Idas, e uma vinda

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Dois meses depois de decidirem o divórcio, o Carlinhos e a Marina ainda não tinham conseguido vender o apartamento. E embora nominalmente estavam dormindo por um tempo ele na casa de um amigo e ela na casa de uma prima, o ex-casal ainda passava muito tempo junto no apartamento. Isso porque tinha sido um divórcio por pura falta de interesse, não por excesso de briga.

Quando a Marina finalmente achou um apartamento, agora no começo de fevereiro, ela ficou pressionando mais o Carlinhos e a corretora a acharem alguém para comprar o lugar, para que ela tivesse o dinheiro para o novo apartamento dela.

- Carlinhos, ninguém quis comprar? - ela perguntou num final de tarde desses, quando eles estavam num apartamento.

- Até agora ninguém, né?

- E aqueles estudantes que queriam montar uma república?

- Eles queriam alugar, e por pouco dinheiro. Daria trabalho demais.

- E aquela família que a mãe do marido era do Acre?

- Quem? Aquela com dois filhos grandes e um bebê?

- É.

- Não sei bem, não deram retorno.

- E aquele casal... Paulo e Adriana? Aquela mulher que saiu de olhos arregalados só porque viu um casal se divorciando?

- Juliana. E ela disse que eles não vão precisar mais não.

A Marina parou. Estranhou um pouco. "não vão mais precisar"?

- Como você sabe, falou com ela?

- Falei. Ah, e não durmo aqui hoje não, tá, Marina?

- Ah, uhum.

Quinze minutos depois, quando a Marina estava fazendo um chá de hortelã, ela começou a ligar uns pontos e perguntou:

- Carlinhos?

- Sim?

- Quando que você falou com a tal Juliana?

- Éhm...

- Não está namorando a recém-casada de olhos arregalados não, está?

- Ela ainda estava noiva, tá?

- "Estava"?

- Sim, sim estava! Agora não ela está mais. Ah, e, Marina. Pode se mudar que eu te pago... eu fico com este apartamento. - disse com um sorriso.

Volta das férias

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De volta das férias na Rhadetec.

O casalzinho feliz, João e Clarisse foram para o trabalho juntos, pensando em como iriam estar o Roberto e a Janice, ex-namorados que por nada nesse mundo voltavam a namorar.

- Vão voltar, morrendo, morrendo de saudade um do outro. - disse a Clarisse, com um tom maldade, digamos, pontuda, na voz.

- Pois bem. Agora vão perceber... - retrucou o João.

Muito pelo contrário, quando os dois chegaram, com dez minutos de diferença, apenas (os horários na Rhadetec são flexíveis), apenas se cumprimentaram gentilmente.

"Bom dia, tudo bem? Tudo bem? passou bem de final de ano? Ah, sim claro, e você? Passei com minha irmã e a família dela. Nossa, tua irmã, claro! Há quanto tempo que não vejo ela, ela está bem? Sim, muito; perguntou de você e mandou você ir visitar ela uma hora dessas."

João e Clarisse ficaram boquiabertos. Nem mesmo um olhar de "meudeus, morri de saudades de você". Mas como um mau cientista que ignora os dados que contradizem sua teoria - ou melhor, como dois fofoqueiros obstinadamente intrometidos na vida alheia - resolveram tirar outras conclusões.

Cochicharam por uns cinco minutos e depois o João foi ter com o Roberto na salinha do café.

- E então Roberto?

- Tudo jóia João? E aí, passou bem de ano novo?

- Passei, mas tenho certeza que você passou um ano melhor ainda. - respondeu, com um risinho.

- Ah, foi bom até, na casa da minha irmã, com o marido dela e...

- Estou falando da Janice.

- ?

- Ora, a gente viu como vocês se encontraram, não estavam morrendo de saudade, o que quer dizer que vocês se viram...

- A gente se encontrou no supermercado no dia 30, e...

- E... - concluiu o João. E combinaram de se encontrar no dia 2, e no dia 3, e no 4, no 5...

- Mas, mas, claro que nã... Bah, donde raios vocês inventam isso?!

O Roberto saiu direto da sala, emburrado. Pelo menos dessa vez não jogou um grampeador.

Análise cuidadosa

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No bar.

- Alé, eu vou indo.

- Até mais, Flávia.

Alé ficou na mesa do bar e pediu mais uma bebida. Olhou para um homem na outra mesa.

"Olha que lindinho aquele lá. Bem vestido, deve ter dinheiro. Parece simpático. Vejamos, parece que tem um livro no canto da mesa. Uhm, deve ter algum papo. Será que eu vou lá? Ah, que maldição. Deve ter algum defeito, não dou sorte com homem. Parece que tem... não, não tem aliança. Roupa bem lavada demais, será lavanderia? Se for lavanderia, é certo que não é casado. Mas deve ter algum problema, não deve? Louco? Neurótico, chato? E será que é gay? Ah... não, parece que não é. Mas se... será que eu vou lá? (ou será que é?) Ai, tinha que ser, taí: voltou do banheiro uma mulher e sentou na mesa dele. Mas não! Não é namorada: não se beijaram. Pronto, ela está indo embora - tá indo mesmo, porque olhou no relógio e está levando a bolsa. Não se beijaram mesmo, taí, não é namorada. Deixa eu ver, que ele está bebendo? Vodca com morango... Ai, olha aquele braço! Vou lá sim. Vou lá? E se for casado? E se for gay? Deixa eu acenar, me viu, sim, me acenou de volta! Ai ai ai, acho que é gay, sim!"

Alé, ou Alexandre, se levantou e foi para a outra mesa para paquerar.

Idas e vindas VIII

lindos olhos arregalados

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(continuação)

Juliana e Paulo Roberto estavam já saindo quando o Paulo Roberto, que se achava metido a entendido de arquitetura ficou encantado em saber que a dona da casa, Marina, era arquiteta e puxou ela para o canto para conversar. (depois de quinze minutos, a Marina voltou com uma cara enfezada de quem teve que aguentar muito papo furado)

Nesses quinze minutos, Carlinhos e Juliana ficaram sala. A Juliana estava com o olho arregalado desde que soube que o casal dono do apartamento estava se separando. Depois de um silêncio meio chato, ela falou:

- Mas... vocês vão se separar mesmo?

- Sim, oras. - respondeu o Carlinhos.

- Sinto muito.

- Ah, deixa pra lá.

- Mas por quê? Vocês não parecem brigados...

- Não, não. Só... cansamos. Não rolou. Sei lá.

- Mas... - e se calou.

O Paulo Roberto voltou e ele e a Juliana sairam. E ela ainda estava de olho arregalado.

Idas e vindas VII

casal & casal

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- Oi, tudo bem? A Dinorá, a corretora, que mandou a gente aqui. Ela disse que vocês estão disponíveis para mostrar o apartamento...

- Ah, sim, claro. Carlinhos, vieram ver o apartamento!

Carlinhos e Marina estavam vendendo o apartamento, motivo divórcio. Quem veio ver o apartamento foi um casal um pouco mais jovem que eles, visivelmente noivos. O casal divorciando tinha 30, 31 anos. O outro, não menos que 26.

- Oi, eu sou a Juliana e este é meu noivo Paulo Roberto. - e ele deu um beijo nela.

- Tudo bem? - respondeu o Carlinhos. E se apresentou: - eu Carlinhos, ela, Marina.

Apresentaram a sala, bagunçada e espaçosa. Uma janela que precisa trocar, um sofá confortável que poderia até ser vendido com a casa, três quartos, banheiros em bom estado, uma cozinha velha.

Quando estavam indo embora, o Paulo Roberto comentou:

- Ah, é bom o apartamento, mas esse prédio é meio velho, né, Jú?

- E esse centro da cidade. A gente poderia procurar uma casa em um condomínio, amor. Mas digam, vocês parece que gostam daqui, por que vão mudar? Vocês planejam ter filhos e querem mudar para uma casa? Estão construindo uma casa juntos ou uma coisa assim?

Carlinhos e Marina se olharam meio sem graça e ela respondeu:

- Estamos nos separando.

Juliana arregalou os olhos. Os donos da casa ficaram meio constrangidos, mas o Paulo Roberto não notou nada.

Idas e vindas VI

a tragédia que se assolou em um lar desfeito, ou a Ironia

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- Querida, já pus um anúncio no jornal.

- Ótimo, vamos ver se a gente vende logo para cada ir pro seu canto. Aliás, Carlinhos, eu também já falei para a Dinorá - lembra dela, aquela corretora que vendeu o apartamento para a gente já faz, vixe maria, dez anos atrás! Já falei pra ela que a gente está vendendo.

- Aliás, uma coisa, querido.

- Sim?

- Querida é a tua vó. Respeita um divórcio pelo menos, pô!

- Ok, meu bem!

Idas e vindas V

divisão de bens, meu bem - terceira parte

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- Mas sabe, Carlinhos... A gente tem um apartamento de três quartos. Por que é que a gente comprou um apartamento de três quartos para morar só nós dois?

- A gente queria ter filhos...

- É, a gente queria.

- Mas nunca teve.

- Eu não sei se eu...

- Sim, você daria uma boa mãe. Mas é que a gente enrolou um pouco no começo, daí acabamos vendo que não...

- Que não queríamos ter um filho um com o outro?

- É.

- E agora temos um apartamento de três quartos que um dos dois vai morar sozinho e divorciado.

- Não, Marina, eu não fico com esse apartamento.

- Nem eu. Vendemos?

- Vendemos.

- Se quiser sair por agora eu posso ficar tomando conta mais um tempo?

- Sair e ir para onde Carlinhos? Quer que eu vá morar no meu escritório de arquitetura? Que eu ponha... - sei lá! - uma cama com colcha de listrinhas coloridas no meio da sala de entrada e fique dormindo lá?

- Não exagera, Marina. Só achei que arquitetas sabiam exatamente como achar uma casa bem rápido. Mas não estou te expulsando, não pense nisso.

- Sou arquiteta, não corretora de imoveis, oras. Fazemos assim: a gente vende, compra cada um uma casa e pronto, está consumado o divórcio. Mas até lá, deixe estar.

- Continuamos na cama de casados?

- Ah, por que não, Carlinhos? Vai que a gente não muda de idéia na próxima semana?

- Não força, Marina!

- Ha! - ela riu.

Idas e vindas III

divisão de bens, meu bem

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Carlinhos e Marina estão se divorciando resolveram decidir a divisão de bens.

Marina: 

- Os carros a gente não tem problema, né? Eu fico com o Pálio e você com o Celta. Já é o que cada um usa, e o documento já tá no nome meu e teu...

Carlinhos: 

- Tá bom, pra mim tá bom. Os livros... você fica com os de arquitetura e eu com os de administração. O que é um tanto lógico. Mas e os de ficção?

- Convenhamos, a gente não tem quase nenhum. Vamos fazer o seguinte: eu falo os que eu quero e você fala os que você quer. Os que ninguém quiser a gente manda para o sebo.

- Combinado.

(fizeram essa divisão mais tarde. No final, acabaram mandando quase todos para o sebo)

- Os discos fica com todos, Marina. Para mim, basta copiar tudo em MP3.

- Ó-quei. Os móveis?

E ficaram discorrendo cuidadosamente sobre os móveis. Ela, arquiteta tentando manter juntos os móveis do mesmo estilo, ele, administrador, tentando calcular quando valeria cada um.

- Fazemos o seguinte: os móveis ficam na casa. Quem ficar com os móveis fica com a casa.

- Ah, claro. E a casa com quem fica?

Impasse. (continua)

Idas e vindas II

o meio e os fins

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- Divórcio?!

Quem não gostou da história foram os pais do Carlinhos. Ficaram tentando entender inventando brigas que o casal  em divórcio nunca tivera.

- A gente está se separando, de comum acordo. Não é nada de ruim. Estamos bem. 

- Se estão bem, por que estão se separando?

- Por que... já deu o que tinha que dar.

- O que você quer dizer com isso, filho?

A família da Marina foi mais compreensiva, porém.

- Precisamos lidar com papelada agora, Marina.

- Daqui a pouco, pera mais um pouco. Vamos curtir, primeiro.

A decisão foi de fato algo de comum acordo, mais pela falta de vontade de seguir em frente com o casamento do que por um problema qualquer do casamento. Gostavam um do outro, mas não se amavam, só isso.

- Acho que a gente já tava pensando nisso, meio inconsciente, né, Carlinhos?

- É, talvez... - ele disse, sem concordar, mas ela não percebeu.

- Minha mãe só tá reclamando que ela quer netos. Mas vai ser bom um pouco de vida de solteira de novo, não?

- Eu nunca quis ser um desses divorciados. Meia-idade, emprego estável, filho adolescente, um carro médio e procurando namorada.

A Marina riu e disse:

- A situação é melhor para mim, meu caro. Divorciadas são uma espécie muito melhor.

- Pois é. 

- Pelo menos não vamos ter um filho chato de pais separados, né? - consolou-se a Marina.

"Filhos", pensou o Carlinhos. "Por que é que toda hora esse assunto volta?" 

Idas e vindas I

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- Não, Carlinhos, não fala assim comigo! Não fala assim comigo!

Brigaram. Marina e Carlinhos andavam brigando um pouco naqueles últimos dois (dois, não, três) naqueles últimos quatro meses. Tinham se conhecido na faculdade, ele no último ano de administração, ela no penúltimo de arquitetura. Se casaram e ficaram casados por dez anos. Se davam bem e não brigaram durante dez anos. Mas agora brigavam. Mais ainda, chegou uma hora que cansaram de brigar.

- Pára tudo! - o Carlinhos gritou. Depois repetiu, em tom mais baixo:- pára tudo.

- Quié?!

- Pára tudo - repetiu com o mesmo tom mais calmo. - Cansei, Marina. Não dá mais para brigar.

Ele sentou na poltrona. Ela fez que ia responder com um desaforo, mas
não pensou em nada.

- Calma, Marina. Calma e senta.

Conversaram. Não que nunca tivessem feito isso antes, mas nunca com tanto fastio.

- A gente sempre se entendeu bem, não foi? - perguntou o Carlinhos.

- A gente sempre funcionou muito bem. Se entender bem.. certeza?

- Sempre fiquei com a sensação que você não pegava direito as coisas.

- Jura?

- Por exemplo, isso... - retrucou contrariado o Carlinhos.

- Pois é, você tem razão.

- Sempre me achei tão... qual é o contrário de dissimulado?

Nunca tiveram filhos. Não que não quisessem, mas ficaram enrolando. 

- Mas sei lá. Carlinhos, diga uma coisa. Honestamente... A gente se amava?

- Quando eu te conheci eu me apaixonei. Quando a gente namorava, eu te amava muito, loucamente.

- Mas...?

- Honestamente?

- Claro.

- Terminou um pouco antes da gente marcar o casamento.

A Marina fez uma cara de "que merda". E falou por si:

- Eu sempre gostei de você, Carlinhos. Sempre. Mas sei lá... Não foi tão forte.

- Ah, deixa para lá. Foram dez bons anos.

- Foram.

- Espera, "foram"?

- Foi você que disse.

- Deixa para lá. 

Foram dez bons anos. Em seguida eles deixaram para lá: deram entrada num divórcio.

Nhec

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A cadeira rangeu.

Normal, ela fica no nhec-nhec todo dia mesmo, não tem problema.

Marina se levantou, olhou para a cadeira, deu uma mexida de um lado para o outro e sentou de novo. A cadeira rangeu.

É normal, ela range todo dia, mesmo. Mas Marina não sabia disso, era o primeiro dia na empresa e a cadeira estava rangendo. Como ela ía saber que a cadeira rangia?

Ela se levantou, olhou de novo, sentou e a cadeira rangeu mais uma vez.

O colega do lado olhou e falou:

- Ah, não liga... A cadeira fica nesse nhec-nhec, mesmo.

Marina rangeu de novo a cadeira. Nhec. Primeiro dia de trabalho, cadeira. Será que isso é um bom ou um mau sinal?

Provavelmente é nada. Nhec. 

Poliglota

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Joana estava dando aula de francês na escola de línguas do centro, com seu ar contente e espontâneo de sempre.

Enquanto os alunos faziam um exercício, bateram na porta.

- Scusa me! Avete un dizionario d'italiano?

- Pardon! J'ai seulemente dictionnaire de français!!

Quando a professora de italiano saiu da sala, Joana ficou pensando "como se não bastasse a Torre de Babel em casa, agora no trabalho também?!"

Escola de línguas

Espanhol & Francês

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No apartamento 1215 moram duas professoras de línguas.

Joana Freitas Pereira nasceu em Cuiabá em 1976, aprendeu francês, foi para São Paulo e virou professora. Marina Gasperi nasceu em Buenos Aires em 1978, veio para o Brasil com um namorado, desisitiu do namorado e virou professora de espanhol.

Em 1999, resolveram dividir um apartamento no Itapetininga, depois do divórcio atrapalhado da Joana. Depois disso, nenhuma das duas se casou e por isso terminaram ficando juntas desde então.

Descontando alguns aborrecimentos, uma briga mais feia e um problema insolúvel com parte do encanamento, elas tem vivido bem. O apartamento é uma babel e as conversas transcorrem num misto de portunhol com francês e, eventualmente, inglês. Mas elas se entendem.

Uns dias ou outros recebem algum amigo. Um final de tarde, um dia desses estavam ouvindo Jacques Brel e jantando:

- Pués, o bom de ser professora de francês é que a gente pode comer queijo, beber bastante vinho, ouvir música brega e ainda falar: "é para a aula!".

Corrida de Brindes

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A Rhadetec organizou a visita de seus principais funcionários à uma feira de tecnologia que juntava as invenções mais inuteis ligadas a uma tomada com a preservação do meio ambiente.

Já no evento, Clarisse foi andando com Janice pro lado da tecnologia da cozinha e Roberto e João foram para os equipamentos para carros.

Porém, o que Clarisse não imaginava era que Janice fosse apaixonada por brindes de eventos!

- Vem, Clarisse, vem nesse estande! - dizia Janice compulsivamente
- Ai, Nice, aí só tem  fogão com cara de velho!
- E daí? Tão dando isqueiros lindos!
- E desde quando você fuma?
- Não fumo, mas tem o logo da empresa que fabrica os fogões!    

Já Clarisse, não tinha jeito nenhum pra ganhar brindes.

- Do que será essa empresa, hein, Clá? - dizia, "distraidamente" Janice.
- De geladeiras, ué!
E Janice respondia com um olhar contrariado e saia apressada do estande.

Depois da 8ª tentativa frustrada, Janice desabafa com Clarisse:
- Ah, Clá, me desculpa, mas eu vim pra ganhar brindes, você tá me empacando a vida!

E sairam pra procurar os rapazes, pra Clarisse ter, pelo menos, a companhia de João. Porém, as duas encontraram um João irritadíssimo:
- Roberto, você não tem mais espaço pra carregar tanta amostra de graxa pra pneus! E você nem tem o super polidor automático!
- João, isso é um evento com brindes! Quanto mais brindes, mais amostras de que você aproveitou o evento!

Então Clarisse e João tiveram a brilhante idéia (e um imenso alívio) de fazer os dois compulsivos andarem atrás de seus brindes pelo evento.

Mas, ao contrário do que deveria acontecer, o ex-casal adorou passar o evento juntos.

- Sabe, Janice, isso vai parecer cantada barata, mas não é!  Você é a melhor companheira pra brindes que eu conheço! Andar com o João tava um saco!

- Ah, eu sei, Roberto...A Clarisse tava igual! Mas o pior vai ser a cara dos dois na segunda...Ou vão caçoar da nossa mania, ou de termos andado o evento inteiro juntos atrás de brindes!

Eles se olharam. Pensaram. E decidiram continuar alimentando a compulsão por brindes.

De qualquer jeito os outros dois iam continuar tentando juntá-los, mesmo!

Grampeador

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- Roberto, mas você não vê que é destino?

Foi o que o João disse para o Roberto sobre o Roberto e a Janice. O Roberto não respondeu.

Jogou um grampeador.

Gente inocente II

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Esse semestre Magali irá frequentar a escolinha durante um período para ir se familiarizando para entrar na escola no próximo ano.

A escola fica numa casa adaptada e tem poucas turmas de crianças entre 3 e 5 anos.  Há somente professoras. Todas da mesma família entre irmãs, primas e tias.

Magali está tendo aula com Suzana, sobrinha da dona da escola, casada há um ano e meio e a dois meses do primeiro filho.

Certo dia, durante a aula de desenho, Magali virou-se para a coleguinha, preocupada:

- Coitada dessa professora...Deve estar doente com esse barrigão!

A colega ficou espantada, virou-se para Magali com os olhos esbugalhados e alertou a colega:

- Não fala assim! Senão você morre!! 

Ai, saco.

Roberto e Janice: as férias

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Roberto e Janice foram namorados por três meses em 1997. Terminaram o namoro, depois terminaram o colegial e não se falaram mais até se encontrarem de novo, trabalhando na mesma empresa, há quase sete meses.

Para o azar deles, na mesma empresa trabalha com eles o casal feliz, Clarisse e João. João, engenheiro civil, nascido em Bragança Paulista. Clarisse nasceu em Campinas mesmo, e se formou em administração. Se conheceram faz três anos, namoram faz dois. Faz dois anos e meio que vão toda a semana ver um filme lançado, de preferência uma comédia romântica. Desde o começo, trocaram anéis de namoro. A cada aniversário de namoro, trocam rosas. 

Para o azar maior ainda de Janice e Roberto, João e Clarisse viraram noivos tem seis meses. Enquanto não estão planejando o casamento, com flores e vestido de noiva, tomaram como sua cruzada pessoal unir o outro casal, arredio.

- Mas, Janice, você se dá tão bem com ele... - diz Clarisse.

- Mas Roberto, você se dá tão bem com ela... - diz João.

- Vai plantar... - responde o Roberto 

- ...batata - responde a Janice.

- Tá vendo? Vocês até já completam as frases um do outro!

- Ai, saco.

Os ataques começaram a piorar faz dois meses. Orquestração de encontros "casuais". Mensagens de Roberto para a Janice, que o Roberto não escreveu. Indiretas cada vez mais freqüentes. Convites para irem todos os quatro para o cinema.

- Sabe de uma coisa? - responde o Roberto. - Vocês estão vendo muita comédia romântica americana. Fritou a cabeça.

- Ou é alguma reação alérgica bem estranha a esse anel... - retruca a Janice. E a parte, para o Roberto: - anel horrível, aliás, convenhamos.

- É brega. - comentou o Roberto.

- Tá vendo? Vocês já até cochicham juntos!

- Ai, saco. 

 

O que é isso?

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Sexta-feira, que beleza! Família Ramos unida, depois de uma típica semana corrida. A empregada não deixa o jantar pronto e Fernanda não cozinha, então, é dia de comer alguma coisa diferente. E, nesse dia, Aloísio leva uma pizza pronta para casa. Quentinha, grande, massa grossa, com a fumacinha saindo por dentro da embalagem...

ALOÍSIO- Quem pediu pizza?

BRUNO- Oba!

FERNANDA- Dieta interrompida, hehe.

Aloísio abre a embalagem, que exala um cheiro ótimo de pizza de mussarella, com tomates vivos de rubor sobre queijo suculento e borbulhante, orégano suave para salpicar e... o que é isso?

No meio da pizza, um pedaço pequeno e bege de... algo indefinido. Muito indefinido. Não tinha cara de nada e uma coloração meio suja. Textura brilhante e gordurosa, o que indicava consistência mole. Pedaço amorfo, que intrigou toda a família.

FERNANDA (com cara extrema de nojo) - O que é isso?  

VERÔNICA- Aaaargh!

ALOÍSIO- Peraí, pessoal. Não deve ser nada de mais.

BRUNO- Será que é um pedaço de um bicho morto?

VERÔNICA- Cala a boca, Bruno!

FERNANDA- Amor, vamos devolver a pizza.

ALOÍSIO- E se não for nada de mais?

FERNANDA- E se for?

VERÔNICA- Alguém quer arriscar?

BRUNO- Vai lá, pai. Hehe.

ALOÍSIO- Não deve ser nada mesmo. Deixa eu tirar.

FERNANDA- Não tira, não!

ALOÍSIO- Amor, deve ser só um pedaço de comida.

BRUNO- Na boa, pai, não parece comida, não.

VERÔNICA- É, pai, é mole e feio, pode ser um, argh!, pedaço de inseto morto.

BRUNO- Não fala besteira!

FERNANDA- Mas a sua irmã pode estar certa. Não vamos brincar com a sorte, né?

ALOÍSIO- Bom, pior que você não está errada. Não tem cara de nada, não tem consistência de nada.

BRUNO- Não é só jogar no lixo?

FERNANDA- Não. Pode contaminar toda a pizza.

VERÔNICA- Acho que é um pedaço de gordura. Urgh!

BRUNO- Acho que é um rato morto, hehe.

FERNANDA- Não importa o que seja. O que importa é que você tem de devolver a pizza, Aloísio.

ALOÍSIO- Ok, ok.

Aloísio foi. Pegou o carro, 40 minutos de congestionamento e um pouco de estresse. Mais 15 minutos para encontrar um lugar para estacionar. Ao chegar, levou diretamente à cozinha. Explicou a situação e mostrou a pizza. O cozinheiro se mostrou surpreso:

- Provavelmente, deve ter espirrado na pizza. Mas vocês não conhecem isso aqui? O nome disso aqui é champignon.

- Ah...

Banho

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Era um dia muito quente...
D. Rosana abriu as janelas, ligou os ventiladores na sala.
Nada fazia aquele calor passar.

Magali tinha alergia ao calor. Quando esse tempo chegava, ela passava mal e ficava com a pele cheia de bolotinhas, como se tivesse sido picada por um formigueiro inteiro. Assim, D. Rosana redobrava a atenção com a menina.

Embora possa parecer que Magali não gostasse de calor, ela era uma criança muito contente e não ligava para o tempo. Até achava bom, porque no verão ela acompanhava os primos no clube.

Mas era dia de semana e tudo estava muito quente e Magali no pé da tia:
- Tiiiiiia! Que horas o Thi vai chegar da escola? Ele vai pro clube? Eu vou poder ir junto??
- Calma, querida...Seu primo já vem...

Toca o telefone. Thiago na linha:
- Mãe? Tô na casa do Rodrigo, aquele meu amigo da escola. Ele chamou todo mundo pra uma festa na piscina. Volto bem tarde, beleza?

E Magali não parava de reclamar que queria ir pra piscina.

Foi então que Dona Rosana teve uma brilhante idéia.
Foi até o quarto de Thiago, subiu e procurou uma antiga piscina inflável onde os seus dois filhos brincavam quando eram da idade da Magali.
Era uma piscina pequena, cabia no box do banheiro, redonda e cheia de bichinhos contentes.

Magali adorou a brincadeira! A tia encheu a piscina com o pouco fôlego que tinha, colocou embaixo do chuveiro e encheu de água.
A menina entrou na piscina e ficou brincando alegre com a sua Barbie nadadora.

E D. Rosana foi cuidar dos afazeres da casa na maior paz.

Cerca de uma hora depois toca a campainha. É vizinha de baixo.

- Jurema, querida! Como vai você? Preciso pegar com você aquela receita.

- Vou bem,  Rosana. Mas o que me traz aqui é outra coisa.

- Fala, querida! - disse Dona Rosana com a simpatia que lhe era peculiar.

- Meu banheiro, ao que me consta, não tinha uma lagoa antes!

D. Rosana corre até o banheiro e encontra Magali, contente na sua piscina com o chuveiro aberto:

- Tiiiia! Você viu? Eu fiz uma cachoeira!! E ela tem água quente!!

E o banheiro de D. Rosana era cenário de uma enchente.

Reencontro (II)

Uma comédia romântica com happy end

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12 de junho foi um dia de suplício para Roberto e Janice.

Já fazia cinco meses desde que Roberto começar a trabalhar na empresa em que Janice. Na segunda semana, os colegas de trabalho descobriram que eles se conheciam. Na terceira, que tinham estudado juntos no colegial. Na quarta, começaram a suspeitar. Na quinta, confirmaram o fato que Roberto e Janice tinham sido namorados durante três meses. Na sexta semana, já estavam tentando juntar o casalzinho de novo.

Os dois juntos, segundo os colegas, formavam o casal perfeito. Se entendiam muito bem, combinavam em tudo, não estavam namorando. Gostavam das mesmas coisas, conheciam os mesmos lugares e moravam até na mesma rua! (ele no número 100 e ela pelo número 2000, mas ainda assim, a mesma rua). Ouviam as mesmas músicas, leram os mesmos livros e - veja só! - já tinham namorado na adolescência. Justamente por causa de tudo isso, não queriam ficar juntos. Já tentaram uma vez e viram que eles dois juntos eram extremamente aborrecidos.

O casal feliz do 1206, Clarisse e João, não se dá por vencido e quer por que quer juntar os dois. Hoje, fizeram de tudo, mas não deu em nada. Compraram cada um um presente para o Roberto e a Janice trocaram, conseguiram deixar os dois sozinhos no almoço, ficaram puxando o assunto a cada meia-hora com os dois. E além disso, exalando romantismo de coraçõezinhos de Valentine's day por todos os poros.

Agora Roberto e Janice concordam em mais uma coisa: maldita hora que resolveram importar comédia romântica pro Brasil.