Calhamb... voiture.

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O Juvêncio queria comprar um carro. Suas caminhadas até os Jardins para a compra de vinhos e queijos já estavam começando a render uma tendinite. Além disso, ele não queria correr o risco de ter de dividir um métro ou um train avec les singes du tiers-monde.

É óbvio que Juvêncio nunca compraria um carro brasileiro. Gol? Chevrolet Corsa? Clio nacional? Jamais! A solução foi importar um Talbot Samba 1985 de um amigo (a Talbot foi uma das marcas mais tradicionais de carros na França e que, obviamente, nunca veio para o Brasil). O carro em si não valia mais do que o equivalente a 8.000 reais, mas os custos de importação elevaram o preço do carro para 61.900 reais. Tudo bem para Juvêncio, afinal ele já possuía um punhado de dívidas, logo, não havia problema em contrair mais uma. O maior problema era o nome do carro, Samba. Tantos nomes bons disponíveis e a Talbot escolhe justo Samba? Assim não dá!

O carro chegou ao Brasil depois de 3 meses. Juvêncio teve de ir à Santos de ônibus para buscar seu carrinho. Mas apesar de ter de dividir o veículo com farofeiros e êtres limités en géneral, Juvêncio não estava de mau-humor: era a última vez em que ele teria de andar de autobus.

Depois de retirar o carro, um punhado de aço (re)pintado de verde e que mais parecia ser movido a pilhas AA, Juvêncio foi homologar o carro em Santos mesmo. Ah, aquela foutu bureaucratie! Juvêncio precisou ficar uma semana na cidade, até que o DETRAN reconhecesse o Talbot Samba como um carro passível de circular pelas ruas nacionais. Parfait! Agora era só voltar para São Paulo. 

Infelizmente, o carro, que não era nenhuma merveille, acabou quebrando enquanto passava pela rodovia Imigrantes, com apenas 31km de uso. Assim, Juvêncio teve de esperar que alguma boa alma ligasse para um guincho. Celular? Ele não tinha. Fazer sinal e pedir ajuda para alguém? Jamais!

Depois de 7 horas de espera, um guincho que passava pela rodovia acabou encontrando o pobre Talbot. No conserto, o veredito: na verdade, o Talbot que Juvêncio havia comprado era um punhado de peças quebradas ambulantes. Engrenagens do câmbio, alternador, catalisador, virabrequim, suspensão, amortecedor, rebimboca da parafuseta, tudo isso precisava ser trocado.

- Merde! Combien coûte le consertô et les peças?

- Como?

- La monnaie! Perguntei quanto pago, singe!

- Olha, dotô, o maior problema é que seu carro não tem peças de reposição no Brasil.

- Merde! Então?

- Então a gente vai ter de dar um jeitinho...

O conserto em si ficou por volta de uns 20.000 reais, no total, a serem parcelados em trocentas vezes, mas isso não é o pior. O problema é que o "jeitinho" significou trocar toda a estrutura do Talbot pela estrutura de um Chevette! Exatamente! Juvêncio estava andando em um Chevette travestido de Talbot.

O carro, pelo menos, está andando, e Juvêncio é um feliz proprietário de um Samba com coeur de um Chevette, um voiture legitimamente francês.

Manias I

Juvêncio

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É um cara estranho, o Jean-Jacq... Juvêncio. Fora de casa, é uma figura, no mínimo, excêntrica. Fora de casa. Porque, entre quatro paredes, ele é uma pessoa mais estranha ainda.

Além de gastar dinheiro com fanfarronices gastronômicas e culturais, Juvêncio tem outras manias que garantiriam uma vaga em algum hospital psiquiátrico, seja no Brasil ou na França. Uma delas é a da torrada com caviar.

Como funciona?

Em algum dia que Juvêncio estiver com o diabo no corpo, ele irá sentir tédio, muito tédio. Então, ele dará um pulo em algum empório nos Jardins para fazer umas compras. Mais precisamente, para comprar pacotes com torradas francesas, as famosas croûtons, e potes de caviar vermelho (tem de ser vermelho). Geralmente, Juvêncio não tem dinheiro, então ele utilizará cheque especial ou pagará com cartão de crédito (só para efeito de informação: sua dívida já ultrapassa os 70.000 reais). Vez por outra, compra alguma garrafa de vinho. Brasileiro.

Juvêncio volta pra casa. Lá, cuidadosamente, começa a preparar o petisco, passando aquela pasta de ovas de peixe sobre o pão. Ele esvazia os potes de caviar e os pacotes de torradas. Petiscos preparados, eles estão prontinhos para serem devorados.

E quem disse que Juvêncio irá comê-los? Ele pega a bandeja dos petiscos e (me sinto mal de escrever isso)...

... começa a atirá-los pela janela, um por um.

Juvêncio passa alguns minutos fazendo isso. Pega o petisco delicadamente e simplesmente o atira janela afora. Atirar em transeuntes e carros é a grande diversão. Ele até criou uma pontuação para isso. Acertar em crianças rende um ponto; em velhinhas, dois; em carros, quatro. Depois de atirar todos os petiscos, Juvêncio anota todos os pontos feitos, somando-os com os anteriores. Já fez 926 pontos.

Quando Juvêncio compra o vinho, ele o abre e derrama prédio abaixo. Vez por outra, até a garrafa ele atira pela janela. Fazendo isso, ele já acertou Alex lá embaixo. Duas vezes.

Enquanto Juvêncio joga os petiscos e o vinho, ele grita euforicamente uma frase (e apenas ela):

- Manger merde, singes! Hahahahahahahaha!

Depois de atirar e gritar, Juvêncio limpa a mesa e volta à sua vida patética. Muitas pessoas já tentaram reclamar com Juvêncio, mas ele sequer abre a porta de sua casa. Os gatos, em compensação, agradecem, e vivem lá embaixo, esperando a chuva de acepipes. Transeuntes e vizinhos também deveriam agradecer. Afinal de contas, nem a Daslu tem uma calçada tão requintada e de tão bom gosto.

O encontro dos dois agradáveis

na Padaria São Pedro

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Os dois nunca tinham se visto antes.

Um deles se mudou para o Itapetininga faz pouco tempo. O outro é morador antigo. Ambos não possuem um círculo social muito extenso. Cada um com seus motivos. De um lado, Franz Giotto, com queijo cottage e pão integral. Do outro, Jean-Jac... Juvêncio, com tudo quanto é tipo de queijo. Ambos entram na fila ao mesmo tempo. Conhecendo os dois... seria o caso dos extremos se unindo. Não é impossível.

O diálogo começa quando o pacote de pão integral do Franz cai no chão, exatamente no pé de Juvêncio, que, sem se mover, continua olhando para os lados. Franz se agacha e pega o pão. Em seguida, Franz ironicamente diz:

- De nada.

- Merci, je ne parler pas votre langue.

- Pardon, je ne savais pas que vous êtes français.

- Brrasilerro símio terrcerro-mundista, seu frrancês nom é ruim, mas é frrancês de sauvage, racaille.

- Você tá de brincadeira, né? Quem tem testa de babuíno aqui é você. Além do mais, se você não é brasileiro, eu nasci no Japão e minha pele é azul.

- Símio de óculos rouge, sou frrancês, morrei em Parris e...

- OK, OK, então por que você veio para o terceiro mundo? Com certeza, a França era um país muito bom para você ter de vir pra cá, correto?

- Muito melhorr do que terrcerro-mundo.

- Você tem cara de nordestino! A não ser que você seja imigrante! Você é tão brasileiro quanto um jogo de futebol do Flamengo!

- Nom me ofenda, magrrelo! Norrdeste é deserrto, pauvreté. Eu nasci na cidade luz!

- Tá, tá, Napoleão... não te deram educação, não? O pão caiu em cima do seu pé.

- Ficarr pegando comida parra macaquinho? Colônia é quem trabalha para metrrópole!

- Caramba, cara, como você é chato. Só sabe dizer isso? Você não tem cara de francês, tem cara de coitado que come macaxeira, que toma água no Natal e no Ano Novo e se acha o chique só porque aprendeu meia dúzia de palavras vendendo água de côco para um estrangeiro lá em Fortaleza. Faça-me o favor! E conserte seus dentes: você se diz um francês, mas seus dentes são piores que os dos ingleses.

- Macaquito de óculos rouge! Mais respeito comigo! Nom me comparre com norrdestino! Quem é magrrelo e baixinho aqui é você!

- Ó, com emmental não dá pra fazer leite de coalho, OK?

- Você acha que morra em cidade de gente só porrque aqui tem poluição e rio fedendo terrcerro-mundo! Acha que com óculos rouge parrece com eurropeu!

- Quem acha que é europeu aqui é um certo testa de babuíno aqui...

- Ferme la bouche!

- "Ui, ui, sou metido a besta, odeio o Brasil, odeio o nordeste, hehe, olha a minha testa, ui"

- Singe!

- E me deixa em paz que agora é minha vez de pagar.

- Oui, pagarr em moeda desvalorizada, hohoho.

- Meu país não fica sustentando vagabundo, pelo menos.

- Clarro que nom! Os vagabundos brrasilerros vão pra França!

- Pois é, né? - responde Franz, com um sorriso cínico.

- Não aparreça mais na minha frente!

- Não precisa me pedir.

Os dois nunca tinham se visto antes. Preferiam ter continuado assim.

Trombadinha

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Jean-Jacq... Juvêncio andava tranquilamente, em um dia qualquer, em direção a um empório. Seu estoque de Veuve Clicquot e de queijo camembert estava no fim. Traje típico: jaqueta preta, camisa por debaixo da jaqueta, calça preta, sapatos. Não, ele não usa boina nem cultiva um moustache: hábitos deixados para trás na França. 

Com toda sua superbe e arrogance, andava pela calçada em direção ao Jardim Paulista. É um hábito que ele mantém religiosamente desde que chegou ao Brasil, andar a pé até os Jardins. Só que desta vez, houve um acidente de percurso.

Eis que um garoto, por volta dos seus 13 anos, bem magro, com boné virado para trás, camiseta de futebol rasgada, chinelo com tira grampeada e gorro surge do nada. Coitado, cara de quem não comia nada há algum tempo. O garoto estava com a mão dentro da camiseta, que estava estufada: podia ser uma arma ou uma faca. O garoto começa o assalto:

- Aí, tiozinho, aí, tiozinho, passa as grana, o celular, os cartão!

- Pardon, pardon, je ne vous comprends pas.

- Aí, tiozinho! Póparando, mano! Cê tem mó cara de paraíba, monocelha, testão, tá querendo dar uma de gringo? Tá tirando cu eu?

- Drroga, terrei de falarr língua de macaquinho de terrcerro-mundo. Non sou brasileiro, non entendo dirreito você - Juvêncio, com um sotaque bem forte.

- Aí, mano, vai pra merda! É o seguinte, mano: isso é um assalto, mano. Eu quero suas coisa, que cê tem cara de quem tem dinheiro, mano!

- Non tenho nada que você poderrá usarr. Tenho apenas um livrro du Jacques Prévert e un charruto cubano. Nada que macaquinho terrcerro-mundista poderrá usar.

- Puta cara de rico e num tem dinheiro? Aí, mano, eu não sou idiota, não! Dá a carteira, dom!

- Menino terrcerro-mundista, j'ai un compte en BNP Paribas. Banco de país civilizado. Nom tem BNP Paribas perto de racaille, só perto de moi, en Jardins. Entom, como diz brrasilerros sauvages, VAZA!

- Aí, mano! Mandei passar a carteira, dom! Senão eu matucê!

- Garçon primitif, bandido en Eurropá é mais intelligent, prepara-se melhor quando comete um crrime. E acaba ganhando mais dinherrô! En outre, roubar reais é coisa de terrcêrro mundo mesmo! Roubo de verdade é roubar euros!

- Cala a boca, pó de arroz! Passa a grana, senão eu te mato!

- Arroz, arroz... hohoho. País de terrcerro-mundo, mesmo. Produtorr de matérria-prrima. Racaille.  

- ME PASSA LOGO A CARTEIR... ih, sujou!

O garoto sai correndo. Uma Blazer da polícia viu o assalto e foi correndo atrás do garoto. Coitado. Quanto a Juvêncio, continuava com a mesma cara nojenta, como se nada tivesse acontecido.

Chega uma pessoa do outro lado da calçada:

- Ei, tá tudo bem com você? Vi tudo do outro lado.

- Très bien, merci beacoup, singe du tiers monde.   

- Muito bom, muito bom. Aqui no Brasil, a situação é complicada mesmo. Você não deve andar sozinho por estas bandas. Mas me diga o seguinte: como você enfrentou o garoto? Não teve medo, por ele estar armado.

- Nom, nom, ele nom estava. Garçon primitif du tiers monde... ele estava com dedo debaixo de roupa apontando parra moi, tentando me fazer acreditar que aquilo erra arrma! Dava parra ver seu dedo e seu unha parfaitement.

- Sim, entendo...

- En outre, ele nom sabia que eu tinha isto.

Juvêncio mexe na jaqueta. E tira de dentro uma carta na manga: uma pistola Glock, modelo 34, top de linha.     

No fim, sorte dele. Do bandido. 

Mainardí - parte V

Lê a parte IV, ô malheureux!

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Jean-Jacques veio para cá no primeiro semestre de 1995, aos 29 anos. Aqui, voltou a ser Juvêncio. Com a soberba de alguém que falava 5 línguas fluentemente e que tinha lido quase toda a obra de Chatterton, passou os primeiros meses procurando um apartamento decente. Óbvio. Imagine, morar em uma espelunca cheia de terceiromundistas fedidos que não tomam banho! Era demais para Jean-Jac... Juvêncio. Inicialmente, decidiu morar em um flat. Lá, passava o tempo lendo e lendo ainda mais. Como os francos iam escasseando, com o passar do tempo, não deu pra ficar no flat. Não sem trabalhar. Então... mudemos para um prédio mais barato.

Jean-Jac... Juvêncio se mudou para o Itapetininga no começo de 1996. Infelizmente, teria de ser em um apartamento de 1 quarto, que era o que o dinheiro frugal permitia. Ele teria de se misturar com a racaille brasileira. Déprimant!

Hoje em dia, Juvêncio até trabalha. Graças ao seu bom currículo, trabalha como colunista de duas revistas de arte em São Paulo. Mas o dinheiro não é muito. E Juvêncio o transforma em algo ainda menor. Afinal de contas, não parece lógico que uma pessoa que ganhe cerca de R$ 3.000 gaste R$ 1.800 com livros, vinhos franceses, queijos e pequenos quadros. Juvêncio é um homem ainda mais culto, que conhece ainda mais escritores, pintores e o diabo, que fala ainda mais línguas... e ainda mais arrogante.

Seu relacionamento com as pessoas do prédio... não existe. Juvêncio não tem amigos no Brasil. Seu círculo social restringe-se aos contatos na França, por lettres ou téléphone (esqueci de mencionar que parte dos R$ 1.200 restantes vão para as imensas contas telefônicas). Em terras brasilis, Juvêncio não diz bom dia e boa noite, é bonjour et bonne nuit. Sempre que alguém o cumprimenta (o que é bem raro), Juvêncio limpa as mãos na roupa logo em seguida. Juvêncio não come em restaurante por quilo, não anda de Gol, não vê jogo do Corinthians, não gosta de Carnaval, não toma Kaiser, não assiste Faustão, não ouve Chico Buarque. Vida, para ele, é assistir aos jogos do Paris Saint-Germain bebendo vinho com uvas cabernet sauvignon e queijo gruyère. Ou pintar quadros. Ou ouvir Charles Aznavour. Não tente falar em português com ele: ele não irá responder. Não tente cumprimentá-lo: você é da racaille. E mais do que tudo: não fale mal da França! Jamais!

Este é Jean-Jac... Juvêncio, brasileiro, nascido no Piauí, de família pobre, simples, humilde e trabalhador.

Mainardí - parte IV

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Pois é, o Juvêncio estava na periferia de Paris, sozinho, só com a roupa do corpo, sem falar um bonjour. Poderíamos dizer que ele estava condenado a ser um desses estrangeiros que só estão na França para serem odiados e sofrerem. Mas Juvêncio, perto de um monte de árabes e africanos, teve é uma sorte danada.

Ele, de fato, sofreu no começo. Passou uns dias nas ruas, não falava com ninguém, só comia restos de lixo (se bem que, convenhamos, para ele era bem melhor comer boeuf á la bourguignonne de três dias do que calango fresco) e dormia em algum banco isolado no centro de Paris. A sua sorte mudou quando a tão eficiente assistência social francesa o acolheu. Juvêncio ficou umas semanas em um orfanato, junto com crianças pobres francesas, malgaxes, senegalesas e um mundo inteiro lá dentro. Até que foi bem tratado, mas o melhor viria depois. Uma família, veja só, se simpatizou com o garoto magrelo, de testa saliente e com um ar de coitadinho de terceiro mundo e o levou para sua casa.

Não era uma família qualquer. Eles tinham dinheiro. Bastante, aliás. O patriarca, Laurent Grouillet, era dono de uma revendedora de cigarros Gitanes. A mãe, Cathy-Françoise Hardy, era uma femme au foyer, pois o marido já ganhava o suficiente. Chique, né, benhê? E, por algum motivo obscuro, o casal preferiu Juvêncio a todo o resto das crianças.

Juvêncio, no começo, não falava com seus novos pais. Óbvio, não sabia patavinas daquela língua. Um dia, Laurent teve uma idéia: mostrou um atlas com várias bandeiras e, por sinais, pediu para que Juvêncio apontasse para o seu país. Juvêncio apontou para aquela bandeirinha verde e amarela. Laurent, então, procurou uma pessoa que soubesse português para ensinar francês ao garotinho. E foi assim que Juvêncio começou a ser educado.

Pouco a pouco, Juvêncio começou a se tornar outra pessoa. O português como língua pátria foi substituído por um francês com um leve sotaque. Juvêncio ganhou outro nome: Jean-Jacques Grouillet. Voltou a estudar, se tornou um ótimo aluno e pessoa extremamente culta. Passou a ler Baudelaire, a estudar línguas, como inglês, alemão e, caramba, português e a frequentar sebos e museus. Aos 23 anos, ingressou no curso de História da Arte na Sorbonne. Uma virada e tanto, pra um garoto que mal tinha dentes na boca e que não sabia nem que a França ficava longe dos EUA. Juv... Jean-Jacques vivia às custas dos pais, bebia, lia, filosofava, conversava com amigos, bebia, lia, fumava, bebia, lia...

Mas a vida boa acabou em 1994. A revendedora de Laurent quebrou e a família acabou falindo. A derrocada da bourgeoise. Sem dinheiro, Juv... Jean-Jacques teve de procurar emprego. Mas não é fácil para um rapaz de 28 anos que nunca trabalhou. Então, ele decidiu tomar uma decisão radical: já que não acho nada aqui, volto pra minha terrinha inferior e arranjo um emprego fácil, fácil por lá.

Mainardí - parte III

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Juvêncio embarcou em um vôo da Varig no dia 16 de outubro de 1979 para São Paulo. De lá, um vôo em um avião da Air France para Paris. Vôo normal, tirando as turbulências (Juvêncio gritava que nem seu calango quando ele estava sendo comido por seu irmão) e quando a aeromoça trouxe a comida (Juvêncio parecia mais faminto que seu calango em dias de seca). Juvêncio chegou na cidade-luz na madrugada de 17 de Outubro de 1979.

"Vamos para um hotel?", perguntou Juvêncio.

A resposta foi uma balançada de cabeça negativa por parte da mulher.

Eles foram para uma casa no subúrbio parisiense. Dentro desta casa, algumas pessoas meio mal-encaradas lideradas por um baixinho bigodudo. O diálogo entre o casal e o baixinho foi em francês e, por isso, as criancinhas não entendiam nada.

MULHER- Tá aí. 2 meninas e 2 garotos.
CHEFE BIGODUDO- As meninas podem ser usadas como cocottes. Dois desses garotos podem servir pra alguma empresa aí.

O marido olha para Juvêncio.

HOMEM- E esse daqui?
CHEFE BIGODUDO- Criança raquítica, mas ainda assim me parece saudável. Pega o pâncreas, os rins, o fígado e o que der aí.

Juvêncio, sem entender nada, foi levado a uma sala, que parecia uma sala de espera, com outras crianças. Enquanto isso, uma delas era levado para dentro de uma outra sala. Não dava pra ouvir nada, então Juvêncio foi ver no buraco da fechadura o que estava acontecendo. E aí o baque: a criança estava sendo toda cortada e tendo seus órgãos retirados. Havia uma poça gigantesca de sangue no chão.

Assustado, Juvêncio se retirou da sala e começou a procurar uma saída. Alguns capangas perceberam e começaram a ir atrás dele. Juvêncio acabou se escondendo debaixo de um armário e ficou lá até de madrugada.

Juvêncio começou a vagar pela casa. Estava tudo escuro, provavelmente todas as outras criancinhas já haviam sido dilaceradas. Então, Juvêncio começou a procurar uma saída e acabou encontrando uma janela de vidro. Com um chute, ele encontrou a saída. E com o barulho, vários capangas sonolentos e enfurecidos foram atrás dele. Juvêncio correu e conseguiu despistá-los.

E agora? Um moleque de 13 anos, de madrugada, no subúrbio parisiense, sem conhecer ninguém nem falar um piu de francês.

Mainardí - parte II

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O pobre Juvêncio teve sorte pela primeira vez na vida. Será?

Acordou dentro de um carro. Um carro muito bom para os padrões da época e INACREDITAVELMENTE bom para o Piauí: uma Brasília ano 75. Estava deitado no banco de trás, com uma bolsa de gelo na cabeça. Nos bancos da frente, um homem, beirando os 30, e uma mulher, relativamente bonita.

A mulher avisa: "Ele acordou!"

Juvêncio olha assustado.

JUVÊNCIO- Mas o que eu tô fazendo aqui?
MULHER- Cê tava désmaiado, no meio da ishtrada. Tinha dois calango e uma menina mordendo seus braço. Si nu fosse nóis, tu já tinha virado bóia pros cabaço.
HOMEM- É, cê ia morrê purali meshmo. Toma um poco dágua.

Eles pareciam ser boas pessoas. De fato, levaram Juvêncio para a casa deles, em Teresina. E que casa! Dois andares, jardim, até TV colorida tinha. Juvenal nunca viu tanto tijolo empilhado assim na vida! Ou melhor, uma vez, quando foi a uma loja de construção comprar uma marreta. Comida e água em abundância. "Nossa", pensou Juvêncio, "acho que morri e vim para o céu"!

Juvêncio foi adotado pelo casal. Começou a estudar, passou a ser bem-alimentado e a ter uma vida de rei. A única coisa que não mudou muito foi o fato de que ele dividia a casa com mais 18 crianças, todas elas com cara de que estavam no Éden. Foi assim dos 11 até os 13 anos.

E não podia ser melhor: o casal programava uma viagem para a França com 5 dessas crianças. Juvêncio era uma delas.

Mainardí - parte I

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Juvêncio Aparecido Santos. Quem vê esse nome imagina um pobre-coitado que vive no meio do sertão nordestino, com vários filhos, plantas secas e cadáveres de vaca em volta da sua casa. Quem vê esse nome pensa que o cara nunca teve oportunidade de sair dessa sua vida e conseguir algo melhor. Bem, Juvêncio conseguiu.

Oitavo filho de uma família de 13, Juvêncio tinha tudo para continuar na mesma situação em que se encontrava seu pai, seu avô, seu bisavô. Sua mãe, dona Filarmina, o que tinha de filhos pra cuidar não tinha de dentes. Seu pai, seu Agripino, era cachaceiro, bigodudo e torcia para um time da terceira divisão do Piauí. Os 15 habitavam uma casa (casa?) de 42m² em algum lugar perdido da cidade de Caxingó, inóspito município do sertão piauiense com 5.000 coitados.

Juvêncio passava o dia na roça. Roça? Só quando chovia. Na verdade, passava a vida enchendo o saco dos irmãos e brincando com o seu único amigo naquele deserto, um calango, chamado Sururu, que ele não deixava que ninguém na sua família comesse. Bom, ele conseguiu safar o calango por 3 anos, até que um dia, um dos seus irmãos comeu duas das pernas do pobre animal. Sururu não sobreviveu. Juvêncio não perdoou a família e deixou sua casa. Ele tinha 11 anos e o ano era 1977.

Bom, o que poderia ocorrer a um moleque que se mete a atravessar uma estrada cheia de terra sob um calor infernal de 41º? Óbvio que Juvêncio não andou nem 3 horas. Caiu desmaiado no chão. Morreu?

Não.