Casualidades - um gato

ou "Vida calma"

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Regina de Almeida estava subindo a rua, uma rua calma. Na calçada tinha um gato peludo e ela se aproximou. Mas, ao contrário da maioria dos gatos, esse não saiu correndo quando ela chegou perto. Ela parou e ficou olhando. O gato deitou na sarjeta, se esfregou na rua e virou de costas. A Regina ficou uns dois minutos, olhando para o gato, até que ela voltou a andar e foi embora.

Regina leva uma vida feliz, é uma vida calma, pacata. Pacata demais. 

Manias II

Regina Almeida

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Regina Almeida tem um problema sério com iogurte. Não passa sem. Todo dia, pelas cinco e meia ou seis da tarde (alguns dias, é quando ela chega em casa. Outros dias é quando ela pára o que está fazendo), ela pega um iogurte, puro, da geladeira e mistura com alguma coisa, geralmente uma geléia ou então mel. Em seguida, deita no sofá, come o iogurte e fica vendo a cidade pela janela.

Toda manhã, por outro lado, depois do café da manhã, recolhe as migalhas de pão e põe na floreira para os passarinhos virem.

Mas a pior mania é o que ela faz quando ela tem que começar um trabalho, tanto os trabalhos da faculdade de física quanto as traduções que ela faz para ganhar algum. Em primeiro lugar, acomoda o laptop na mesinha do lado do sofá e liga. Logo depois, pega ou o texto a ser traduzido ou o que for que ela tiver que ler, deita no sofá com um copo d'água e lê, ouvindo uma música qualquer. Assim que termina o texto, engole o copo d'água de um só gole, pára a música, fecha o laptop e fica doze minutos seguidos, parada, calada, olhando para o copo vazio e pensando. Só então abre o computador de novo e começa a digitar alguma coisa.

Essas rotinas são seguidas sempre, mesmo quando ela tem visitas. Manias são manias. Azar o da visita.

Isolamento acústico

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A Flávia, de 1,49 de altura, anda o dia inteiro com saltos altos de pelo menos 12 centímetros, para o desespero da Regina, que mora no apartamento de baixo.

Na sexta, a Regina decidiu dar um fim nisso. Subiu ao andar seguinte, transportando com um pouco de esforço um trambolho pela escada. Bateu na porta do 2117.

- Regina? Mas que surpresa!

- Oi Flávia, tudo bem? Há quanto tempo.

- Não quer entrar?

- Não, obrigada. Só vim te trazer uma coisa.

- Ah, um presente? Inesperado. Então, entra por favor. Quem um café, uma Coca?

A Regina entrou e entregou o presente para a Flávia. Era um tapete, não muito caro, mas bom. Um desses bem grossos, de cinco centímetros de altura de pelo, daqueles que se um hamster cair lá dentro não sai tão cedo.

A Flávia adorou, achou o máximo e estendeu na sala. Agradeceu muito. Só no dia seguinte, quando estava calçando os saltos altos de sair, que se deu conta porque é que tinha ganhado o tapete, no final das contas. Mas não ficou brava, e sim achou graça. E deixou o tapete estendido pela sala.

A Regina, no dia  seguinte, ficou saboreando o silêncio da manhã, sem o toc-toc-toc do salto da Flávia. Não é que deu certo?

Fim de tarde

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Fim de tarde de uma segunda-feira.

A semana começou de novo. Tem algumas traduções (técnicas) na mesa para serem feitas. Está tocando um disco velho da Elis. Regina, a dona da casa, põe o potinho sujo de iogurte na mesa e vai para a janela tomar vento.

E não acontece nada. (não sei o que você esperava) Não acontece absolutamente nada. Escurece, ela fecha a janela, lê um pouco, o tempo passa mais um pouco e ela vai dormir.

Cenas de trânsito

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Regina não gosta de dirigir, muito menos no trânsito caótico dessa cidade, mas hoje ela saiu atrasada e teve que ir de carro. 

Um folgado, desses com um carro enorme, de vidro escuro, estacionou na calçada pra falar ao telefone e impediu que ela saísse da garagem do prédio:

- Senhor, senhor! Vamos! Eu preciso sair! - Com a cabeça pra fora do vidro.

- Relaxa e goza, minha filha! - Cara mais cínica do mundo, tipinho quarentão playboy.

Regina, logo ela, que nem é de se stressar, pensou consigo mesma: "Paquiderme. Paquiderme!" e descansou a cabeça na buzina nada simpática do Peugeot.

Foram longos 3 minutos para lavar a alma e relaxar...

 

Regina e Regina

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A Regina do 2017, Regina de Almeida, é uma pessoa agradável. A Regina do 2012, Regina Campos, nem tanto.

Se encontram de vez em quando no corredor do prédio. A do 2017 olha para a outra sem interesse e a do 2012 com um pouco de raiva. Não se sabe bem o que aconteceu entre as duas quando se conheceram, mas parece que deu algo errado. Elas não se entendem.

Regina Campos costuma evitar pegar o elevador com Regina de Almeida - e conseguiu por um bom tempo. Aquele dia as duas estavam com pressa e acabaram pegando um elevador junto. A Regina do 2017 tentou falar um:

- Bom dia!

Meu Deus, para quê? Dois constrangedores minutos se seguiram.

Regina

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Os pais de Regina, ambos professores universitários, hoje moram em Recife. Em 2004, logo após entrar na universidade (física na USP), seus pais não conseguiram convencê-la a mudar para Recife, mesmo com argumentos sobre praia, calor, praia e água de coco.

Todos acham que Regina é uma pessoa feliz. Até ela mesma. Afinal, agora ela tem um apartamento de três quartos e 180m² só pra ela, um bom trabalho e liberdade... Além de um peugeot 205, em quase bom estado.

Do gigantesco apartamento, Regina habita basicamente a sala, a cozinha e o banheiro do corredor.

Ela gosta de dormir no sofá vermelho, o mesmo onde limpa os dedos sujos de iogurte, gosta também de deixar migalhas de pão na janela para atrair os pombos.

A melhor parte da semana é a tarde da quinta-feira, quando ela pode ficar em casa, abrir todas as portas e janelas e deixar uma corrente de ar bem gelado passar pela sala toda e então, deitar no tapete para ler uma revista qualquer.

Regina gosta de Elis Regina e Regina Spektor e jura que isso não tem nenhuma relação com seu nome.

Será mesmo Regina uma pessoa feliz?