O búlgaro, o Sérvio e o russo (2)

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Tem duas semanas, o Sérvio (um rapaz totalmente brasileiro) descobriu a existência de um búlgaro (totalmente búlgaro) morando no Itapetininga.  O Pável (totalmente russo) não ficou tão interessado assim, mas e daí?

O caso é que o Sérvio (aliás João Roberto) estava na portaria esperando o Pável descer. Quando o russo chegou, o Sérvio estava todo animado, quase saltitando:

- Pável, Pável, sabe quem passou por aqui?

- ?

- O búlgaro! O búlgaro que mora aqui.

- Agora?

- Subindo, vindo com um pouco de pão, algo mais da padaria. Um velho loiro, alto. Vi no painel do elevador que ele foi pro segundo andar. Ele estava resmungando em búlgaro... Em búlgaro!

- Você ientendeu alguma coisa?

- Nada.

- Que bom! De fato, isso é muito bom, realmente é muito bom sinal para você, sabe?

O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)

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O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.

- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.

- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.

- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.

- Um búlgaro? Que concidyência.

- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.

(a história continua)

O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)

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O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.

- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.

- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.

- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.

- Um búlgaro? Que concidyência.

- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.

(a história continua)

Búlgaro - 2ª parte

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(continuação)

Pois é, Yevgeny havia sido roubado. Estava apenas com a roupa do corpo, em pleno Aeroporto Santos Dumont, sem dinheiro, sem documentos, sem nada!

Yevgeny deixou o banheiro consternado, quando viu uma quadrilha levando as malas e tudo o que ele tinha. O que se seguiu foi um corre-corre até pra fora do aeroporto, onde a quadrilha conseguiu sumir da vista dele. Era de noite e nosso astro precisava de um lugar pra ficar, de alguma coisa assim. Uma simpática moça percebeu que ele estava sozinho e sem o que fazer e ofereceu sua casa para ele ficar lá esta noite e Yevgeny, inocentemente, aceitou.

No dia seguinte, quando Yevgeny acordou, ele estava nu e abandonado no acostamento da Via Dutra! Até as roupas foram roubadas! Maldita mulher!

Desesperado, ele começou a gritar e a fazer escândalos para os carros que passavam. Pessoas próximas ligaram para a polícia e Yevgeny foi levado a um distrito policial. Os policiais não acreditaram na história de que ele era um ator de sucesso na Bulgária e o mandaram para um manicômio em São Paulo.

Yevgeny ficou 29 anos neste manicômio. Fugiu, aos 59 anos, quando encontrou algumas portas abertas e um monitor dormindo. Nesse período, aprendeu quase nada de português e a pintar quadros abstratos. Passou a viver de vender os quadros que pintou no manicômio em feiras livres. Com o dinheiro, começou a procurar um lugar para viver, já que ele estava dormindo em albergues ou na rua. Encontrou um apartamento de um dormitório no edifício Itapetininga e mora lá até hoje.

Hoje em dia, Yevgeny é um desconhecido para todo mundo. Ninguém sabe sua história. Fechado, desconfiado e anti-social, não fala com os vizinhos nem aparece nas reuniões do condomínio. Mal sabe se comunicar em português e desaprendeu, com o tempo, as línguas aprendidas na Suíça. A exuberância vista na Bulgária deu lugar a uma carranca imutável no Brasil. Quando não está vendendo, está pintando ou conversando sozinho não se sabe o quê em búlgaro e em voz alta.

Pelo visto, as prováveis buscas feitas pelos governos brasileiro e búlgaro não deram resultado. Yevgeny é um sujeito deprimido, sem dinheiro, envelhecido e ignorado por todos. Maldita hora em que decidiu usar o banheiro!

Búlgaro

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Yevgeny Maliknov, além do nome difícil, tem uma história medonha. Muito medonha.

Yevgeny nasceu em 1942, em Sofia, Bulgária. De família rica (pai dono da maior fábrica de espelhos do país, mãe atriz), sempre teve do bom e do melhor em sua casa: comida boa, brinquedos, viagens, vários empregados no seu pé, enfim, era uma criança sortuda.

Aos 9 anos, Yevgeny foi estudar na Suíça. Lá, pôde aprender inglês, francês, alemão e italiano. Entrou na Universidade de Gênova aos 17 anos para estudar Artes Cênicas. Saiu de lá e voltou ao seu país em 1964. Sua mãe lhe arranjou um papel de segunda linha em um filme, um jornaleiro. Sua atuação foi excelente e ele foi escalado para fazer cerca de 120 filmes, virando um dos astros da Bulgária. Yevgeny tinha o perfil ideal para ídolo: loiro, alto, olhos azuis, voz grave, carismático, sorriso de comercial de creme dental. Aos 28 anos, estava no auge, com dinheiro, namoradas belíssimas e fama. Mas o destino, como sempre, pregando suas peças...

Em 1972, Yevgeny decidiu tirar umas férias em Aruba. Embarcou no dia 14 de Março em um avião velho da Lithuanian Airlines que iria para o Rio de Janeiro. De lá, Yevgeny pegaria um outro avião para Aruba. Até aí, tudo bem. Vôo tranquilo e Yevgeny chega perfeitamente bem no Rio. Depois de horas de viagem, o astro teve de ir ao banheiro no aeroporto. Com muita prudência, ele deixou as malas com carteira e documentos do lado de fora da cabine do banheiro e entrou nela. Quando saiu, onde estava seus pertences??

(continua)