O que é isso?

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Sexta-feira, que beleza! Família Ramos unida, depois de uma típica semana corrida. A empregada não deixa o jantar pronto e Fernanda não cozinha, então, é dia de comer alguma coisa diferente. E, nesse dia, Aloísio leva uma pizza pronta para casa. Quentinha, grande, massa grossa, com a fumacinha saindo por dentro da embalagem...

ALOÍSIO- Quem pediu pizza?

BRUNO- Oba!

FERNANDA- Dieta interrompida, hehe.

Aloísio abre a embalagem, que exala um cheiro ótimo de pizza de mussarella, com tomates vivos de rubor sobre queijo suculento e borbulhante, orégano suave para salpicar e... o que é isso?

No meio da pizza, um pedaço pequeno e bege de... algo indefinido. Muito indefinido. Não tinha cara de nada e uma coloração meio suja. Textura brilhante e gordurosa, o que indicava consistência mole. Pedaço amorfo, que intrigou toda a família.

FERNANDA (com cara extrema de nojo) - O que é isso?  

VERÔNICA- Aaaargh!

ALOÍSIO- Peraí, pessoal. Não deve ser nada de mais.

BRUNO- Será que é um pedaço de um bicho morto?

VERÔNICA- Cala a boca, Bruno!

FERNANDA- Amor, vamos devolver a pizza.

ALOÍSIO- E se não for nada de mais?

FERNANDA- E se for?

VERÔNICA- Alguém quer arriscar?

BRUNO- Vai lá, pai. Hehe.

ALOÍSIO- Não deve ser nada mesmo. Deixa eu tirar.

FERNANDA- Não tira, não!

ALOÍSIO- Amor, deve ser só um pedaço de comida.

BRUNO- Na boa, pai, não parece comida, não.

VERÔNICA- É, pai, é mole e feio, pode ser um, argh!, pedaço de inseto morto.

BRUNO- Não fala besteira!

FERNANDA- Mas a sua irmã pode estar certa. Não vamos brincar com a sorte, né?

ALOÍSIO- Bom, pior que você não está errada. Não tem cara de nada, não tem consistência de nada.

BRUNO- Não é só jogar no lixo?

FERNANDA- Não. Pode contaminar toda a pizza.

VERÔNICA- Acho que é um pedaço de gordura. Urgh!

BRUNO- Acho que é um rato morto, hehe.

FERNANDA- Não importa o que seja. O que importa é que você tem de devolver a pizza, Aloísio.

ALOÍSIO- Ok, ok.

Aloísio foi. Pegou o carro, 40 minutos de congestionamento e um pouco de estresse. Mais 15 minutos para encontrar um lugar para estacionar. Ao chegar, levou diretamente à cozinha. Explicou a situação e mostrou a pizza. O cozinheiro se mostrou surpreso:

- Provavelmente, deve ter espirrado na pizza. Mas vocês não conhecem isso aqui? O nome disso aqui é champignon.

- Ah...

Engano

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Doze de junho. Bruno, 16 anos, chega de tarde em casa com um embrulho na mão e joga na cama.

Meia hora depois a irmã passa e pergunta:

- Ah, que beleza.

- Uhm, sim. Eu acho um pouco de frescura isso, mas a Camila se importa com isso. E só tamos a dois meses, sabe? Mas de qualquer maneira, shopping lotado é uma merda.

- A Camila que te deu? O que é?

- Não, não, eu que comprei pra dar pra dar para ela amanhã.

-  Amanhã? Por que amanhã?

- Ora, dia dos namorados!

- Bruno... É hoje.

O rapaz pára. Olha para irmã, olha para baixo e diz:

- Putz. 

 

Empate

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Restaurante árabe. Estão lá, na mesa, Aloísio e seu filho Bruno, esperando por um garçom. Bruno começa a inoportunar o pai:

BRUNO- Hum, pai, sabe o que eu vi no National Geographic?
ALOÍSIO- O quê?
BRUNO- Um pepino-do-mar soltando o próprio estômago para um predador. Era lindo, aquele bicho que mais parece um salame podre se protegendo com aquela massa amorfa que é o estômago dele.
ALOÍSIO- Não é melhor falar disso depois?
BRUNO- E tem mais: eu vi também uma sucuri comendo uma vaca aos poucos! Muito legal!
ALOÍSIO- Bruno, por favor.
BRUNO- Mas o melhor foi ver uma planta carnívora pegando uma mosca e envenenando ela. A mosca foi derretendo... Muito show!
ALOÍSIO- *glup*
BRUNO- Nossa, foi ótimo ficar em casa. Pena que eu perdi a melhor parte, sabe? Tava com uma diarréia horrível, tive de ir no banheiro.
ALOÍSIO- Quer ficar quieto, por favor?
BRUNO- Já te falei do acidente de carro que aconteceu lá perto da escola? A criança teve queimaduras de terceiro grau, o motorista tava com o cérebro escorrendo pelo nariz e o olho da mulher voou para o meio da rua!
ALOÍSIO- Bruno...
BRUNO- Só não foi pior do que o cara que eu vi na TV, que tomou um tiro na cabeça. Parecia um monte de catchup voando!
ALOÍSIO- BRUNO!
BRUNO- Hahahahahahahahahahahahahahaha!
ALOÍSIO- Pára de falar esses assuntos aqui dentro!
BRUNO- E o dia em que eu vi um cara comendo estrume, foi sensacional!
ALOÍSIO- Fica quieto! Peraí, tem um garçom passando aqui perto... ei, garçom!

O garçom se aproxima.

GARÇOM- O que vocês vão querer?
ALOÍSIO- Bem, eu quero kibe cru e cozido de tripa de carneiro. E para beber, suco de tomate.

Bruno saiu correndo direto para o banheiro, com a mão na boca. 1 X 1.

Restaurante

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Existem famílias onde todo mundo tem o mesmo gosto. Existem famílias que não. Mas uma delas leva isso ao pé da letra. Conheçam os Ramos!

Família comum, sem estranhices vistas entre os vizinhos, constituída de gente pacata e de boa índole. O relacionamento deles com o mundo não poderia ser melhor, pois todos são simpáticos e normais. Mas dentro de casa...

São quatro pessoas, totalmente diferentes, que não podem tentar fazer nada juntas.

O pai, Aloísio, é engenheiro aposentado. Depois de 52 anos de vida, ainda gosta de experimentar as coisas. Já viajou para o Quênia e para a Birmânia, e seu sonho é ir para a Ilha de Páscoa. Gosta de experimentar em todos os sentidos: come de tudo, assiste de tudo, enfim, um eclético completo. Uma coisa que ele odeia é rotina ou coisas normais, como arroz e feijão e novela das oito.

A mãe, Fernanda, é advogada em atividade. Por vir de famíla endinheirada, sempre viajou para lugares sofisticados e comeu e usou do bom e do melhor. Até por isso, não come mortadela, não pega ônibus, não toma vacina com o povão e procura sempre comprar em empórios.

O casal feliz tem dois filhos. A mais velha é Verônica, 17 anos. "Vezão", como é chamada pelas amigas, é a típica patricinha comum. Vive de dieta, gosta apenas de coisas que patricinhas gostam e não sai disso. Faz academia, come o mínimo possível de derivados de animais (obviamente, sempre ocorre uma escapada, mas a penitência é paga na academia) e é uma chatinha normal.

O filho mais novo, Bruno, tem 15 anos. Sem grandes frescuras, Bruno gosta do arroz, feijão, bife e salada do dia a dia. Não quer viajar para a França: o Guarujá já é o suficiente pra ele. Ele gosta mesmo é de andar de bicicleta, jogar videogame e futebol e comer churrasco com os amigos. Óperas, livros e foie gras não são realmente com ele.

Os quatro vivem às turras quando estão juntos, pois um sempre quer fazer alguma coisa, mas o outro não permite. Uma situação que exprime isso é quando se reúnem para comer fora no feriado:

ALOÍSIO- Muito bem, pessoal, vamos comer aonde hoje?
FERNANDA- Amor, você viu o francês que abriu essa semana, lá perto da escola das crianças?
ALOÍSIO- Vi, sim. Mas sabe como é? Comemos comida francesa duas vezes esse mês. E além de eu estar enjoado, não temos dinheiro para tanto.
BRUNO- Vocês gastam dinheiro demais com comida. O que adianta, se tudo vira uma coisa só a partir do momento que entra na boca?
VERÔNICA- Você é nojento.
ALOÍSIO- Crianças, chega... então, eu gostaria muito de experimentar um restaurante grego que meu amigo me recomendou.
VERÔNICA- Lá se come carne?
ALOÍSIO- Bem, não comem muito.
BRUNO- Ah, não? Que droga! Tô a fim de matar uma vaca hoje!
VERÔNICA- Você é nojento.
FERNANDA- Ah, amor. Será que o restaurante é limpo? Será que as crianças vão gostar? Eles não são de comer essas coisas.
ALOÍSIO- Só indo pra descobrir...
VERÔNICA- Ah, pai, eu queria comer lá no japonês hoje... uma comida mais leve, sabe?
BRUNO- Vamos comer lá no Tonhão? Lá é barato e tem umas carnes muito boas!
FERNANDA- Não, meu filho. Lá eles não tem higiene.
VERÔNICA- Além do mais, eu me recuso a colocar algum ser vivo na boca.
BRUNO- E aquelas esquisitices de peixe cru são o quê, sua besta? Bonequinhos de plástico?
ALOÍSIO- Crianças, chega. Vocês não querem mesmo conhecer o restaurante grego?
AS CRIANÇAS- NÃO!
FERNANDA- Vamos no francês, lá tem coisas para eles também.
BRUNO- Mas eu também não quero ir lá. Eu só quero comer churrasco, e é no Tonhão que tem!
VERÔNICA- Se vocês forem no que o Bruno quer, então eu não vou.
FERNANDA- Vamos no francês, oras.
BRUNO- Vão vocês, que eu fico.
ALOÍSIO- ...

A discussão não durou muito. Acabaram todos (inclusive as frescas da Verônica e da Fernanda) indo comer no McDonald's. A globalização também resolve problemas familiares.