- A empresa até que é bacana, mas o chefe...
Essas reticências foram a indicação do que eu viria a enfrentar na minha empresa.
Essa frase foi dita por um amigo meu já faz algum tempo. Nós estávamos no último ano do curso técnico de Informática e, pra podermos retirar o diploma, precisávamos cumprir um estágio de 400 horas. Como eu detesto Informática (queria fazer Relações Internacionais), o estágio era uma mera formalidade e o meu objetivo era cumpri-lo com o mínimo de aborrecimento possível.
Eis que meu amigo me recomenda a Planetcorp. Planetcorp? É uma escola de inglês? Dei uma pesquisada no Google. A Planetcorp é uma empresa que vivia de produzir sistemas e sites meia-boca para todo o Brasil. Possuía escritórios em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Pederneiras. Pederneiras? É a cidade natal do chefe. Ah, tá.
Sem grandes ambições dentro da Informática, enviei meu currículo para lá. No mesmo dia, recebo um telefonema. Uma mulher, de voz bem simpática, que se apresentou como, caham, Somaliene, me chamou para uma entrevista na Sexta-feira daquela semana. Eu não estava exatamente empolgado. Na verdade, a minha única motivação era conhecer a tal de Somaliene: ela deveria ser bem feia para ter este nome...
Chega a Sexta-feira. Acordei cedo, me arrumei, tomei o ônibus (a empresa ficava bem próxima à escola) e cheguei meia hora antes do horário marcado, que era às 9:00. O escritório ficava no Itapetininga, no 15º andar. Enquanto a Somaliene não chegava pra me atender, eu fiquei lendo algumas Vejas que estava no saguão do prédio. Não faltava muito para as 9:00.
Somaliene chegou na empresa às 10:30. Nisso, eu já havia lido, relido e lido outra vez todas as revistas do saguão. Ao contrário do que eu imaginava, Somaliene possuía todos os dentes da boca e não era nariguda. Veja só, era uma mulher bonita! "Você é o Ícaro, certo? Prazer, eu sou a Somaliene. Desculpe o atraso, meu carro quebrou. Vamos subir."
O escritório era dividido em duas partes. Uma delas era o escritório propriamente dito, com os programadores, os computadores, a máquina de café. A outra parte, na qual eu e Somaliene fizemos a reunião era uma... uma... uma sala vazia. Sim, vazia, sem absolutamente nada. Mentira. Havia um monitor abandonado no chão. Com o cabo arrebentado. E alguns balões. E uma garrafa meio vazia de Guaraná Kuat. Pelo visto, era um salão de festas, eventos e reuniões. Interessantíssimo, ainda mais se tratando de uma empresa de, no máximo, 8 pessoas.
A entrevista foi normal. Somaliene era uma pessoa legal, que de ruim só tem o nome. Contei que estudava alemão, que meu sonho era fazer Relações Internacionais e que odiava Informática. "Jura? Haha. Você nem acredita o curso que eu fiz. Ciências Sociais!"
A entrevista foi bacana e ela foi com a minha cara. Mas havia outra parte: a prova técnica. O problema é que ela não poderia ser aplicada no mesmo dia porque o computador utilizado para testes estava quebrado. Então, eu teria de voltar na semana seguinte.
Antes de ir embora, Somaliene me levou pra conhecer o pessoal. Os caras que trabalhavam lá eram tão expressivos, mas tão expressivos que não merecem uma descrição melhor. O mais interessante era aquele cara sentado na mesa sofisticada, com um notebook. Gordo, cabelo visivelmente seboso, pés descalços, metido a yuppie, aparentemente mal-humorado, algo próximo de um Doutor Pimpolho. Com vocês, o chefe:
- Európio, esse daqui é o Ícaro, um dos candidatos.
Európio? Hahahahaha! Európio? Somaliene? Hahahahaha! Isso daqui, DE FATO, é a Planetcorp! Hahahahaha!
A constatação pseudoengraçadinha deu lugar à antipatia depois da reação do Európio:
- GHRWNF.
GHRWNF? Que merda de som foi esse? Foi um grunhido? Será que eu, como animal de outra espécie, estava invadindo seu espaço? Ou será que era um cumprimento em alguma língua uralo-altaica? De repente:
- Mas que porra, meu! Vá pra puta que o pariu! Puta nega burra, burra, burra! Tem cliente que é cabaça mesmo, viu? Vá se foder!
Sabe de uma coisa? Preferia o GHRWNF.
Terminava aí a entrevista e a apresentação. Minha impressão se confirmava: a empresa era mambembe, mesmo. Pra um programador mambembe como eu, ótimo.
Depois, enquanto atravessava a rua, quase fui atropelado por uma moto. O motociclista me xingou. Foi a melhor parte do meu dia.

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