Meninos e meninas VII - Porto (In)Seguro

Sexo (!), drogas (?) e Spice Girls! (Leia a parte VI antes, d'accord?)

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Era 16 de Dezembro. Dia da viagem. Cinco dias longe dos pais, muita festa, praia e mulheres! Seria a primeira grande aventura de Alex!

A turma já estava toda reunida no saguão do aeroporto. Alex se junta a eles. O único com três malas, grandes. Quando se encaminhavam para a fila do check-in, ouve-se lá do fundo:

- Filho, filho, espera!!

Sim, era a mãe do Alex, correndo no meio do aeroporto. Ele teve medo de olhar para trás e por alguns minutos desejou que não fosse com ele.

- Filho, quase que eu esqueço! Olha os seus preservativos aqui, aqui também tem um remedinho pro estômago, um laxante se você precisar, aspirna, band-aid, pomada para as assaduras...

Alex segurava a respiração, estava vermelho, roxo, azul! Os colegas todos em volta, cochichando e só esperando a mãe se afastar para a gargalhada começar... Preservativos?? Laxante?? Pomada??

- Turma, posso tirar uma foto de todo mundo junto? Filho, fica no meio aí, vai! - "Oh my God! Tinha que ser minha mãe??" pensava...

Depois da foto onde ele parecia um pimentão, pra fechar com chave de ouro:

- Boa viagem, pessoal! E cuidem bem do meu filhinho, eim? E vocês, meninas, controlem-se, eim? Nada de abusar do meu menino, hihi...

Alguns até pararam de rir, consternados, tamanha era a vergonha dele. Mas da fila de embarque até a chegada no hotel e provavelmente até o fim da viagem, as piadas eram as mais variadas e cruéis. "Cuidem bem do meu filho, não abusem dele..."

Alex passou o primeiro dia todinho trancado no quarto. Na manhã seguinte, passado o trauma, resolveu ir para a praia. "Onde estão minhas sungas?". Encontrou as duas: a do Mickey e a do Taz.

A praia toda parou para contemplar Alex, em sua melhor forma física de cambito*, com a sunga de Mickey, coberto de filtro solar (como recomendara a mãe), com óculos de mergulho e toalha vermelha. (Ele também não se ajuda, ahn?)

Provavelmente os preservativos que a mãe comprou poderiam ficar guardados pra sempre, mas o laxante... Bom, depois de exeperimentar cerveja quente (e quem garante que era cerveja?) e comer os famigerados camarões da praia... Alex teve um excelente fim de dia, trancado no hotel novamente. Acordou suando, no meio da madrugada, depois de um pesadelo onde sua mãe aparecia na praia, levando para ele uma bóia de patinho.

No fim do dia seguinte haveria uma festa. Quem avisou Alex? O seu grande amigo Humberto: "O Rosbife, tem festa amanhã... Num perde, vai ser massa. Ah, é festa à fantasia, belê?". Poxa, Alex não tinha uma fantasia. Quando acordou, já curado das experiências gastronômicas, foi até a cidade, gastar um bom dinheiro, alugando uma fantasia... De Chapolin (com martelinho e tudo).

Estava animado para a festa. Será que a fantasia dele seria a mais original? Ele queria entrar em grande estilo. Foi então que apareceu na porta, pulando e gritando:

- Não contavam com a minha astúcia!

Deixou o martelo cair ao ver o salão todo olhando para ele com cara de "Ahn?". Estavam todos vestidos normalmente, bermuda, camiseta, chinelo... "Maldito Humberto, maldito Humberto!". Ficou uns dois minutos parado na porta, um filme de sua vida passou pela cabeça. Era mais uma pros anais. Que vergonha...

E talvez a primeira atitude corajosa da vida dele tenha sido entrar na festa. Não recuou. Foi até o bar, pediu uma batida e não escapou nem das piadas do barman: "Com álcool ou com leite?". Desobedecendo mais um dos conselhos da mãe, Alex tomaria sua primeira dose de bebida "alcóolica". Batida de abacaxi. "Poxa, isso é bom!". Tomou a primeira, a segunda, a terceira.... A décima-segunda... Depois disso, quem entrasse na festa se depararia com um Chapolin em cima do balcão, cantando Spice Girls e rebolando (tudo devidamente registrado).

Chapolin acordou com o movimento aumentando na praia. Dormiu encostado numa pedra. Acordou com várias crianças rindo em volta dele e com a dor de cabeça de uma provável experiência de quase-morte ou coma alcóolico. No caminho para o hotel, todos que o encontravam só cantarolavam "Viva forever, I'll be waiting everlasting..." e ele não entendia nada.

Já no hotel, quando começou a ser chamado de Scary Spice, a ficha caiu. E a viagem, para ele, acabava ali. Passou os outros dois dias jogando xadrez sozinho e ouvindo as piadinhas dos colegas de quarto.

De volta pra casa, teve acesso às fotos que circulavam entre os colegas da ex-escola. O que era aquela criatura bizarra, fantasiada de Chapolin tentando beijar a Samara? E aquela mesma tentando abraçar o Humberto? Olha só... Chapolin de baton... De sutiã, que original.

A dor de cabeça da ressaca duraria uns bons anos.

Meninos e meninas VI - A rainha do baile

A saga do terceiro ano. (Ele voltou!)

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As férias entre o 2º e o 3º ano foram marcadas pela saudade que ele sentia do Tobias e pelo pavor, ao pensar o que esperaria por ele no terceiro e último ano de escola: quem estaria na sala? como seria a formatura? e a viagem? o vestibular? Além disso, Alex passava por todas as outras inconveniências de ser adolescente, da puberdade, enfim...

Primeiro dia de aula, Alex entrando na sala:

- Não acredito! ROSBIFEE! Você aqui??

Alex colocou a mão no rosto... "Humberto??!" pensou consigo mesmo. E sim, era o mesmo Humberto, mais mala, mais bombado e mais sardento. Alex fingiu não ouvir e foi se sentar do outro lado da sala. Sentou-se atrás da Samara, futura cientista social, comunista, intelectualóide, pedante e orgulhosa do seu volumoso rastafari, com aspecto (e cheiro) de que não via água há muito tempo (comentários sobre as pernas e as axilas são dispensáveis).

Os dias iam passando sem grandes surpresas. Humberto encrencando, a Samara "cheirando" (em todos os sentidos)... A sala criou a comissão de formatura, e eis que vem a primeira notícia ruim: haveria baile de formatura. Pra piorar? Ao melhor estilo americano, com parzinhos e prom queen! Logo que isso foi anunciado, a comunista olhou para trás:

- Cara, eu nem curto essas coisas, só vou senão minha mãe reclama, tá ligado? E como eu num quero dançar com aqueles playboys e é certeza que você nem vai arrumar ninguém, a gente dança, falou?

Alex tinha 4 segundos para decidir o que era pior: ficar sentado sem dançar com ninguém e virar lenda na escola ou dançar com a senhorita anti-gilete e virar outra lenda da escola:

- Cof, cof... Tá bom, Samara. - "Mas você vai lavar esse cabelo, né?" ficou com vontade de dizer.

Durante várias noites Alex acordou assustado: sonhava com os cabelos da garota, durante o baile, se enrolando nele e asfixiando-o...

A outra notícia era sobre a viagem. Porto Seguro. Alex gostou da idéia, afinal, nunca tinha visto o mar. Colocou o nome na lista, mesmo sabendo que teria que ajudar o avô na horta para juntar dinheiro. A parte triste? O Humberto, obviamente, iria e (uai!) a Samara também! (Ela de biquíni... Wow!)

O ano passando, Alex se preparava para o vestibular, engenharia mecânica era sua escolha, sabe-se lá porque. Ele também queria se preparar para o fim do ano, não queria fazer feio em Porto e resolveu entrar numa academia, não pôde. Baixa resistência física. Também não conseguiu se livrar do aparelho nos dentes: mais 8 anos, no mínimo. Aparentemente um ano tranqüilo, descontando-se o fato de que alguém contra sua vontade o inscreveu juntamente com a Samara para concorrerem a rei e rainha do baile.

Novembro chegou, era o mês da primeira fase dos vestibulares, da formatura e do Alex pegar catapora! Mas catapora? Sim, culpa do primo mais novo que ficou na casa dele por uma semana.

Dia do baile. A escola em peso, a sala dele todinha, os professores e funcionários, os pais... Os pais de Alex: o pai até que era normal, mas a mãe era, par excellence, engraçada. Alta, testuda, de maquiagem exagerada, muito emotiva e sempre falando alto. Alex chegou de fraque, gravata borboleta, muito gel no cabelo e, claro, coberto de pontos vermelhos. "Que gracinha, que lindo meu filho!" exclamava a mãe enquanto tirava fotos de cada passo dele. Samara chegou depois, de jeans, camiseta do Che, botinas e... Com o rastafari, do mesmo jeito. (Ô casal bunito!)

A risada durante a entrega dos diplomas foi garantida com Alex engasgado na frente do microfone ao fazer o discurso, enquanto a mãe o aplaudia de pé, em alto e bom som: "Lindo, maravilho! É meu filhinho!". Nem os professores se seguraram... Depois disso, ele só reapareceu na hora de dançar com a menina - dois passinhos pra lá, um pra cá e nada mais.

- Pessoal, pessoal! Atenção! O resultado do concurso para rei e rainha do baile! Os escolhidos deste ano são... são... Alex e Samara!...

O menino desmaiou antes da anunciante terminar de falar...

-... E vocês acreditaram, né? Hahaha... Brincadeira. O rei e a rainha deste ano são...

A mãe dele, que já tinha começado o "Eu já sabia, eu já sabia!", não gostou nem um pouco.

Bom, pelo menos Alex passou na primeira fase dos três vestibulares que prestou. E estava, enfim, livre do ensino médio. Agora era só esperar pela viagem...

Meninos e meninas V - Até tu, Tobias?

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(Leia antes: Meninos e meninas IV)

Alex já não era o mesmo. Passou de garoto baixinho, fracote e de óculos grandes para adolescente baixinho, mais fracote do que nunca, óculos maiores ainda, aparelho nos dentes e muitas espinhas.

Entrando no ensino médio, prometeu a si mesmo que terminaria os 3 anos na mesma escola, independentemente do que acontecesse.

Na nova escola - uma particular de rede grande, cheia de meninas altas de cabelo loiro escovado e caras bombados de iam de chinelo para aula - ele carregava uma mochila enorme, verde... Um casco de tartaruga.
Religiosamente para o intervalo (que ele chamava de recreio) levava um pão ou com patê de atum ou com rosbife, embrulhado no papel alumínio:

- Hahaha, o babaca além de tudo, come pão com mortadela!
- Não é mortadela! É roast beef!
- É o quê??
- Pão com roast beef. - Falando pausado.
- Com quê??? rosbife?
- Não! Roast Beef!

Durante o ensino médio, seu apelido seria "rosbife".

No primeiro ano mostrou-se péssimo aluno nas matérias de humanas, a ponto de ter problemas para pronunciar o próprio idioma, em casos como "bólha" no lugar de "bolha" e não saber que Brasil e Brasília eram coisas distintas.
Mas era ótimo aluno de física e matemática. Terminava as provas antes de todo mundo e sempre tirava notas maiores.
O que deixava os companheiros de sala com muita raiva.

Nas aulas de educação física, enquanto todos jogavam futebol, ele jogava xadrez... Sozinho. E saia feliz quando ganhava, o que era meio raro.

Bom, alguns percalços, como vomitar no prório caderno, tomar laxante achando que era aspirina, se apaixonar pela menina que não se depilava ou mesmo derrubar seu próprio projeto de ciências um dia antes de apresentá-lo, não impediram Rosbi... digo, Alex de terminar o primeiro ano na mesma escola.

No segundo ano ocorreu o tão esperado Show de Talentos. Peças teatrais, bandinhas de rock, gente contando piadas, malabarismos, tudo muito bem preparado. Foi a primeira apresentação de Alex. Ele suava frio, com as mãos trêmulas, coração palpitando, garganta seca (ô exageiro!).
Seus pais foram vê-lo, na primeira fileira.

Qual seria o talento do Ros... Alex?
Ele levou o Tobias, o cachorro da tia, seu grande amigo e companheiro. O único ser que, até então, ele podeia chamar de melhor amigo.

Ambos passavam tardes e tardes juntos, comiam no mesmo prato, brincavam de pega-pega, treinavam truques, tomavam banho juntos.
Alex ensinou Tobias a dançar, pular, contar batendo as patas, pular corda e isso foi o que ele quis apresentar no show.

Passou várias semanas praticando. Dava uma biscoito para cada acerto do cachorro e tudo foi muito bem.
Certas horas, Tobias parecia até mais esperto que Alex.

E chegou o grande momento. A diretora chamou o participante:

- Agora, aplausos para Tobias, que ensinou ótimos truques ao seu cãozinho, Alex.

Pela primeira vez Tobias não esboçou nenhum sinal de inteligência, não fez nada, nada mesmo. Não latiu, não andou, não balançou o rabo, nem as orelhas. Ficou exatos 19 minutos sem sequer respirar, para o desespero de Alex, que ridiculamente imitava os movimentos que o cão supostamente deveria fazer e batia palmas, tentando despertá-lo.
Quando a platéia já ensaiava as vaias (inclusive seus próprios pais), ele pegou o cão e saiu andando de costas.

Antes de sumir atrás das cortinas, o cão saltou do colo de Alex e saiu correndo, atravessou a platéia e foi para a rua. O menino, no desespero de agarrá-lo, tropeçou e caiu... Aí sim, todos aplaudiram de pé.

Quanto ao cão, morreu ao tentar atravessar a rua.
Alex, que prometeu devolver o animal são e salvo, virou desafeto da própria tia.

Estacionamento

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Franz saía com seu Celta preto de um lado. Estava morrendo de pressa. Reunião na Apex, sua agência de publicidade.

Adriana Barros, como sempre, estava nervosa. Ia levar Bernardo ao
hebiatra. Dor de cabeça, provavelmente oriunda da TPM. Ela ia dando ré
com seu Civic vermelho, sem prestar atenção.

Quando Adriana estava terminando de tirar o carro, o Celta de Franz
bateu em sua traseira. Parachoques quebrados. Ela desce do carro. Franz
abre o vidro do carro para ouvir a verborragia. Começa a discussão:

- Você viu o que você fez com o carro?

- Minha colega, se eu fosse cego, eu nem teria carta de motorista.

- Você tem carta? Então como você consegue bater dentro de um estacionamento?

- Se uma barbeira dá ré sem prestar atenção e surge na frente do seu carro, acho que a batida se torna inevitável, né?

- Barbeira? Eu? Você já me viu dirigir, por acaso?

- Não vejo corridas de demolição.

- Ora, seu...

- Fica calma. Você tem seguro, não tem? Como nós dois temos, isso não será uma dor de cabeça completa.

- Bom...

Bernardo abre a boca:

- Mãe, ligaram do seguro semana passada dizendo que o contrato havia expirado e perguntaram se você não iria lá renovar.

Franz dá uma risadinha de canto de boca. Adriana entra em desespero:

- COMO ASSIM? O que eu faço agora?

- Bom... como eu tô morrendo de pressa, poderemos resolver depois. Vamos deixar isso pra lá.

- Não vamos a lugar nenhum! A pintura do meu Civic!

Bernardo: "Mãe, deixa pra lá!". Franz concorda:

- É, deixa pra lá. Só vai piorar as pregas na sua testa. Além do
mais, você sabe. EU tenho o seguro, portanto EU posso ferrar você, mas
EU estou te dando a chance de esquecer tudo. OK?

- Mas... mas....

- Passar bem. E escolha uma pintura melhor pra esse carro. O seu Civic vermelho desse jeito parece uma pimenta chili ambulante.

Adriana xinga até a oitava geração de Franz. Mas entendeu que era
melhor aceitar a oportunidade de esquecer. Ela só teria de arcar com o
conserto do próprio carro. Resignada mas raivosa, terminou de dar a ré
e embicou o carro, acelerando com tudo. A pressa é inimiga da
perfeição, diz o ditado. E Adriana, acelerando tudo, atropelou alguém,
quase que no portão.

- Caramba! Tô ferrada!

Pobre Alex. Fica pra outra história.

Meninos e meninas IV - Festa, carnaval e outras tristezas

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(Leia antes: Meninos e meninas III)

Alex chegou aos 15 anos com uma situação quase nada invejável: nenhuma namorada, sequer um beijo (laranjas e postêrs não valem), nada de amigos e péssimas lembranças de suas escolas e colegas.

Para coroar, a mãe resolveu fazer uma festa surpresa para comemorar os 15 anos dele. Chamou todos os parentes, inclusive os primos chatos cariocas e as duas tias que moravam em Manaus.
Todos se esconderam no corredor e na cozinha e só a mãe ficou de prontidão na sala, esperando ele voltar das aulas de inglês, para acender a luz e puxar o Parabéns pra você.

Justamente naquele dia Alex esqueceu a chave da porta da sala e teve que entrar pela cozinha. Ele não só estragou a surpresa, como também derrubou a forma do bolo ao abrir a porta.

A "festa" seguiu sem graça, sem bolo, com refrigerante quente e nada de parabéns... Só os primos do Rio que insistiram em quebrar os ovos na cabeça dele (merecido!).
Sobre sua cama, alguns presentes: uma luva de crochê que a avó fez, quatro camisas de frio da mesma cor (dadas por pessoas diferentes), uma bandeira do Botafogo e quase vinte cuecas.

Ele se trancou no quarto e só saiu no dia seguinte achando que todos já tinham ido embora. Mas para sua surpresa nem todos tinham ido. Encontrou os primos cariocas dormindo na sala.

Eles ficariam uma semana lá, ocupando o quarto de Alex, usando o banheiro sempre na hora que ele precisava usar, comendo todas as bolachas de morango e namorando todas as meninas do prédio pelas quais ele babava.

Os primos foram embora e logo entrou fevereiro. Terrível. O Carnaval, como qualquer outra data ou evento, não despertava as melhores recordações de Alex. As únicas coisas de que ele se lembrava eram o carnaval de 1986, quando ele tinha 5 anos e se perdeu dos pais numa praia de Santos e foi encontrado quatro dias depois num abrigo da prefeitura e também o carnaval de 93: quatro dias com uma Belina atolada na estrada de terra de Goiás.

E assim entrava Março, com o início das aulas.
Mesmo esperando pelo primeiro ano do ensino médio, Alex já sabia o que queria na faculdade: Engenharia Mecânica.

Meninos e meninas III - Boa má sorte

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(Leia antes: Meninos e meninas II)

Como não podia deixar de ser, Alex terminou a sétima série com algum outro apelido depreciador.

Oitava série. Escola nova, particular, de padres e freiras.
Tanto Alex quanto seus pais esperavam que ali fosse algum oásis, com alunos educados e compenetrados, afinal, aquele ano de estudos ia custar mais que um carro.

Acho que todos já podem prever que eles estavam errados.
O Colégio era como outro qualquer, talvez um pouco pior, cheio daquelas patricinhas de filme americano.

E lá, a primeira provação de Alex foi com os armários nos corredores. O prêmio por sua estatura não passar dos 1,55m foi o armário mais alto. Assim, todo dia precisava ficar na ponta dos pés para guardar o material ou passar pelo vexame de pedir ajuda à sua vizinha de armário, a Simone, que jogava basquete na escola, graças aos seus 1,95m.

E essa mesma Simone sentava exatamente na frente dele durante as aulas e por causa disso, toda a provocação do Humberto passava desapercebida.

Humberto? Ah, o Humberto... Claro!
Uma figura carimbada, de cabelos vermelhos enrolados, sardento e bochechudo. Foi colega de sala do Alex também no pré-primário e responsável pelo apelido de "Maria Chiquinha".

Na oitava série quase nada mudou.
Continuava bochechudo e sardento, mas agora pesando 110kg.
Dentro da sala, a maior diversão era colocar aparas de lápis apontado dentro da roupa do Alex e no intervalo, as maldades eram das mais variadas, desde roubar o óculos do menino até espirrar na comida dele.

O contato de Alex com as meninas só acontecia quando alguma ia tirar sarro dele (por causa da roupa, do óculos, do cabelo, da mochila, do nariz escorrendo...) ou quando ele esbarrava em uma delas. A única que conversava raramente com ele era a Simone, mas sempre deixando bem clara a situação Superior em que ela se encontrava.

Por sorte (??) a oitava série naquela escola não durou muito.
Durante uma aula de natação, Alex foi mergulhar, tropeçou e caiu em cima de uma garota. O susto só não foi maior que a vergonha e por isso acabou urinando nas calças (na sunga, mais especificamente).
Ninguém sabe se ele foi expulso por quase ter matado a colega ou se fugiu da escola...

Os pais como já estavam de saco cheio, colocaram-no numa escola pública a 15 quilômetros de casa.
A escola era conhecida pela boca de fumo ao lado da cantina e por seus brilhantes alunos, que fizeram um lual em volta da fogueira feita com os livros didáticos e chegaram a fazer da sala de professores um cativeiro.
Lá, Alex foi várias vezes encontrado dentro do armário ou com o pé entalado no vaso sanitário.

Meninos e Meninas II - Nem tudo que é rosa é cor-de-rosa

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Todos já puderam perceber que a vida sempre reservou a Alex grandes surpresas. E podemos dizer que nunca foram lá tão agradáveis.

Aos 6 anos ele teve seu primeiro contato real com uma escola e também pôde ter uma noção do que o esperaria durante sua vida escolar.

Os pais estavam muito entusiasmados com a melhora no comportamento dele que podia ser reparada nos últimos meses e a idéia de ele poder, enfim, ir à escola soou muito bem.

E o pequeno estava mais feliz que os próprios pais no seu primeiro dia de aula. Foi o primeiro a chegar na escola, às 5h40 da manhã para a aula que começaria as 7h30.
Alguns minutos antes do sinal, ele recebeu a terrível notícia de que as aulas já haviam começado há uma semana.

Ele seguiu cabisbaixo com sua lancheira do Batman (a nova paixão desde o episódio do aquário) para a sala e sentou-se na primeira fileira. E aqui começam as desventuras do Alex em meio à guerra dos sexos.

Na verdade não é bem aqui que isso começa.
Vamos voltar alguns anos, quando a mãe de Alex descobriu que estava grávida.
Sem um pré-natal adequado, os pais souberam do sexo da criança pelos métodos antiquados de uma parteira.
Como já era de se esperar, ela errou.
Assim, a mãe passou 6, 7 meses tricodando roupinhas cor-de-rosa, com lacinhos, borboletinhas e veadinhos estampados.

Quando ele nasceu, a parteira jurou que este tinha sido seu primeiro erro em mais de 30 anos de serviço.
Os pais não quiseram se desfazer de todo o enxoval, então, nas fotos dos primeiros anos de vida, lá estava Alex... Em seu quarto rosa, no berço... Rosa. E vestindo roupinhas... cor-de-rosa.
O avô paterno acreditou que tinha uma neta até o dia em que morreu. E avó materna chamou o neto de Laura por mais de 3 anos.

Ah, mas voltando ao "primeiro" dia de aula.
Ao sentar, ele não sabia que a sala era dividida entre meninos e meninas e que ele estava sentado justamente numa das fileiras para as garotinhas.

Quando as crianças começaram a chegar o riso foi geral. E até que a professora entrasse, o menino já estava aos berros.
Alex pode sentir quão cruel era a vida já naquela hora, mesmo não sabendo que o apelido de "Maria Chiquinha" seria lembrado por um mês.

E como ele havia entrado uma semana depois e também por causa do ocorrido, ele não conseguiu se enturmar.
Passou o ano todo encolhido no canto (pelo menos estava na parte certa da sala).

A provação parecia terminada quando ele foi para a primeira série. Ledo engano. Alguns dias antes de iniciar os estudos, o pobre menino foi presenteado com óculos enormes, de armação e lentes grossas, graças à sua miopia.

Assim, apelidos como quatro olhos, global e ceguinho (haja crueldade, ahn?) o atormentaram até a terceira série, quando a mudança de escola foi inevitável.

Agora, já na quarta série, um menininho crescido (bom, pelo menos as orelhas eram crescidas), Alex experimentou sua primeira paixão. Ela era linda. Cabelos macios, loiros. O sorriso doce... E quando ela falava, Alex sentia-se envolto por uma doce canção de ninar e adormecia embalado por ela
(e acordava com os risos dos coleguinhas, com a cara amassada e babando).

Mas sim... Como era linda... A professora.
Pena que tinha idade pra ser vó dele, estava no terceiro casamento e nunca reparou no pequeno Alex, nem como homem, nem como menino, sequer como aluno (no 3 bimestre ela ainda perguntava o nome dele).

E assim ia... Ah, que destino. Que cruel.
Da quinta à sétima série, apenas três meninas falaram com ele.
A primeira, Débora, na quinta série. Pediu uma borracha emprestada durante a prova. A professora achou que estavam colando e Alex tirou zero.
A segunda vez foi na sétima, quando a Letícia (a menina mais adorada e desejada da escola) lhe perguntou as horas... Pena que ele não tinha relógio.

A terceira vez foi com a Daniela. Os dois estavam sozinhos na sala, estudando para um teste. A menina vê uma barata e grita para Alex matá-la.
(Até aqui ninguém sabia, nem a Daniela, que Alex morria de medo de insetos, desde o dia que uma aranha entrou em sua boca durante um acampamento de férias).
Ah, bem, aí ele, assim como a menina, subiu na cadeira, esperando por socorro.

Meninos e meninas - Como nascem os perdedores

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Alex nasceu em uma pequena cidade de Minas Gerais, perto de Governador Valadares. Desde os primeiros dias de vida mostrou-se de forte personalidade e muito azarado.
Assim que saiu de sua mãe, urinou na parteira que acompanhava o nascimento. Aos 6 dias de vida, mesmo sem dentes, mordeu o peito da mãe enquanto era amamentado.
O menino quase não completou seu primeiro mês, já que na noite anterior, inexplicavelmente, quase morreu enforcado com o móbile que adornava seu berço.

Começou a andar aos 11 meses e seu primeiro grande feito depois de conseguir mover-se com apenas duas patas, digo, pés, foi derrubar a árvore de Natal.
Faltando três dias para completar dois anos, balbuciou sua primeira palavra durante o Jornal Nacional: "inflação".
Como a televisão estava com o volume alto, ninguém ouviu.
Falou novamente onze dias depois. A palavra foi "sarampo".

Quando completou três anos os pais resolveram deixá-lo aos cuidados de uma babá, que desistiu do cargo quatro horas depois. Inúmeras foram as tentativas frustradas de conseguiur alguém que pudesse lidar com o garoto.
A única boa alma que se dispôs (porque os pais ofereceram uma grande quantia) foi a avó materna.

A velha, já passando dos 80 anos, morreu em uma semana. Sem saída, os pais viram-se obrigados a matricular Alex numa escola infantil. Os primeiros 4 meses transcorreram normalmente, porém, logo em seguida, ele sofreu sua primeira expulsão. O motivo? "Risco à integridade física e moral dos coleguinhas de sala".

O aniversário de cinco anos foi um trauma na vida da criança. A mãe, muito atarefada dividindo o tempo entre seu trabalho e os afazeres domésticos, encomendou a festa completa para um buffet. O tema era "Astronautas e naves espaciais", uma paixão do pequeno Alex.

O que foi entregue? Uma linda festa com o tema de... de... A Branca de Neve e os sete anões. Às pressas a mãe improvisou capacetes para os anões e do vestido de Branca de Neve ela fez uma linda (!) roupa de astronauta... Vermelha, amarela e... Azul.
Infelizmente ninguém engoliu a história de no espaço havia coelhinhos, bruxas e maçãs.

O menino precisou de dois psicólogos para superar a festa.
Bem, e ele deixou de gostar de astronautas quando ficou com a cabeça entalada num aquário que fingia ser seu capacete.