Um acidente, um casamento e vinte anos

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Em 1982, José Alfonso sofreu um acidente grave no seu apartamento, quando tropeçou numa dobra do tapete e caiu de cabeça numa quina da mesinha de centro da sala.

Era um funcionário, então com seus cinqüenta anos, divorciado e sem filhos e por isso morava sozinho. Naquele então, morava no apartamento do lado a dona Emília, uma senhora de seus sessenta anos, de quem José Alfonso não era propriamente um amigo, mas apenas um vizinho que se viam todo o dia e se cumprimentavam, sempre na mesma hora do dia, de acordo com uma rotina velha.

Depois que caiu, José Alfonso ficou desmaiado no chão e não saiu para o corredor na hora em que sempre cumprimentava a dona Emília. Dona Emília, que tinha ouvido o barulho do vizinho caindo (e derrubando junto com ele um vaso), estranhou e pensou no pior. Bateu na porta, não ouviu resposta. Tentou espiar pela janela da área, mas não conseguiu. Bateu de novo na porta, e depois chamou o filho da outra vizinha, para que ele fosse correndo ao zelador para que o zelador então subisse e abrisse a porta do José.

Dito e feito, dona Emília entrou e encontrou o seu vizinho caído no meio da sala, sangrando. Telefonou rápido por uma ambulância e deu, com a ajuda do agitado filho da vizinha, os primeiros socorros.

José Alfonso sobreviveu e deu isso como graças a dona Emília. Os dois começaram a não apenas se comprimentar no corredor, mas também a freqüentar um a casa do outro e disso acabaram num pequeno romance da idade avançada. Passaram a viver juntos, ocupando um pouco de cada um dos apartamentos.

Foi assim por mais mais de vinte anos, até que dona Emília, em 2005, com mais de oitenta anos, morreu. "Morreu jovem", como disse o viúvo.

Seu José, depois disso, se recolheu ao seu velho apartamento, o 813. O 811, que era de dona Emília ficou para a irmã mais nova, que vendeu e usou o dinheiro para voltar para Pernambuco. Desde que ficou viúvo, envelheceu tudo aquilo que não tinha envelhecido nos vinte anos que tinha ficado com Emília. Hoje, passa o dia no apartamento, com um gato que o casal havia recolhido em 2002, alguns livros, um toca-discos, que ainda lhe traz um pouco de alegria, um retrato da falecida - e nenhuma mesinha com quina.

Carlinhos, o filho adolescente da vizinha do 816, aquele que tinha chamado o zelador e ajudado a arrombar a porta e cuidar do acidentado, se formou em engenharia civil, se mudou para o Rio e hoje é casado e tem três filhos.