Grande idéia

Créditos

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- Êeeee, meu! Bem vindo de volta!

- Tudo jóia, irmão?

Era volta das férias. Não bem volta das férias, porque as aulas não tinham recomeçado ainda, mas os dois colegas de cinema estavam de volta para trabalhar carregando peso em algum curta que aparecesse.

- Sabe duma coisa? Eu tive uma idéia ótima para um curta.

- Contaí. Conta.

- Começa assim. A câmera mostra um quarto de um homem dormindo e dá um close no relógio que marca quinze para às seis. Ainda não amanheceu. No fundo, se ouve uma torneira pingando.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc... No ritmo da torneira começa a música. A gente usa um rock inglês bem indie ou uma coisa assim, com uma guitarra tocando três notas: tuntãtintãtuntãtintãtuntãtintan....

Daí começa os créditos: "Nira Filmes apresenta".

Corta para uma vista aérea que a gente filma do alto de um prédio de São Paulo amanhecendo. ("Um filme de Bernardo do Carmo") Filma a marginal Tietê vazia.

Não esquece o rock. Põe um piano. A quinta sinfonia do Beethoven no piano. Ou sei lá que sinfonia.

A marginal Tietê vazia, amanhecendo e se enchendo de mais e mais carros, a gente filma tudo acelerado para as pessoas verem o tempo passar. Filma o prédio da Petrobrás na Paulista, no amanhecer, e escreve: "com o Patrocínio da Petrobrás".

O homem se levanta em silêncio. ("com Ricardo Mello") Só se ouve a música. Do outro lado da cidade, uma mulher está escovando os dentes ("e Luiza Gianni")

- Você não está pensando por a Luizinha contracenando com o Bacuri, tá por acaso? Depois de...

- Calma. Naquela luz de amanhecendo filma o carro da mulher andando numa avenida. O carro do homem para no semáforo e aparece bem grande o nome do filme: "Crédito".

- Eles trabalham numa financeira?

- Daí a gente filma umas pessoas num prédio velho lá perto do Anhangabaú, tomando café olhando para a janela. E põe mais letreiro: "fotografia de Paulo Henrique Freitas". Corta e mostra o carro do homem parado em frente uma loja de discos. "Música de..." de quem, do Rogerinho? Enfim, precisa ainda acertar mais umas coisas.

- Tá, depois vemos isso. Mas qual é a idéia do filme? O que vem depois dos créditos?

- Nada, hora. Não disse que era um curta?

- Só os créditos?

- Só.

- E o que acontece no final?

- O homem e a mulher chegam no trabalho. Cada um trabalha em um lugar diferente da cidade e eles não se cruzam.

- Genial!

- E depois vêm os créditos finais, é claro.

Contra regra - parte II

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- Tá, tá... ai, ai, hehe. Bom, continuando, galera: personagem, então, vão ser o casal de classe-média e os encardidos, correto?

- Isso. Agora, vamos já pré-definir algumas coisas do figurino e do cenário.

- O cara vai usar terninho e gravata vermelha e a mulher vai usar um tailleur com óculos escuros, é óbvio. E a pretaiada vai usar a camisa do Timão e da campanha do Alckmin. Hahahahahahaha.

- Hahahahahaha.

- Tá, galera, falando em pretaiada, a gente vai mesmo ter de se meter no meio de uma favela, tipo Capão Redondo? Porque, tipo, não é muito arriscado levar um carro lá dentro?

- Ah, então. Eu até podia emprestar o Civic que eu ganhei do meu pai, mas se roubarem o carro, meu pai vai ter mó trampo pra acionar o seguro e tal. A gente pode ir com o Meriva que a minha avó me deu, mas, tipo, favela é bem arriscado.

- Tá, beleza, a gente vai pra um bairro menos casca-grossa. Mas eu tenho uma exigência!

- Qual?

- A gente tem de filmar uns lugares interessantes, tipo o Copam ou o MASP. É sério, imagens de prédios antigos, jardins, sobradinhos velhos de esquina, calçadas e pessoas deixam a fotografia muito mais interessante, fica muito mais da hora, muito mais cult. Se mostrar só barraco e pobreza, vai ficar parecendo um Central do Brasil!
 

- Tá, mas o que prédios antigos têm a ver com o filme?

- Ah, tipo, é interessante, deixa o filme mais agradável.

- Tá, tá, beleza. Só uma coisa: a gente vai colocar música no filme?

*STROKES*KILLERS*CHICO*CAETANO*FRANZFERDINAND*CORDEL*MOMBOJÓ*

*LOSHERMANOS*ARCTICMONKEYS*RADIOHEAD*SMITHS*IVETESANGALO*

- Ivete? Vá se foder, haha.

- Não, é sério, Ivete é mó cult, ela curte Los Hermanos, haha.

- Ah, é? Então vamos excluir de cara algumas opções: Ivete Sangalo e Los Hermanos.

- Los Hermanos?

- Claro! Hoje é a Ivete que curte, amanhã é o Ronaldinho Gaúcho... tipo, não dá, né?

- Olha, eu acho que ia ser interessante se a gente colocasse Chico e Radiohead.

- Por que esses dois?

- Os dois são indies, a galera universitária curte, são cultos e dão trilhas de filme bem interessante. Tipo, eles tem tudo a ver.

- Interessante. Tá, e depois, se for preciso, a gente enfia um Zeca Baleiro ou um Stereophonics.

- E o nome do filme?

- Assim, galera: eu penso que o nome não deve ser uma coisa comum, ele deve dizer metaforicamente o que vai ser mostrado, deve ser, tipo, inteligente, ambígüo e complexo, para fustigar a hermenêutica da galera, introduzindo uma dialética da sociologia crítica das classes mais abastadas.

- Aham.

- Interessante.

- Eu também acho.

- Olha, eu pensei em um agora, aqui: "Catalisador".

- Quem? A gente vai fazer um filme social ou a sequência de Velozes e Furiosos?

- Não. Olha só: o catalisador é um filtro que fica no escapamento, prendendo os gases ruins, certo? Então, o classe média babaca funciona como um catalisador: ele só liga pro que lhe convém e ignora todo o resto.

- Curti, véio, curti. Mó elaborado, bem interessante.

- Eu também achei, é bem crítico e interessante.

- Beleza, galera. Então, o roteiro inicial tá pronto. Aí a gente vai estar exibindo o projeto amanhã na aula e daí a gente já pode começar a trampar em cima disso.

.

9 meses se passaram desde então.

Entre os filmes produzidos na USP, Catalisador ficou em 4º. O filme vencedor era sobre um poodle que viajava com quatro patricinhas quando se perdeu no meio da viagem e então passou por tudo até chegar em casa.

Nesse filme, tocou Ivete Sangalo.

Contra regra

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No apartamento do Giancarlo:

- Então, galera, a gente tem de caprichar nesse filme, porque se o nosso for o melhor do curso, a gente representa a USP lá no festival de filmes universitários em Teresina.

- Beleza, vamos lá.

- Ó, a gente tem de montar um mini-roteiro, contando a idéia inicial, personagens, e o que for possível. Mas já que a gente tá aqui no apê do Gian mesmo, vamos aproveitar a reunião e tentar ir mais além com as idéias. Beleza, pessoal?

*OK*  *certo* *vamos começar logo* *tá bom*

- Muito bem. Galera, antes de tudo: o filme vai ser sobre o quê?  

- Quatro patricinhas se reúnem na frente do Colégio Porto Seguro pensando em como vão ficar com um moleque loiro e bombado. Ou um filme de um cachorro que se perde do dono em uma viagem e sai correndo atrás dele... HAHAHAHA.

- Símio, se quiser atrapalhar o grupo com babaquice, pode sair.

- Foi mal, Pri, mas cuida aí da TPM. Hehe.

- Então, galera, eu acho que seria interessante a gente fazer um vídeo com crítica social, e tal.

- Mas você não acha que esse negócio de crítica social já tá meio obsoleto, não?

- Mas a galera do circuito alternativo gosta mais de filmes com conteúdo político, tá ligado? Tipo Ilha das Flores. 

- Tô ligado, mas sei lá. Vai ter trocentos filmes falando de pobreza e essas coisas.

- Bom, a gente pode estar criticando a classe-média. Tipo, é quase como crítica social, mas não fica mostrando só favela e essas coisas, é interessante, tá ligado?

- Eu tenho uma sugestão, não sei se vocês vão gostar.

- Fala, Júlia.

- Vocês já viram "Dez", um filme iraniano que se passava dentro do carro?

*já ouvi falar, mas não vi, não* *não* *tsc tsc*

- Eu tentei ver, mas dormi com 23 minutos de filme. Mas é um filme que se passa todo dentro de um carro, muito interessante. É um filme com 5 horas de diálogo e tal.

- Tá, e?

- E daí que a gente podia estar filmando um "Dez" com um casal de classe-média dentro de um carro bom reclamando da empregada ou do cachorro doente enquanto eles passam por um bairro pobre. Daí a gente mostra como é esse negócio, do classe-média só ser fechado no seu mundinho, enquanto o mundo é aquela desgraça.

*interessante* *pô, curti sua idéia* *da hora* *interessante*

- Daí... vocês me ajudam aí, que eu já dei a maior parte da idéia, hehe.

- Eu achei interessante. E me veio uma idéia da hora na cabeça: a gente filma em dois planos, um colorido, mostrando o classe-média e sua vida perfeitinha dentro do carro com ar-condicionado e o outro em sépia, mostrando a podridão da favela da parte de fora.

- Interessante.

- Daí, olha só: quando os caras ricos reclamarem dos assaltos ou folhearem uma Veja e reclamarem do Lula, a gente muda do colorido pro sépia, mostrando que a podridão também está na classe-média.

- Gostei, interessante pacas.

- Então, é isso mesmo, a gente vai fazer um filme que critica a classe-média. Nesse filme, um casal vai estar andando dentro de um carro reclamando e falando merda enquanto mostramos imagens de crianças pobres e casebres, certo?

- Isso mesmo.

- Então, a gente vai ter de arranjar dois com cara de classe-média. Lá na Poli tem aos montes, hahahahahaha.

*hahahahahahaha* *hahahahahahahahahahahaha* *hahahahahahahaha*

- E as criancinhas e os pobres, a gente pega uns pretos, dos bem encardidos, desses com camiseta de político. Quanto mais feio e escroto, melhor.

- Tem de ser preto, desdentado e torcer pro Timão. Hahahahahahahaha.

*hahahahahahahahahaha* *hahahahahahahahahaha*

- Hahahahahaha. Vocês vão pro inferno. Hahahahaha.

- Hahahahahaha.

<continua>