Coincidências

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Alexia e Flávia estão em mais um sábado a noite compartilhando a solidão de uma azarada e a de uma divorciada.
O programa dessa noite é assistir uma peça de teatro bem engraçada que não as faça pensar em como são rejeitadas.

Escolheram Terça Insana. Todo mundo do trabalho da Alexia foi assistir e voltaram elogiando muito. Elas conseguiram o que queriam. Riram durante uma hora e meia com uma freira, uma ex perseguida pela ditadura, um ex homossexual, uma letra I de bico com o mundo do alfabeto e um fórum das putas.

No final, hora de voltarem para casa, Flávia não sabia como fazer, qual rua deveria tomar.

- Pega a 11 de agosto, Flá.  - Alexia disse quando chegaram a uma bifurcação do centro.
- Eu sei que hoje é dia 11 de agosto, mas e daí? - respondeu Flávia, distraída e com o rádio ligado.
- Hahahahahahahahahahaha! Eu tô falando de pegar a rua! - respondeu Alexia muito contente.
- Ah, tá, entendi!

Quando, depois de quase 30 minutos, conseguiram chegar ao Itapetininga (que ficava há 5 minutos do teatro), no elevador, Alexia começa a ter um ataque de riso incontrolável.

- Você tá bem, amiga? - perguntou Flávia bastante assustada
- Ah, Flá, você não se tocou? A gente passou na  11 de Agosto, no dia 11 de agosto, às 11 horas da noite!

Flávia começou a rir também. 

Isolamento acústico

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A Flávia, de 1,49 de altura, anda o dia inteiro com saltos altos de pelo menos 12 centímetros, para o desespero da Regina, que mora no apartamento de baixo.

Na sexta, a Regina decidiu dar um fim nisso. Subiu ao andar seguinte, transportando com um pouco de esforço um trambolho pela escada. Bateu na porta do 2117.

- Regina? Mas que surpresa!

- Oi Flávia, tudo bem? Há quanto tempo.

- Não quer entrar?

- Não, obrigada. Só vim te trazer uma coisa.

- Ah, um presente? Inesperado. Então, entra por favor. Quem um café, uma Coca?

A Regina entrou e entregou o presente para a Flávia. Era um tapete, não muito caro, mas bom. Um desses bem grossos, de cinco centímetros de altura de pelo, daqueles que se um hamster cair lá dentro não sai tão cedo.

A Flávia adorou, achou o máximo e estendeu na sala. Agradeceu muito. Só no dia seguinte, quando estava calçando os saltos altos de sair, que se deu conta porque é que tinha ganhado o tapete, no final das contas. Mas não ficou brava, e sim achou graça. E deixou o tapete estendido pela sala.

A Regina, no dia  seguinte, ficou saboreando o silêncio da manhã, sem o toc-toc-toc do salto da Flávia. Não é que deu certo?

Dez dicas para sobreviver ao dia dos namorados

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O dia doze de junho para Alexia é, definitivamente, a coisa mais frustrante.
Esse ano, não foi diferente.

Ela acordou cedo para ir para o trabalho. Tomou banho, ligou o rádio e foi preparar o café da manhã. O locutor, que normalmente só faz piadas, estava extremamente romântico fazendo uma linda declaração de amor para a namorada e a pedindo em casamento ao vivo. Ela desligou o rádio. (1)

Pegou seu carro e foi pro trabalho. Pegou um congestionamento gigantesco. Passando pela ponte, descobriu o motivo. Uma declaração de amor em um bungee jump.
Alexia pensou "Oras...depois morre e o amor fica onde? Povo doido!" com uma bela pontada de inveja e tomou um atalho mais longo, mas menos movimentado. (2)

No trabalho, a colega dela, a mais chata e que passava todos os dias falando para Alexia como seria o seu casamento, recebeu uma serenata daquelas com duas mulheres vestidas como nos anos 20 e um homem tocando violão.
E Alexia pensando o que aquela nariguda, magrela e fútil tinha de melhor que ela...Pelo menos ela não precisou ouvir que os bonequinhos do bolo seriam customizados.

No almoço, todos os colegas de Alexia foram comer com seus respectivos pares. Exceto aquele nerd do departamento de informática, que não lava os cabelos nem o rosto e tem um aspecto bastante seboso. Ela almoçou com ele. (3)
Se não bastasse isso, o restaurante estava lotado de casais trocando presentes, beijos e carinhos.
Alexia fingiu que seu estômago não estava muito bem e voltou mais cedo pro Itapetininga. (4)

Entrou, tirou os sapatos, ligou a TV. Todos os programas da tarde falavam sobre aquele casalzinho novo, rico e famoso. Desligou a TV. (5)

Aquilo já se tornara perseguição!

Se arrumou, colocou suas sandálias mais bonitas. (6)
O vestido com a maior fenda e decote que encontrou. (7)
Se maquiou, colocou aquele batom vermelho e foi para a aula de Enologia. (8)

Depois de passar por pelo menos 30 carros lentos onde os namorados andavam abraçados, chegou à escola.
Uma tabuleta na porta "Devido ao dia dos namorados, não teremos aula hoje. Até a próxima aula e feliz dia dos namorados" Com direito a coraçãozinho vermelho e tudo

O que fazer numa terça a noite, sozinha? Pegou o jornal...Tinha um filme ótimo passando, mas de jeito nenhum, ela não ia pro cinema no dia dos namorados! (9)

Voltou pra casa. Interfone tocando. Era Flávia.

- Alê? Não tinha aula hoje?
- Tinha, mas você sabe, hoje é o dia maldito...
- Sei...Quase liguei pro meu ex-marido hoje...Se não fosse o Joãozinho cair e começar a chorar...
- Chuta que é macumba, amiga! Como tá o João? Melhorou do tombo?
- Já sim...Tá dormindo. Ai, amiga, tô quase ligando pro falecido! Esse dia dos namorados tá me matando!
- Calma, amiga! Quer que eu suba? Tem um resto de champanhe do Juan aqui e alguns DVDs...
- Ai, Alê! Você faria isso por mim? Vem sim!
- Faria por nós duas! Já vou! (10)

Alexia separou os DVDs...
Mas que droga! Só tinha coisa melosa: Um Lugar Chamado Notting Hill, Uma Linda Mulher, Doce Novembro, Um Amor Para Recordar, Diário de Uma Paixão, E O Vento Levou...

Toca a campainha. Flávia corre com suas pantufas de salto alto.

- Oie! Ué, cadê seus DVDs?
- Ah, não achei nenhum apropriado pra hoje e pensei que você tivesse alguma coisa...
- Ai, não sei...Quem tem mais DVD é o João...Sabe como é, não tinha muito tempo de assistir quando o Falecido morava aqui, mas deve ter alguma coisa sim.

E elas terminaram a noite tomando champanhe com pipoca e assistindo O Rei Leão e chorando quando tocava Nesta Noite O Amor Chegou...

Pior para Regina Almeida, que além de ficar com Hakuna Matata o dia inteiro na cabeça ainda foi obrigada a ouvir o salto alto de Alexia também.

Salto alto

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Flávia é bonita, nada de excepcional, tem cabelos loiros indiscutivelmente lisos, silicone e um rosto bonito com muita maquiagem. Desde criança sempre foi muito vaidosa, preocupadíssima com a aparência e baixinha.

Na escolinha era sempre a primeira da fila por ordem de tamanho, nos passeios ia de mãos dadas com a professora para não se perder. E até a faculdade, sempre sentou-se nas primeiras fileiras para enxergar a frente da sala.

Formou-se em jornalismo e hoje é assessora de imprensa de um conhecido escritório de advogados.
É uma mulher bem sucedida, anda de Vectra preto, mora num apartamento amplo, veste-se bem, viaja todo ano e é mãe de um filho bochechudo e sardento, fruto do casamento recém acabado.

É bonita, loira, educada, tem dinheiro, talento reconhecido por seus chefes, um filho educado, uma relação amistosa com o ex-marido mas isso não é suficiente. Todo dia pela manhã, quando se olha no espelho, chora. Chora pela falta de altura.

Sua mãe dizia que ela cabia de corpo inteiro numa foto 3 x 4.
Parou de crescer aos 17 anos e desde então tenta superar seus míseros 1,49m com enormes sapatos de salto alto.
Seja a hora que for, esteja ela de pijama ou vestida para uma festa, Flávia sempre está sobre pelo menos 12 centímetros de sapato.

Quem sofre com isso é a Regina (Almeida, a menina cool), que mora no apartamento logo abaixo do de Flávia.
O martírio de Regina começa às 5h50 da manhã quando Flávia coloca suas pantufas com salto e vai até o banheiro.
Regina consegue acompanhar todos os movimentos da vizinha só pelo tac tac das ferraduras.
E tudo só termina perto da meia-noite, quando Flávia sobe na cama e joga os sapatos no chão.