- Bom então, escuta uma coisa você... o Marcos Vinícius, você é amigo desse administrador aqui do centro da cidade não é não?
- Foi bom você me lembrar porque eu tenho que fazer um telefonema pra ele...
- Mas escuta uma coisa... Que que ele diz dessa situação... desse centro da cidade
aqui? Nem varrem mais essa rua.
- Eles tão... eles tão reorganizando essas essas ruas. Porque eles querem acabar
aqui no centro da cidade com o estacionamento de carros, porque eles acham
que isto prejudica muito o tráfego e na hora do "rush" fica muito
atravancado. Então, eles querem dificultar o mais possível, que os particulares
tragam os seus carros pra cidade com o estacionamento.
- Tô com saudade do tempo do automóvel... Que pelo menos o automóvel varria a rua. O automóvel passava e levava a poeira e jogava na no meio-fio
e a rua ficava limpa. Agora é uma imundice. Já foi nessa rua? Se a gente sai
daí, o sapato fica parece que você tá andando na roça!
- Não, mas...
- Porque agora a poeira é tremenda. Eles varrem a rua...
- Mas tem uma explicação. Se nós analisarmos por exemplo este pedaço que nós
temos aqui em nosso consultório, nós vamos ver a grande quantidade
de construções novas, inclusive demolições. Aqui, isso é o suficiente para
eh sujar bastante. E nós estamos com outra dificuldade que por exemplo não vemos chuva há muito
tempo. Não cai...
- É, mas dá pra eles lavarem a rua ou molharem a rua.
- Por outro lado...
- Pra não ficar essa poeirada que já é...
- Eles agora prepararam esta rua Sete como sendo uma rua só para pedestre. Então eles tão reorganizando esta rua. Eles pretendem asfaltá-la, pretendem
preparar as calçadas e como eles tentaram fazer... Não
chegaram a fazer bem aqui na rua Rodrigo Silva, porque eles botaram verdadeiros paralelepípedos.
- É, eu dei uma topada num e quase voou também. No automóvel, dei uma topada naquele no gelo baiano que eles botaram ali.
- Isso tudo, eles tão tentando organizar. Eles tão tentando imitar cidade européia, entendeu? Que tem essas ruas de pedestres
exclusivas e tal. Mas isso eles já fizeram há muito tempo, então agora eles
estão tentando aqui. Eles tão tateando, mas eu acredito que eles cheguem a uma
conclusão.
Norma Urbana Culta
JJ 3054 (II)
Acompanhe esta história. Leia também: 11º andar, Apartamento 1114
Terça-feira.
Márcia estava esperando seu filho Fábio voltar de Porto Alegre. A comida estava pronta, a casa arrumada, o quarto limpo.
Ela senta, liga a TV. Dá mais ou menos a hora que ele deveria chegar no aeroporto. Nada. Deve ter atrasado. Até que o reporter anuncia que um avião, vindo de Porto Alegre para Congonhas caiu. Ela pensa no pior, mas se mantém calma.
O telefone toca, ela corre para atender. Não é o Fábio, é uma voz grave.
- Senhora Márcia Alvarenga Santos?
- Sim? - responde.
- É sobre o seu filho, Fábio Alvarenga dos Santos. Ele sofreu um acidente.
Ela se desespera. Aperta as mãos.
- Não... Não... O avião? O avião?
O homem do outro lado não entendeu sobre o avião. Mas explicou:
- Desculpe não termos avisado antes, só agora conseguimos o seu contato.
Uma pausa. Márcia está estarrecida.
- Sinto muito, muito mesmo, senhora. Ele sofreu um acidente de carro quando estava indo ao aeroporto. Levamos ao hospital, mas ele não resistiu.
Ela parou.
- Mas... ele não estava no avião?
- Não. Não conseguiu chegar ao aeroporto.
- Obrigada por avisarem.
- De novo, meus pêsames. A senhora tem alguém com você aí? Um parente, uma vizinha?
- Obrigada, não se preocupe. - e desligou.
Márcia caiu de novo na poltrona. Ficou parada olhando para o nada. Pensando em eu não sei bem o quê.
O búlgaro, o Sérvio e o russo (2)
Acompanhe esta história. Leia também: 5º andar, 2º andar, 11º andar, Apartamento 1116, Apartamento 212, Apartamento 518
Tem duas semanas, o Sérvio (um rapaz totalmente brasileiro) descobriu a existência de um búlgaro (totalmente búlgaro) morando no Itapetininga. O Pável (totalmente russo) não ficou tão interessado assim, mas e daí?
O caso é que o Sérvio (aliás João Roberto) estava na portaria esperando o Pável descer. Quando o russo chegou, o Sérvio estava todo animado, quase saltitando:
- Pável, Pável, sabe quem passou por aqui?
- ?
- O búlgaro! O búlgaro que mora aqui.
- Agora?
- Subindo, vindo com um pouco de pão, algo mais da padaria. Um velho loiro, alto. Vi no painel do elevador que ele foi pro segundo andar. Ele estava resmungando em búlgaro... Em búlgaro!
- Você ientendeu alguma coisa?
- Nada.
- Que bom! De fato, isso é muito bom, realmente é muito bom sinal para você, sabe?
O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)
Acompanhe esta história. Leia também: 5º andar, 2º andar, 11º andar, Apartamento 1116, Apartamento 212, Apartamento 518
O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.
- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.
- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.
- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.
- Um búlgaro? Que concidyência.
- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.
(a história continua)
O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)
Acompanhe esta história. Leia também: 5º andar, 2º andar, 11º andar, Apartamento 1116, Apartamento 212, Apartamento 518
O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.
- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.
- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.
- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.
- Um búlgaro? Que concidyência.
- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.
(a história continua)
Banho
Acompanhe esta história. Leia também: 12º andar, 11º andar, Apartamento 1212, Apartamento 1112
Era um dia muito quente...
D. Rosana abriu as janelas, ligou os ventiladores na sala.
Nada fazia aquele calor passar.
Magali tinha alergia ao calor. Quando esse tempo chegava, ela passava mal e ficava com a pele cheia de bolotinhas, como se tivesse sido picada por um formigueiro inteiro. Assim, D. Rosana redobrava a atenção com a menina.
Embora possa parecer que Magali não gostasse de calor, ela era uma criança muito contente e não ligava para o tempo. Até achava bom, porque no verão ela acompanhava os primos no clube.
Mas era dia de semana e tudo estava muito quente e Magali no pé da tia:
- Tiiiiiia! Que horas o Thi vai chegar da escola? Ele vai pro clube? Eu vou poder ir junto??
- Calma, querida...Seu primo já vem...
Toca o telefone. Thiago na linha:
- Mãe? Tô na casa do Rodrigo, aquele meu amigo da escola. Ele chamou todo mundo pra uma festa na piscina. Volto bem tarde, beleza?
E Magali não parava de reclamar que queria ir pra piscina.
Foi então que Dona Rosana teve uma brilhante idéia.
Foi até o quarto de Thiago, subiu e procurou uma antiga piscina inflável onde os seus dois filhos brincavam quando eram da idade da Magali.
Era uma piscina pequena, cabia no box do banheiro, redonda e cheia de bichinhos contentes.
Magali adorou a brincadeira! A tia encheu a piscina com o pouco fôlego que tinha, colocou embaixo do chuveiro e encheu de água.
A menina entrou na piscina e ficou brincando alegre com a sua Barbie nadadora.
E D. Rosana foi cuidar dos afazeres da casa na maior paz.
Cerca de uma hora depois toca a campainha. É vizinha de baixo.
- Jurema, querida! Como vai você? Preciso pegar com você aquela receita.
- Vou bem, Rosana. Mas o que me traz aqui é outra coisa.
- Fala, querida! - disse Dona Rosana com a simpatia que lhe era peculiar.
- Meu banheiro, ao que me consta, não tinha uma lagoa antes!
D. Rosana corre até o banheiro e encontra Magali, contente na sua piscina com o chuveiro aberto:
- Tiiiia! Você viu? Eu fiz uma cachoeira!! E ela tem água quente!!
E o banheiro de D. Rosana era cenário de uma enchente.
O russo e o Sérvio
Acompanhe esta história. Leia também: 5º andar, 11º andar, Apartamento 1116, Apartamento 518
Pável nasceu em Moscou. Hoje mora em Campinas, no interior do
estado. Sérvio (é o apelido) nasceu em Campinas. Não mora em Moscou.
Mas adoraria de paixão.
Sérvio (aliás, João Roberto), mora em Campinas desde que nasceu. Há três anos, se mudou com os pais e um irmão mais novo para o apartamento no centro da cidade, o 518 do quinto andar do Itapetininga
Quando descobriu que havia um russo morando no prédio, fez de tudo para se encontrar com ele e no final acabaram virando amigos. Não me entendam mal. O Sérvio tem uma fixação patológica pelo Leste Europeu. Ouve todo o tipo de música vinda dos Balcãs, Europa Central ou Rússia, desde Tchaikovsky a techno-pop russo. Leu todos os Dmitris que poderia ler, inclusive os pesos de porta do Dostoyevski. Tentou aprender a falar russo, esloveno e sérvio, mas, como era de se esperar não avançou tanto assim na empreitada. E quando descobriu que havia um russo morando no prédio, o Sérvio foi se encontrar com ele.
Hoje formam uma dupla interessante: um russo, completamente loiro e falando português com sotaque, e um brasileiro, meio nordestino, meio italiano, tentando falar russo e empolgado com a última novidade vinda de alguma cidade com um nome impronunciável.
Cartilha
Acompanhe esta história. Leia também: 11º andar, Apartamento 1118
Sabe aquele poema da Cecília Meireles que tem em toda cartilha do pré-primário?
Arabela
abria a janela
Carolina
erguia a cortina.
E Maria olhava e sorria:
"Bom dia!"
Arabela
Foi sempre a mais bela.
Carolina
a mais sábia menina.
E Maria apenas sorria:
"Bom dia!"
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"
Dona Raquel leu esse poema na sua primeira cartilha e suas filhas ganharam esses nomes.
Mas as personalidades não são exatamente condizentes com o pequeno poema.
As duas mais velhas (Arabela e Carolina) têm 17 anos, são gêmeas e nasceram albinas,
portanto, não chegavam perto da janela por causa do sol e Maria sofre
de enxaqueca crônica, por isso acorda mau humorada e passa o dia
reclamando.
Agora, o pior é a falta de educação de suas filhas.
As duas mais velhas, são duas patricinhas insolentes e mesquinhas. Usam a desculpa da pele sensível pra sairem todas as noites em infinitas baladas. Gastam toda a mesada em roupas e acessórios psicodélicos.
Quando a mãe pergunta por mais tempo em família elas respondem, de forma grossa e aos berros:
- Nós não somos como você que formou família aos 16 anos! Nós temos direito de aproveitar nossa idade!!
Isso machuca Dona Raquel que ficou muito alegre com a chegada das meninas e conseguiu seguir profissionalmente mesmo com dois bebês em casa.
Maria é pior ainda. Com as dores de cabeça se tranca no quarto.
Mas ela não fica lá por dor de cabeça... A enxaqueca, crônica, passou quando ela completou 12 anos. Agora, aos 15, ela diz que está com dor de cabeça pra poder se isolar no seu quarto com as revistas de adolescentes e ouvir as músicas que seus amigos virtuais lhe mandam no último volume no fone de ouvido.
Às vezes Raquel tenta entrar no quarto pra dar remédio pra filha, mas ela tranca a porta e finge que não ouve (e na maioria das vezes não é fingimento) e diz, no dia seguinte, que tinha pegado no sono quando a mãe a procurou.
Os únicos momentos que a família tem unida é quando Seu Alceu, pai das meninas, marido de Dona Raquel e jornalista que escreve para uma revista de turismo, volta de viagem trazendo presentes e a família toda se reúne na mesa.
Raquel, apesar de tudo, é uma mulher feliz. Ela se considera uma pessoa realizada, que não tem muito, mas o suficiente: um marido bom, três filhas lindas, um belo apartamento de três quartos, um Celta prata do ano na garagem e um bom emprego no RH de uma empresa de tecnologia.
Ela só se sente realmente triste e incompleta quando lê o poema na sua cartilha velha anotada com uns garranchos infantis.
Maquetaria
Acompanhe esta história. Leia também: 11º andar, Apartamento 1116
Pável Yakovlev tem dezenove anos e, apesar do nome, não é brasileiro. Ele nasceu em Moscou e veio para o Brasil com os pais, Andrey e Masha, em 2002, quando o pai conseguiu um emprego executivo numa empresa do interior de São Paulo.
Pável hoje está naquele limbo entre o fim do colegial e a faculdade. Estuda para o vestibular. Arquitetura. Nos finais de semana sai com os amigos, porque cada um tem um horário diferente e fica difícil sair durante a semana.
No seu tempo livre, ele faz maquetes. Grandes, imensas, detalhosíssimas maquetes de madeira balsa. Muitas vezes de prédios que existem, com muita precisão. Prédios velhos, cheios de detalhes, inclusive.
A família Yakovlev tem um grande Kremlin no meio da sala e Pável está querendo que o condomínio pague algum para ele fazer uma maquete do Itapetininga para por no saguão.
Gente inocente I
Acompanhe esta história. Leia também: 12º andar, 11º andar, Apartamento 1212, Apartamento 1112
Dona Rosana tem 38 anos e mora com sua família: dois filhos, um de 11 e outro de 13 e seu marido. Durante o dia, D.Rosana cuida de sua sobrinha, Magali. Ela é uma garotinha de 4 anos, alegre e brincalhona, mas mesmo assim, muito calma e quietinha. O tipo de criança que agrada qualquer adulto!
Certo dia, Magali brincava tranquilamente no jardim de inverno do apartamento e sua tia, que cozinhava, saiu pra atender uma vizinha, Dona Jurema...
Dona Jurema precisava de uma xícara de açúcar, mas saiu com muito mais coisas do que esperava:
- Ai, sabe o menino do 1612? Que garoto problema, D. Jurema! E o morador do 214? Desconfio que aquele gringo tenha alguma coisa a ver com a máfia!
Conversa vai, conversa vem...
Magali percebe uma fumacinha saindo pela janela da cozinha...Curiosa, entra e vê o almoço que a tia preparava pegando fogo junto com a panela e com parte da cozinha. Percebendo que alguma coisa estava errada, Magali chega no corredor do andar e avisa a tia:
- Tiiia! Tem fogo na cozinha!
- Eu sei, querida, a titia tá fazendo papá pra você ficar bem fortinha!!
- Não, tia, mas o fogo é grande!
- Tudo bem, queridinha, o fogo é grande porque tá na boca maior!
- Hum...Ah, tá bom, então!
Magali, inocentemente, volta para o jardim de inverno e continua brincando, crente de que não havia problema nenhum na cozinha que ficava logo ao lado.
Então, o filho mais novo de Dona Rosana, Thiago acorda e vai direto pra cozinha, buscar um pacote de bolacha pro café da manhã.
- MÃÃÃÃÃE!!!!!! MÃE! Tá pegando fogo na cozinha, mãe! A cortina, a panela, o fogão, tudo tá e chamas, mãe!
Dona Rosana corre desesperada e chega na cozinha a tempo de apagar o fogo com um balde de água e com a ajuda de Thiago. Dona Jurema ficou sem saber o que aconteceu no apartamento 2116. E Magali, inocentemente, almoçou muito contente uma marmita com as suas bonecas ao lado.

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