Na outra porta

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Dois policiais chegam no quarto andar e entram na sala 402.

- Bom dia, senhora, nós somos da pol...

- Sala 406, ali do lado.

- Obrigado. 

Testemunha

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O Itapetininga é um local propício para agiotagem e a sala 406 é o escritório de um dos agiotas mais conhecidos do prédio, seu Juca Faria. Quer vender ouro, dólares, jóias, com cotação do dia? Dê uma passadinha lá. Mas como, se a Sala 406 é uma relojoaria? Sim, ela é. Mas seu Juca compra bens e empresta dinheiro. Enfim, a relojoaria é de fachada. O negócio dele é agiotagem mesmo. E ele é agiota dos perigosos. Só que ninguém nunca desconfiou daquela relojoaria inocente.

Seu Juca, 52 anos, tem jeitão de malandro. Baixinho (não mais do que 1m55), bigodudo, nariz de batata, vive com uma boina preta, não tem como não reconhecê-lo. Esperto, marombeiro e pilantra. A única pessoa que trabalha com seu Juca é Pirambó, um garoto de 15 anos que ganha uns trocados ajudando Seu Juca no conserto dos relógios e no atendimento dos clientes. Os dois levam a vida daquele jeito obscuro. Mas levam.

A vidinha deles seguia normal até que um dia, como a vida é uma ironia, um assaltante invadiu o Itapetininga e a relojoaria foi assaltada. O assalto foi à mão armada e o assaltante, um branquelo, magrelo, de barba malfeita e com cabelo grande, parecia nervoso. Levou quase todos os relógios e algum dinheiro. Foi rápido, mas deixou um bom prejuízo para Seu Juca e Pirambó de cara assustada. 

Seu Juca, inconformado, veja só, foi até a polícia fazer um boletim de ocorrência. Dias depois, a polícia ligou dizendo que tinha pego alguns suspeitos e que ele deveria comparecer até o distrito policial para fazer o reconhecimento. E lá foi Seu Juca.

Eram cinco homens, todos bem estranhões, um com cara de ser mais perigoso que o outro. O suspeito estava lá, era o último, da esquerda pra direita. Começa o processo de identificação.

Um homem, alto, de cor negra, com uma tatuagem no braço e camiseta de político.

- Não é esse.

Um de cor branca, alto, careca, com uma cicatriz no nariz.

- Também não.

Um de cor parda, meio baixo, cabelo encaracolado e brinco.

- Não.

Faltavam só mais dois, e o último era o assaltante. Um homem, de cor parda, alto, acima do peso, com cabelo curto e dentes tortos.

- É esse daí, sem dúvida nenhuma! Podem levar, filho da puta!

E ele foi preso. E saiu no jornal, dias depois. E Pirambó, ao ver a foto do bandido preso, constatou:

- Juca, esse cara não tem NADA A VER com o que tinha assaltado a gente.

- Pirambó, eu conheço esse cara desde adolescente, quando a gente brigava o tempo todo. Ele é um dos meus concorrentes diretos, já dormiu com a minha ex-mulher, é corintiano, já tentou me matar e o filho dele batia no meu filho.

- Mas...

- Você já foi chamado por ele de baixinho da Kaiser? Então volta pro trabalho!