Calor Latino - Parte II

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Soledad chegou no Aeroporto de Congonhas em 14 de Maio de 1976. O combinado era que Soledad fosse para o guichê da American Airlines esperar Enrique Fernando. E ela ficou esperando ele no guichê. Mas ele não havia aparecido até as 22h.

Soledad ficou preocupada. ¿Lo que se pasó con mi amor?, pensava ela. E enquanto pensava no que acontecia, ela foi olhar pra lua na janela, pensando em Enrique Fernando. Mas ela percebe que há algo de errado lá embaixo... fogo. Muita gente em volta. Sirenes.

Soledad, por curiosidade, desce e vai ver o que está acontecendo. Nossa, por Deus e Nossa Senhora de Guadalupe! Um acidente de carro. Médicos, enfermeiros e policiais em volta retirando os feridos. E, como manda o folhetim, um dos feridos era... sim, exatamente ele, Enrique Fernando. O estado dele era bem grave e, como manda o folhetim, ele morreu naquela madrugada do dia 15 de Maio de 1976.

Pobrezinha da Soledad. Estava perdida, sem dinheiro para voltar para o México e não sabia nada da língua. Mas ao contrário do búlgaro que habita o Itapê, Soledad se virou e foi à luta. Começou a trabalhar como babá, ajudante de cozinha e faxineira. Aos poucos, seu portunhol quase chulo virou um portunhol muito bem hablado. Soledad conseguiu constituir uma vida no Brasil e até se casou. Só que aqui não houve influência do folhetim: seu marido, Lauro, é um bêbado, mal-educado e galinha.

Os dois moram no Itapetininga desde 1989. Hoje em dia, Soledad trabalha apenas como babá ("me gusta mucho los niños"). É ela quem sustenta a casa, o marido vagabundo e o filho drogado. Mas ela faz isso com aquela alegria de personagem coadjuvante de novela mexicana. Gosta de tudo e de todos. Não se importa com seu marido e seu filho: sua vida é mais interessante do que isso.

Mas Soledad também tem seus defeitos: gosta DEMAIS de pimenta (o que gera problemas com os estômagos pouco acostumados de seu marido e filho), não lava o cabelo por superstição (acredita que o shampoo tira todas as energias boas do corpo) e talvez o mais visível (e audível): sabe aquela mexicana empolgada, que fala bastante? Pois é, Soledad fala, e fala MUITO, e fala MUITO RÁPIDO, e fala PORTUNHOL. Holatudobienquebomacáestátudomuybien mimaridoestáemcasaassistindotelevisiónemifilhoestáemlaescola...

Soledad é uma pessoa bacana, que empresta farinha de trigo para os vizinhos, que joga o lixo no lixo e que diz "buenosdiascomoestáeuestoymuybienblablabla..." para todo mundo. Amicíssima da síndica, que chama ela de "foquinha". Soledad a chama de "mumita". São grandes amigas. Essa é Soledad, a a mexicana que todo mundo gosta. Soloquetieneumporén:quelaspessoasevitamconversarmuchoconelapormotivos absolutamenteobviosmasnontemproblemalaspessoasgustandesoledadmismoassim.

 

Calor Latino - Parte I

A nova novela das 6, no SBT

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Devota de Nossa Senhora de Guadalupe, Soledad Días é uma rara moradora simpática e feliz do Itapetininga. Muito feliz. Dona de um sorriso sincero (embora os dentes não sejam os mais bem cuidados) e de uma alegria incomparável, Soledad é uma das moradoras mais queridas do Itapetininga, pra não dizer que é uma das únicas pessoas queridas. Mexicana de Acapulco, 51 anos, 1m56, cabelo preso, cara de asteca. Impossível não reconhecê-la.

Soledad veio para o Brasil em 1976, quando tinha 20 anos. Até então, morava na periferia de Acapulco e trabalhava vendendo os tacos que sua mãe Belita produzia. Mas não pense que Soledad veio para cá por acaso. Ela veio para cá por causa de Enrique Fernando Cortez y Villa. Uma passagem bastante trágica, diga-se.

Enrique Fernando era aquilo que vemos em toda novela mexicana: homem alto, de franja, cara de sedutor latino, terno e voz de ator de Hollywood. E como não podia deixar de ser, era rico também: tinha um alto cargo na Bosch mexicana. O folhetim é previsível: os dois se conheceram em 1975 na praia, quando Soledad ofereceu tacos para Enrique Fernando. Ele, que naquela altura, estava casado com Luna, uma perua fútil e futriqueira, se interessou muito pela simplicidade e espontaneidade de Soledad. 

Os dois passaram a se encontrar toda sexta-feira à noite. Ficavam na praia, olhando pra lua, jogando água um no outro e outras coisas mais íntimas. Era um sonho para a pobre Soledad, mas um sonho que estava prestes a acabar: Luna acabou descobrindo o romance paralelo. E como era filha do diretor geral da Bosch mexicana, acabou se vingando dos dois: pediu para seu pai para que Enrique Fernando fosse transferido para longe de Soledad. 

Enrique Fernando acabou sendo mandado para o Brasil no início de 1976. Mas os dois não queriam ficar separados e Soledad acabou prometendo que iria atrás dele no Brasil. Ela só precisaria de dinheiro para isso. O plano era que os dois se encontrassem por lá e se casassem em seguida. 

Três meses depois de Enrique Fernando ir, Soledad conseguiu o dinheiro necessário para ir para o Brasil. Depois, o resto do plano seria concretizado e ela viveria com ele feliz para sempre. Não foi bem assim...