...
- É, entrevistas de emprego que duraram dias inteiros, o mês inteiro. Sabe, eu posso até ter cara de ingênua, inocente, mas eu não sou nada boba.
- Imagina, Marcela, não estou dizendo isso! Só estou dizendo a verdade.
- Então me conta. Qual o nome dela? Acontece desde o dia em que eu vim pra cá pela primeira vez ou foi depois?
- Quem?
- Ricardo, a Joana te viu em Curitiba com uma moça, muito agarradinhos enquanto eu estava lá.
- Que Joana?
- Você não presta atenção nenhuma mesmo, não? A minha prima, onde eu passei a noite. Eu não fui em festa nenhuma, ela pediu pra conversar comigo e eu fui pra casa dela. A conversa foi longa, por isso demorei a chegar.
Ricardo fez um gesto e abriu a boca, querendo se defender
- E não adianta negar também, não, Ricardo. Pra ser sincera, quando fui pra Curitiba eu queria salvar o nosso namoro, mas eu não percebi que não tinha mais salvação.
- Como assim? Salvar? O que? Nós estávamos bem até ontem!
- Não, não...Desde que eu vim pra São Paulo a gente quase não se fala mais. Mesmo quando eu vou pra Curitiba você é distante comigo. Essas coisas matam o que a gente sente, sabe?
- Ahn, como assim? Você não me ama mais?
- Eu tô bem confusa, Ricardo. Conhece aquele ditado "Quem não dá assistência perde a preferência, abre pra concorrência"?
- VOCÊ ESTÁ SAINDO COM OUTRO?!
- Não disse isso. Só disse que tô confusa. Ou melhor, estava. Depois da conversa com a Joana, não tô mais confusa, não.
- Ah, ela te apresentou alguém?
- Por favor, Ricardo! Quem me traiu foi você! Nem que você fosse o melhor namorado do mundo, nem que eu não estivesse apaixonada por mais ninguém, eu nunca ia ficar com você depois disso.

Marcela dizia tudo isso exaltada. Ricardo ouvia assustado. O garçom chegou. Se calaram. Agradeceram. Olharam sem fome pra comida. Ricardo em silêncio. Marcela esperando uma resposta. Não tinha resposta.

(continua...)

Onde está IV

finalmente, as razões

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Sábado de manhã.

- Marcela! - gritou o namorado dela.

- Puta-que-pariu! Você está bem?! - perguntou o Vinícius.

- O que aconteceu, Marcela? - perguntou o Felipe.

- Peraí, gente, como assim? - retrucou a Marcela. Claro que está tudo bem - falou, com a voz meio arrastada, sem entender muito. Por que não estaria?

- Marcela! Você sumiu essa madrugada.

- Quê? Ah...

- Você não pegou a carona com o Felipe. A gente achou que tinha acontecido alguma coisa com você.

- Gente, não se pode mais sair de noite? Sexta-feira.

- Você não atendeu o celular.

- Achei que fosse isso daí - apontou para o Felipe - ligando. Não estava com cabeça para falar com ele. Depois acabou a bateria, mesmo.

- A gente ligou para todo mundo da sua agenda, ninguém sabia de você! - a Bárbara inquiriu. - Com quem que você tava?

- Que interrogatório! Saí com minha prima.

- Prima?

- Vocês não conhecem. Joana. Não falo muito com ela mesmo. 

A conversa terminou por aí e ficou por isso mesmo. A Marcela entrou no quarto, pegou uma toalha e foi tomar banho.  Cada um arranjou uma coisa para fazer e o namorado foi embora, contrariado, e pediu que avisassem à Marcela que ele voltava mais tarde.

Mais tarde, no sábado o Felipe comentou com o Pinga:

- Mêu, o que foi tudo isso afinal? O que foi que aconteceu?

Ele respondeu simplesmente: 

- Foi estranho, só sei disso.

Onde está III

aqui está

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Sábado de manhã.

O Vinícius foi o primeiro a acordar, seguido dos outros, entre as nove e dez da manhã. Às onze, o namorado da Marcela chegou. Tinham ligado para ele e sabiam que ela não estava com ele, mas ele não tinha sido propriamente avisado da sumida dela.

Passaram a manhã fazendo mais outras ligações, e nada. O celular não atendia, não atendia, não atendia.

Almoçaram todos por lá mesmo.

Sábado de tarde, a Marcela chegou em casa. Estava com a mesma roupa do dia anterior e com cara de mal dormida.

- Puta-que-pariu, Marcela! Finalmente! Você está bem, o que aconteceu?

- Como assim? Qual o problema?

(continua)

 

Onde está II

a busca pela madrugada

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Madrugada de sexta para sábado.

Na quinta-feira de noite, o Felipe tentou dar uma carona para a Marcela, ela não quis. De madrugada, se deram conta que ela tinha sumido.

- Não me olha assim, Pinga.

- Quié?

- Eu ofereci carona para ela.

- Devia ter insistido.

- Eu insisti.

- Devia ter insistido mais. Agora cadê ela?

- Não sei! Não fui eu que fiz isso.

O Felipe e o Pinga estavam subindo o elevador enquanto conversavam. Tinham acabado de rodar as ruas da cidade procurando pela Marcela. Nada.

Tentaram ligar para o celular dela umas vinte, trinta vezes. A Bárbara ligou para todas as amigas da Marcela que moravam perto do campus, mas ninguém tinha visto. Ligaram de novo para o celular dela. Ligaram para o namorado, que ficou preocupado e disse que não sabia de nada. E ligaram de novo para o celular dela, e nada: caixa postal.

No fim, dormiram de cansados. Acordaram sábado, às oito da manhã, com o namorado da Marcela batendo na porta, procurando por ela.

- Mas cadê ela?

- Não estava com você, não?

Explicaram a situação e ele olhou muito torto para o Felipe.

(continua)

Onde está I

Não, não é continuação do "Onde foi parar"

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- Felipeta, acorda, Felipeta... - dizia Pinga, delicadamente, no ouvido de Felipe, que, imerso em seu sono de pedra, não escutava nada.

- Felipeta, seu idiota, acorda! - gritou Pinga.

Felipe acordou assustado e começou a gritar com Pinga:

- Puta que o pariu, seu idiota! Quer me deixar surdo, é? E ainda por cima me acorda, às 3 da manhã! Espero que a dispensa esteja pegando fogo, seu cretino!

- Cala a boca, madame! O lance é sério! Preciso do seu carro, vai dar a chave ou não?

- Que mané te emprestar a chave o que, seu idiota! O carro é meu! Não vou te emprestar porcaria nenhuma pra você sair com as meninas da enfermagem essa hora!

- A Marcela não voltou, Felipe. E é bom que você empreste esse carro pra eu ir procurá-la agora ou você não vai ver mais nenhum livro de russo nesse apartamento daqui a pouco. - quando Pinga chamava Felipe pelo nome, a coisa era séria mesmo.

Felipe levantou assustado e encontrou todo mundo na sala olhando com censura para ele, até o Vinícius.

Bárbara ficou procurando a agenda da Marcela pra ligar pras amigas da faculdade que moram grudadas ao campus.

Vinícius tava ligando pros hospitais.

E o Jonas...Bom, o Jonas tava atrás da Bárbara, tentando se aproveitar da situação pra fazer as pazes.

Pinga e Felipe pegam o carro pra dar uma volta, pelos arredores.

Onde estará a Marcela?

Sem carona

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Fim da aula. Onze da noite.

- Marcela, ei, Marcela, espera um pouco. Marcela! Marcela!

- Diz, pô, Felipe, que é que raios você quer agora?

- Calma, Marcela. Só quero te oferecer uma carona para casa. Já é onze da noite, Marcela.

- Ir de carro com você? Mas de jeito nenhum!

- Prefere ir de ônibus, Marcela?

- Melhor do que com você, tarado.

- Mas, Marcela, eu já...

- Pára de ficar me chamando, "Marcela, Marcela". Eu já estou aqui. Diz duma vez.

- ... eu já disse que foi. Não quis mexer nas suas calcinhas, estava só procurando o meu livro em russo.

- Sei.

- Eu revirei todas as coisas de todo mundo, Marcela! Você sabe que não foi nada pessoal.

- Olha, não me vem com papo. Não sei o que você ainda está fazendo na república, se só arranja encrenca com todo mundo. Justo com o coitado do Pinga?

- Mas o Pinga, bah, Marcela. O que você quer dizer?

- Olha, são onze da noite. Estou cansada, já passei o dia inteiro aqui. Não quero discutir agora.

- Está cansada, sim. Vem, vamos duma vez pra casa. Te dou uma carona.

- Já disse que não! Não vem com essa.

- Ok, senta do banco de trás. Faz o que quiser.

- Não, Felipe!

Nisso que ela gritou, um livro pesado de engenharia caiu da mão do Felipe, bem em cima do pé dele. Ele xingou em voz baixa, entrou no carro e saiu. Tomou o cuidado de deixar a porta do quarto bem fechada para quando a Marcela, vindo de ônibus, entrasse no apartamento.

De volta ao potinho de picles II

Vinícius, Pinga e Felipe

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Vinícius voltou de Uberaba com um bom estoque de picles em conserva caseiros, preparados pela avó.
Os potinhos alvos de desejo renderam à república um novo fôlego pra começar o semestre.

Pinga ainda não apareceu na república esse semestre.
Está na Bahia. Foi para Porto Seguro com os amigos do colegial para relembrar a viagem que já tinham feito.
Passou quinze dias bebendo, indo à praia, participando dos luais, raves e todas as festas que aconteciam por lá, cheias de garotas de 17 anos...
Assim, preferiu estender as férias, marcando o avião para a quarta feira.
Já é sexta e ele continua dividindo o seu banco de aeroporto com uma morena que pretende ir pra USP no ano seguinte.
Ele mandou cartões postais para todos, menos para Felipe, por causa do olho roxo.

Felipe anda mais resmungão do que nunca!
Arrumou um estágio numa empresa de tecnologia óptica e por isso precisou refazer todo o seu horário na faculdade. Precisou desistir de Grego II e de Hebraico I, que aconteciam durante o dia. Por muito pouco não ficou sem nenhuma matéria esse semestre. Foi salvo por uma matéria sobre redes ópticas (que veio em ótima hora) e uma da biologia, meio inútil, mas suficiente pra manter a matrícula.
Só que a aula da biologia começa às 21, último horário da faculdade, e terá que fazê-la com Marcela, que ainda se recusa a falar com ele nem para pedir que passe os picles.
Agora Felipe pensa seriamente em deixar a república...Mesmo com o estágio, os gastos estão altos e o clima insuportável.

De volta ao potinho de picles I

Bárbara, Marcela e Jonas

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Mesmo com todos os problemas no calendário gerados pela greve, chegou a hora dos Picles voltarem ao batente.

Bárbara e Jonas andam brigando feito gato e rato.
Bárbara tem passado a maior parte do tempo trancada no quarto da Marcela, o lugar mais inacessível da casa, para não ser importunada por Jonas.
Tudo porque ele não ligou desde que voltou pra Franca.
Ele se defende dizendo que foi para um sítio da família e lá não tinha telefone (ele não usa celular também, mas, naquele brejo, celular não teria lá muita utilidade).
Bárbara não acredita, diz que viu a camiseta do Che com marca de batom, mas Jonas jura que era molho de tomate que caiu formando uma manchinha em forma de boca.

Marcela está super incomodada, não só porque toda vez que chega da aula encontra o quarto com um incômodo cheiro adocicado, mas também porque deixou Curitiba com pulgas atrás da orelha.
Seu namorado apareceu uma vez só no mês inteiro, com um jeito muito distante e esquisito. Prometeu que ia pra São Paulo vê-la no início das aulas e pra procurar emprego.
Ela anda bem ansiosa pela chegada dele.
Está achando que ele arranjou outra garota de quem ele pode ficar mais perto e está procurando um jeito de dizer que tudo terminou.

Jonas, em compensação, anda irritadíssimo com os chiliques de Bárbara.
Foi para a Franca pra ficar um pouco distante dela mesmo, afinal, morar com a namorada tem lá seus incovenientes, também.
Ele só não contava com uma patricinha, Dulce, que andava por aquelas bandas, visitando a família... Ela tinha um perfume muito mais agradável que o de Bárbara, andava com bota plataforma, bijuterias hippies e tava sempre no barzinho, do melhor chopp de Franca, dividindo a mesa com o Jonas.
No final das férias, a mãe dele decidiu que não ia lavar as roupas dele, que não tinha coragem de chegar perto delas e que ia jogar tudo fora e lhe dar as camisas xadrez que estavam na promoção. Mas Jonas achou melhor jogar tudo dentro da mala, esconder e pedir para Bárbara lavar depois.
A mala está cheirando tão mal que os integrantes da república estão ameaçando jogar tudo fora se ele não começar a lavar logo aquilo.

Casa vazia

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Nos que poderiam ser os piores dias da república dos Picles Acadêmicos, tudo corre bem. Ninguém mais lá dentro está de novo se entendendo. Todos já brigaram com todos, mas por sorte agora é julho e estão todos de volta para suas cidades natais.

A Marcela voltou para a casa da mãe, que hoje mora em Curitiba, desde a morte do pai (da Marcela). Agora está brincando com o cão e os três gatos da família, mais umas duas amigas de infância. Trancou bem o quarto antes de sair.

O Vinícius está feliz em Uberaba, comendo a comida da avó e conversando com o primo na sala da casa.

Jonas e Bárbara foram juntos para Riberão Preto, até que o Jonas tomou o ônibus para Franca. Prometeram se ver nessas férias ainda mais uma vez, mas o Jonas está enrolando para ligar.

O único que ficou no apartamento foi o Felipe. A família dele é de São Paulo, por isso não tem para onde viajar. Está aproveitando as férias para passear pela cidade e está querendo dar uma passada em Belo Horizonte, visitar o primo. E decidiu uma coisa para esse mês: vai arranjar um emprego. Os picles estão ficando muito caros. 

Desagregação familiar

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A Marcela estava aborrecida, pois tudo no apartamento 1617 estava errado. O pequeno amigo-secreto de final de semestre foi um lixo. Na república dos Picles Acadêmicos, onde todo mundo se detesta mas vive feliz porque gostam de comer picles juntos, todo mundo estava se detestando um pouco mais que o normal.

Depois do episódio do livro perdido do Felipe, as tensões aumentaram. O temperamento explosivo do engenheiro já renderam olhos roxos demais ao Pinga, mais do que ele podia aguentar. O casal Bárbara e Jonas já estão incomodados. A Marcela? Essa daí evita cruzar com o Felipe, desde que ela pegou ele mexendo na gaveta de calcinhas dela, procurando um Dostoiévski. O Vinícius é o único que não está incomodado, mas ele não se incomoda com nada mesmo.

Da sua parte, Felipe está cansado dos colegas. Não é uma pessoa, digamos assim, tolerante. Se não gosta de alguém, não gosta. E justamente a pessoa por quem ele tinha mais consideração naquela casa, a Marcela, é justamente quem não pode mais nem olhar para ele.

Parece que nem os picles estão mais dando conta de manter a república unida.

Onde foi parar - parte V

FINALMENTE, o final

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- Pode falar - Felipe cobrando a confissão de Vinícius.

- Fui eu quem pegou o seu livro do Maiakówski.

- Maiakówski? Quem falou em Maiakówski?

- Ué, você não está falando do seu livro do Maiakóswki? Eu peguei o dicionário de russo junto com ele porque estou estudando russo.

- Não é nada disso, Vini. Eu quero saber do Crime e Castigo em russo.

- Aaaaaah...

- Então?

- Ué, você sabe.

- Como assim?

- Eu vendi pra um amigo, que é dono de um sebo.

- VOCÊ O QUÊ??????

- É, ué. O Crime e Castigo tava em cima de uma pilha de livros que você tava pensando em doar.

- Eu ia ler depois! Por que não me perguntou, sua anta?

- Eu perguntei! Perguntei anteontem, quando você chegou. "Felipe, posso vender todos esses livros?" e você "faz o que quiser, cara".

- MAS EU TAVA BÊBADO, PORRA! Não se pergunta as coisas para bêbados! Eu tinha voltado de uma festa da minha sala! Você é um imbecil mesmo!

- Ô, foi mal, cara.

- Deixa pra lá, Vini. Qual sebo que é?

- É o Cordel, lá perto da estação Jabaquara.

E Felipe seguiu para o Cordel imediatamente. Uma senhora de idade, com um gato cinzento no colo, bastante simpática, deu a seguinte resposta para Felipe:

- Crime e Castigo em russo? Ih, meu rapaz, acredita que meu filho recebeu esse livro ontem e ele foi vendido há 10 minutos pra um outro rapaz?  

Pois é, ele perdeu o Crime e Castigo em russo. 

Era a resposta que Felipe não queria ter recebido. Nesse momento, ele era o azarado dos azarados. O sonho de ler Crime e Castigo dentro de um período de um mês não iria ser realizado, não tão cedo. Felipe não iria adiar ou algo assim: o que ele queria era completar o livro nos dias que restavam.

Foi preciso uma hora de água com açúcar e medicamentos para diminuir a pressão dele. Como uma criança, Felipe chorou por 4 noites seguidas. Ele tinha perdido pro seu azar.

*-------------------------------------------------* 

- Vai, Pinga, é sua vez.

- Então, meu amigo secreto é uma bichinha neurótica, é nerd e parece um velho de 58 anos. Minha grande amiga Filipeta!

- Hehe...

Felipe pega o pacote e vai abrindo, enquanto ouve Pinga:

- Cara, olha isso! Esse presente eu comprei faz mó tempão. Foi um dia em que eu tava passando no sebo para comprar um livro de Física, quando vi Crime e Castigo em russo! A sua cara! Comprei na hora e deixei guardado pra dar de presente agora e...

Felipe não deixou Pinga terminar.

Assim como na vez em que Pinga mexeu nas coisas de Felipe, Pinga voltou a ficar com um olho roxo e um dente trincado.

Onde foi parar - parte IV

Vinícius

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Depois de perguntar pro casal de humanas, de xeretar o quarto da Marcela e de mexer nas coisas do Pinga, só restava a Felipe conversar com Vinícius, que era quem restava na república.

Vinícius era um cara de sono pesado e que não costuma ter aulas de manhã. Ou seja, ele ficaria dormindo até tarde. Então, seria a chance de Felipe dar uma olhada nas coisas dele. E foi o que Felipe fez: invadiu o quarto de Vinícius, que é o mesmo do pessoal de humanas, lá pelas 8 da manhã.

Em termos de organização, o Vinícius é um oásis no meio de um deserto de sujeira e bagunça. Suas roupas e coisas são limpas e bem organizadas. Roupas no armário, tênis debaixo da cama, livros na prateleira, CDs no porta-CDs. Até o violão está sobre o armário, polido e bem afinado. Tudo isso contrastava com as sandálias espalhadas pelo quarto, as camas desarrumadas e os panfletos atirados em qualquer lugar. A bandeira de Cuba que Jonas ganhou de um amigo estava toa rasgada. Felipe não entendia como Vinícius convivia com essa bagunça, mas isso não vinha ao caso.

Felipe começou com o armário. Camisetas e calças normais e bem arrumadas. Uma boina. Cuecas e meias. Nada de mais. Debaixo do violão, apenas algumas partituras de músicas do Tom Jobim. Não havia nada também entre a gigantesca coleções de CDs e DVDs do Felipe ("puxa, aquele desgraçado tem Amélie Poulain e nunca me falou!"). Debaixo da cama, apenas os tênis. Nada que não tenha sido visto até agora.

Restava a prateleira de livros. E que prateleira! Tinha de tudo, de Thomas Mórus a George Orwell. Livros muito bem conservados e organizados, que dariam trabalho para Felipe. Bom, vamos lá. Machado, Olavo Bilac, Mark Twain... epa, peraí. Desde quando o Vinícius tem um dicionário de russo? O Vinícius não falava russo até alguns dias atrás. Que negócio é esse? Sacanagem, hein!

Felipe nem hesitou: acordou Vinícius.

- Ahn? Que foi, cara, por que me acordou?

- Vini, na boa, me conta uma coisa.

- Puxa, que foi?

- Ó, na boa, você pode pegar o que você quiser de mim, desde que me avise antes.

- Do que você tá falando, Felipe?  

- Ô, Vini, vamos parando aí. Você sabe muito bem do que eu tô falando.

- Ahn?

- Por que você está com um dicionário de russo? Você nem sabia russo! E um livro em russo que tá comigo sumiu ontem!

- Ixe!

- O quê?

- Tá, cara, eu confesso...

(continua...)

Onde foi parar - Parte III

Pinga

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E o Felipe continuava na sua odisséia atrás de seu livro, que não estava nem com as pessoas do FFLCH nem com a Marcela. O negócio seria falar com os que restam, o Pinga e o Vinícius. O problema era que o Vinícius tinha aula de Latim III à noite e, portanto, voltaria muito tarde para a república.

O jeito é falar com o Pinga, mas ele demora a aparecer também. Só veio a aparecer às 22h, quando Felipe estava prestes a dormir. Bêbado.

- Pinga, você viu o meu livro?

- AAAAGHN?

- Meu livro, o Crime e Castigo, em russo.

- O que eu iria fajer co'ele, cara? Só se eu tiver ishcondido, mas eu nem me lembro mais... hahahahahahahahaha!

Sem condições. Ele estava com a roupa rasgada e cheirando a álcool etílico puro, não conseguiria nem responder o próprio nome, quanto mais sobre o seu livro. Bom, como o Vinícius iria demorar a chegar, restava ao Felipe fazer o que fez no caso da Marcela: verificar as coisas do Pinga. Afinal de contas, ele estava bêbado, não iria ligar.

O final do dia foi normal e todos foram dormir lá para as 23h, com exceção do Vinícius, que não tinha chegado. Pouco depois do Pinga adormecer, Felipe levantou-se. Ele tinha de fazer as coisas silenciosamente e sorrateiramente. Com uma lanterna, começou a fazer a busca.

As coisas do Pinga eram tão organizadas quanto Bagdá após um bombardeio. Felipe começou pelo armário. Meias, cuecas, camisetas, calças e bonés, sejam eles limpos ou sujos, dividiam um espaço homogêneo. As gavetas tinham desodorantes, livros de Cálculo e uma coleção gigantesca de revistas Playboy. E o bendito livro não estava lá. Uma parte do armário era reservada aos tênis, mas Felipe teve o bom-senso de não fazer uma busca profunda: o cheiro era terrível. De qualquer jeito, também não estava lá.

Bom, tem ainda a prateleira, com mais livros de engenharia, provas antigas, mangás, uma calculadora científica, um palmtop e um mascote do São Paulo. Nada. Bem, o livro podia estar em algum lugar na cama. Felipe olhou em baixo dela. Não estava.

Felipe, então, decidiu mexer no cobertor e no travesseiro. Para isso, ele teve de fazer com extrema calma e delicadeza. No cobertor, tateou algumas partes, procurando por um livro escondido. Não encontrou nada. Para mexer no travesseiro, um pouco mais complicado: Felipe teve de enfiar a mão embaixo. Nada. De quebra, ainda ouviu, de um Pinga em estágio REM do sono: "pára de mexer em mim, sua bichinha"...

Pois é, não estava no meio das coisas do Pinga. Onde diabos esse livro se meteu? Quem sobrava era o Vinícius. Mas justo ele, tão quieto e na dele? Ele pode ter tomado emprestado sem avisar, mas não era típico dele. Bom, nesse caso, Felipe decidiu não procurar nas coisas dele. Melhor falar pessoalmente.

Felipe foi dormir ansioso e mal-humorado. Ou ele encontrava... ou ele encontrava.

(continua...)

 

Onde foi parar? - Parte II

Marcela

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Felipe voltou para a república lá pras 17h. Nessa altura, ainda não tinha chegado ninguém. Restava a ele vasculhar pelos quartos das outras pessoas até que elas cheguem e possam dizer alguma coisa sobre o livro.

A lógica foi a seguinte: se é pra eu entrar nos quartos, então, vou entrar no quarto mais inacessível daqui, o da Marcela.

Sem muito pudor e peso na consciência, Felipe adentrou o bem organizado quarto de sua amiga. Muito bem organizado, diga-se. Era o único no qual a cama estava meticulosamente arrumada, com bichinhos de pelúcia sentados observando as ações de Felipe. Que limpeza, até o cheiro é diferente! Não há pó nas coisas, não há sujeira no chão, meias e roupas íntimas usadas estão separadas em um cesto no canto no quarto, a lata de lixo parece ser trocada diariamente, os tênis e sandálias estão devidamente acomodados em uma sapateira, as roupas estão organizadas dentro do armário, os livros organizados por título na prateleira, os pôsteres do Johnny Depp na parede, tudo certinho. Apenas a escrivaninha tinha alguns papéis e canetas, mas não era nada de mais.

Felipe procurou sujar e desorganizar o mínimo possível. Começou por olhar a prateleira. Dan Brown, Machado de Assis, Paulo Coelho, um gosto bastante comum. Um álbum de fotos. Felipe pega pra xeretar. Que fofo, fotos dela com o pai e o namorado. Não tem muitas fotos da mãe. Junto dos livros, alguns DVDs de comédias românticas. E um diário, trancado com cadeado. Romântica e solitária.

A escrivaninha só tinha papel da faculdade e exercícios sobre genética. O negócio é ver o armário. Não deve estar lá, mas ele decidiu ver tudo. Bom, nas roupas, o livro não está. Marcela é casual na hora de se vestir: camiseta, calça jeans, saia ou blusa de vez em quando, nada muito diferente. Na gaveta de calçados, o livro não está também, assim como na de meias. Só restam as duas gavetas de roupas íntimas: a de sutiãs e a de calcinhas. E se ela aparecer agora, indagou para si mesmo Felipe. Bom, o negócio é apostar na sorte.

Mas estamos no Itapetininga, ou seja, Marcela apareceu justo nesse horário! Ao ver Felipe mexendo nas suas coisas, ela ficou ruborizada. Em seguida, explodiu:

- Felipe, seu TARADO, o que você tá fazendo aqui?

- Má, deixa eu explicar.

- Explicar o quê? Que você tava mexendo nas minhas calcinhas? SAI!

- É que eu tô procurando o meu livro, o Crime e Castigo, em russo.

- Ahan, no meio das minhas calcinhas. Agora, eu pego o livro dos outros e coloco JUSTO no meio das minhas calcinhas! Que vagabunda que eu sou, não?

- Marcela, na boa, desculpa, deixa eu me explicar...

- Felipe, é melhor não falar mais nada. Sai daqui, agora.

- Pelo menos, você viu ou pegou o meu livro?

- Se é que você estava procurando um livro, né? Não, não vi. Nem peguei. Não entendo russo. Que droga! Bem que eu deveria ter colocado um cadeado na minha porta!

- Tá, obrigado. Desculpa mesmo, só queria o meu livro.

- Sai, Felipe!

Pois é, não parecia estar com ela. A Marcela é uma garota séria, não pegaria o livro do Felipe. Não sem falar com ele. Então, restava perguntar para o Vinícius e para o Pinga. Os dois chegariam mais tarde.

(continua...)

Onde foi parar? - Parte I

Jonas e Bárbara

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"PUTA QUE O PARIU, ONDE FOI PARAR?"

A frase acima foi dita por Felipe, dia desses, quando estava sozinho, sem aula. Felipe se referia ao exemplar em russo de Crime e Castigo que ele estava lendo. Era um desafio que ele havia colocado para ele mesmo: ler Crime e Castigo em russo em um mês. Havia conseguido ler 80% dele em 25 dias. E ele não iria aceitar perder esse desafio por nada nesse mundo.

O livro estava em cima da prateleira, metodicamente colocado entre um dicionário de italiano e um livro do Bukowski. Sim, Felipe era tão culto quanto organizado. E ninguém podia colocar a mão. Da última vez que Pinga mexeu nas coisas deles, ficou com um olho roxo e um dente trincado.

Tempo era tudo. E Felipe ficou, por duas horas, revirando as partes públicas da casa, como a cozinha, o banheiro e a varanda. Não encontrou nada. Então, o negócio era falar com o pessoal, perguntar se alguém tinha visto o livro. Podia ser uma brincadeira imbecil do Pinga ou algum daqueles esquisitos de humanas que pegou o livro sem pedir. Mas não havia ninguém em casa naquele horário e Felipe estava maluco com o tempo que estava perdendo. Então, ele pensou: vou falar com cada um da república, nem que eu tenha de ir atrás deles agora!

Bem, vejamos: a Marcela está em aula, o Vinícius deve estar na biblioteca e o Pinga deve estar bebendo com a galera dele. Por enquanto, só dá pra falar com o Jonas e a Bárbara, que deveriam estar fazendo protestos ou panfletagem. Eles não estão mais na reitoria, devem estar lá no FFLCH, o instituto deles.

E Felipe pegou um metrô e foi atrás deles, no FFLCH. O desespero era grande!

Apesar de Bárbara e Jonas seguirem o estereótipo dos cursos de humanas, não foi difícil encontrá-los. Eles estavam com a cúpula do Centro Acadêmico discutindo qual seria a próxima revolução de 1848 e sobre o que seria. O cheiro de erva se misturava com o cheiro de falta de banho das pessoas. Felipe, penteado, com tênis e camiseta da Speedo, até destoava do resto das pessoas:

- Fê, o que você veio fazer no FFLCH? - Bárbara, surpresa.

- Bárbara, tô procurando o meu livro, o Crime e Castigo, em russo. Você viu, pegou, sei lá?

- Ih, Fê, eu não sei russo, hehe. Não teria o porquê de pegar. Amor, você viu o livro do Fê? - Bárbara, para Jonas.

- Velhinho, não vi nada, não. Além do mais, eu já li Crime e Castigo - Jonas, com voz pausada.

As pessoas em volta começam a se interessar pelo assunto:

- Crime e Castigo? Não terminei de ler, mas é muito bom!

- É do Dostoiévski, né?

- Eu li um outro dele, o Guerra e Paz.

- Mas esse é do Tolstói, dã.

Até uma menina, de óculos cult, cabelo curto e camiseta das Mulheres do PSOL, se interessou por Felipe.

- Você também fala russo? Nossa, mas você tem carinha de engenheiro, nunca imaginaria isso, hehe. Qual o seu nome? Sociais, História ou Filosofia?

Resumindo: Jonas e Bárbara não sabiam de nada sobre o livro. Diante do blábláblá, Felipe ignorou a "cantada", a galera descolada, o cheiro, o papo intelectual e foi embora. Agora, era esperar o Vinícius, a Marcela e o Pinga na república.

(continua outra hora...)

Piano, Putz-Putz e Picles

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- Ô Filipeta, na boa.

O Felipe odeia ser chamado de Filipeta. Mas o Gabriel Marcos, aliás o Pinga, não presta atenção.

- Quê?

- Esse piano. Já deu no saco.

- Quê? Mas tá na metade só!

- E que raios de música é essa que dura duas horas? Pô, dá um tempo, Filipeta.

- Ah, vai! São só quarenta minutos, pô!

Mas o Felipe, engenheiro e curiosamente um eurudito humanista, cede e desliga o som. Mas ressalva:

- Ok Gabriel, (o Felipe se recusa a chamar o Gabriel de Pinga) mas só faz um favor.

- Quê?

- Não põe putz-putz não. Não estou pra isso, não.

- É, vai? Você pode e eu não? Que é, Felipeta, essa coisa de querer ser cult? Que tá pensando?

- Vai, ouve essa porcaria estúpida aí, mas não enxe meu saco.

- Velho ranheta.

Mas é domingo de tarde e o Felipe vê o relógio e se levanta. Chama o resto da casa. É hora do momento mais feliz naquela república de estudantes, a hora de abrir um novo pote de picles. Todas as desavenças de desfazem por meia hora.

- Vem, vamos comer picles.

- Tõ indo, Felipe.

- Vem duma vez, Pinga!

"Os Picles Acadêmicos"

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Nos bons tempos do Itapetininga (se é que já houve "bons tempos"), o prédio era constituído apenas por famílias pacatas e indivíduos solitários. Hoje em dia, com a decadência do nível dos moradores e os relativos preços baixos, o Itapetininga permite tudo quanto é tipo de residência e comércio. Seja uma sex-shop ou uma maçonaria. Repúblicas também são permitidas.

O apartamento 1617 é a república "Os Picles Acadêmicos". Nossa, que nome estranho. O diferencial (e o motivo do nome) é que todos os moradores da república devem gostar de picles. Não gosta, não entra. E olha que é uma república disputada, por ser mais barata que a média e por estar dentro de um apartamento grande de um prédio bem localizado. Cerca de 32 pessoas, desde o seu início, foram recusadas.

As pessoas que habitam a república são bastante peculiares. São 6 estudantes da USP, cada um fazendo um curso. 3 de humanas, 2 de exatas e uma de biológicas.

Comecemos com os de humanas. Vinícius é o estudante de Letras. Vindo de Uberaba, é o mais introvertido da casa. Geralmente, passa o dia olhando a cidade pela sacada, pensando no pão de queijo da sua avó ou na sua namorada. Tira fotos, escreve poemas e ouve Radiohead. Teoricamente, Vinícius é um autista social. Os outros habitantes da república têm medo dele.

Os outros dois alunos de humanas são bem mais medonhos. Bárbara é a aluna de Ciências Sociais. Muito amiga de Regina Campos, as duas passam o tempo discutindo sobre aquele filme do Almodóvar ou aquele livro do Kierkegaard. Não come picles do McDonald's, como não poderia deixar de ser. Gosta de Los Hermanos, Mombojó e forró universitário. Toma banho semanalmente. Está na reitoria, nesse momento. Pra quem vê de fora, uma menina insuportável, que vive de citar autores. Pra quem vê de dentro, algo pior ainda.

Bárbara tem um namorado, o Jonas, aluno de Filosofia. O Jonas é aquilo que muita gente viu em Woodstock: um tipinho bem alto, com cabelo de metaleiro, óculos de John Lennon, cheiro de cigarro aromático, macacão e sandália de dedo. Ele está lá, com Bárbara, na reitoria, quebrando algumas coisas. Assim como Bárbara, não come picles do McDonald's, com um adicional: também não come picles do Bob's e do Burger King. Seus hábitos de higiene são mais esparsos que os de sua namorada. É um indivíduo meio "distraído", devido à sua interessante relação com a botânica e com a medicina.

Os dois de exatas são engenheiros. Curiosamente, um deles, o Felipe, que faz Engenharia Elétrica, é o mais culto entre eles. Lê de tudo, fala russo, ouve música clássica, sabe sobre todos os assuntos e, por isso, é motivo de inveja pelo casal bicho-grilo. Felipe também é o que mais adora picles: come cerca de dois vidrinhos por semana, misturando com o arroz e com o miojo. É o mais velho, também: tem 24 anos. Está em seu terceiro curso: tentou Matemática e Engenharia da Computação e frustrou-se com os dois.

O outro é o Gabriel Marcos, o "Pinga", o aluno da Engenharia da Computação. Pinga tem aquela aparência típica de computeiro: estatura baixa, óculos, cara de inocente. Mas é o mais bêbado e drogado da casa, mais do que o casal de humanas. É do tipo que raspa a parede do apartamento para cheirar o pó. Além da vida alternativa, Pinga gosta de jogar RPG, ler mangás e falar sobre Java e mal das humanas. Apesar dos hábitos, é fundamentalmente um engenheiro.

Uma pessoa equilibrada na casa, finalmente. A Marcela, a aluna de Ciências Biológicas. Bonita e inteligente. Muito bonita. Até demais. Marcela dorme em um quarto separado para que nenhum dos homens dê em cima dela. Em seu recanto, ouve Hillary Duff e chora de saudades do pai, morto em um acidente aéreo. Fotos de seu namorado e do Johnny Depp dividem o espaço no quarto. Por ser a mais normal, geralmente é ela quem limpa e arruma o apartamento. Ah, esqueci de dizer: apesar dela ser normal, ela nasceu em Rio Branco, Acre.

São pessoas normais. Os de Ciências Sociais e Filosofia fedem, os homens espalham seus tênis pela casa, as mulheres têm TPM, os engenheiros não são modestos, a de biológicas é esquecida, o de Letras é um sonso. Cada um fala mal do outro pelas costas e, no fundo, todos se odeiam.

Mas tudo se resolve quando, no domingo à tarde, Felipe abre um vidro de picles. E todos comem. E ficam felizes.