Chacrinha morreu... - parte II

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Bom, o que se seguiu aí foi que eu tava quase morrendo. Tive traumatismo craniano grave, hemorragia cerebral e tudo o que teoriamente me deixaria meio "devagar" caso eu sobrevivesse. Entrei em coma profundo. Isso foi lá em Maio de 1988.

Todo mundo pensou que eu passaria o resto da vida em uma cama, olhando pra cima e babando. Eu não pensava em nada: estava em um modo stand by (é stand by que se fala, certo?) indefinido, não tinha como saber se eu iria religar ou se pifaria de vez. Neurônios de greve, meu corpo cheio de tubos e um punhado de enfermeiras cuidando de mim, isso foi o período entre 1988 e 2007 para mim.

Bom, mas milagres acontecem, né? De repente, no dia 18 de Maio de 2007, me deu vontade de acordar. Despertei do coma, o que surpreendeu a todos. E... eu fiquei muito assustado com o que eu vi! As enfermeiras usavam cabelo curto e pouca maquiagem! Pareciam garotos! Aquele cabelo encaracolado e o excesso de batom não estavam presentes nas enfermeiras... fiquei assustado.

- Em que ano estamos? - primeira coisa que consegui perguntar.

- 2007 - respondeu, simpaticamente, uma enfermeira.

O quê? Estamos no terceiro milênio? O mundo não acabou? O que aconteceu nesse período? Acho que voltar e perceber que tudo tava meio diferente foi a parte mais estranha da recuperação.

Meus amigos vieram me visitar. Que estranho! O Ricardo barrigudo! Fred careca? A Camila já estava na menopausa... meu pai! Senti falta do Ulisses, mas me contaram que ele foi para a Alemanha. "Pra qual das duas"? Me assustei quando contaram que só havia uma Alemanha.

Saí do hospital 1 mês depois. E... que horror! Os carros estão redondos, parecem discos voadores! Não voam, mas parecem! Os prédios e placas estão mais coloridos. Telefone agora tem 8 dígitos, antecedidos de algo que eu não tinha conseguido entender: 0 (xx) 11. A Telesp não existe mais. Telefone agora é barato. Inflação baixa, uau. Refrigerante é servido em latinha. Dinheiro, agora, se chama Real. Jogador de futebol bom se chama Ronaldinho. Senna morreu. Lady Di morreu, o comunismo morreu. Michael Jackson parece uma mulher que sofreu queimaduras no rosto. Rolling Stones, Madonna, Raul Gil, esses continuam. Que merda... O mundo virou de cabeça pra baixo!

Agora eu tô conseguindo me acostumar um pouco mais. Mesmo assim, as pessoas estranham:

  • Quem é Cindy Lauper?
  • Não, não tem mais comerciais da Hollywood porque propagandas de tabaco estão proibidas faz tempo.
  • Hahaha, não, a União Soviética não existe mais. Agora, são vários países.
  • Por que você se assustou com atrizes seminuas na novela das 7? Até parece que você não é dessa época, hehe.

Mas o mais frustrante foi uma descoberta, em uma conversa com um amigo da faculdade:

- Então, eu queria prosseguir com o meu projeto de criar uma rede de informações por computadores.

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA.

- O que foi?

- Sinto dizer, cara, já existe!

- Como assim?

- Nós chamamos de Internet.

- Uma rede de informação onde cada um poderia enviar informações para computadores em vários lugares do mundo? NÃO DIGA!

- É, faz isso e até mais coisas. Pode-se enviar músicas, vídeos, mensagens pessoais.

Não acredito! Roubaram a minha idéia! Alguma pessoa conversou comigo enquanto eu estava no coma e roubou a idéia!

Broxante. Agora, eu trabalho na loja de, olha só, celulares de um amigo meu, como vendedor. Preciso retomar a vida, né? OK, já sabia o que eram celulares, em 1988 eu lia muito e sabia que telefones móveis eram comuns no exterior. Mas o que é o celular de hoje? Bluetooth? MP3? Câmera de 1.3 MP? Browser? Isso é um celular ou um foguete da Nasa? Pra mim, celular é o que você usa para telefonar e ponto final. Pior que, quando eu vendo, e o cliente me pede um aparelho com MP3, eu ainda me confundo: "o que é MP3 mesmo, desculpe?" e o cliente me olha com cara assustada.

Bom, hoje eu sou um cara meio perdido a tanta tecnologia, correria e profissionalismo. Ah, essa é a minha história de vida. Bom, agora vou descansar um pouco, ir assistir ao Chacrinha. Ops... esqueci, ele já está morto. Merda. Preferia não ter acordado...

Chacrinha morreu... - parte I

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Sabe a história de Adeus, Lênin, que a mãe fica em coma por muito tempo e, quando acorda, está tudo diferente? Pois é. Adeus, Lênin foi uma das primeiras coisas que me mostraram quando acordei. Sim, eu estive na mesma situação da mãe.

Meu nome é Richard Velloso, hoje estou com... quantos anos? Deixe-me ver, nasci em 1966... exato, estou com 41 anos. E, desses 41, eu não vi 19 anos passarem. Fiquei vegetando entre 1988 e 2007. Minha vida nesse período foi mexer os olhos, me alimentar por sonda e, eventualmente, ouvir alguma enfermeira falando. Um porre! Pior que ouvir Carpenters!

Como eu disse, nasci em 1966, aqui mesmo, em São Paulo. Meu pai era diretor de uma filial do Banespa e ganhava muito bem. Mamãe costurava, cozinhava e sonhava em ter uma TV à cores para assistir às telenovelas da Tupi. Nós éramos bem de vida nos conturbados anos 70: papai tinha um Galaxie e até mamãe dirigia uma Variant. Enquanto isso, ficava jogando meu Atari importado. Varava a noite jogando Enduro e Pac-Man!

Os anos 80 foram aquela coisa que todo mundo conhece: danceterias, roupas coloridas, cabelos gigantescos e música new wave. Eu usava camisa rosa, calça azul claro, sapato e dançava YMCA como ninguém! Tinha uma vida legalzinha, até. Em 1984, passei no vestibular da USP e fui fazer Engenharia da Computação. Sempre gostei dessas coisas de tecnologia e computadores e tinha um sonho: fazer uma rede de computadores, que interligasse as informações! Seria um máximo! A informação sairia, por exemplo, dos EUA e chegaria em pouco tempo no Brasil! Já tinha decidido: era meu projeto de final de curso, interligar computadores para transmitir informação em tempo real.

Em 1988, ganhei um carro do meu pai. Um Escort XR3 zero! Quantas pessoas naquela época não desejariam um? Minha vida tava ótima, tinha o melhor carro do Brasil, podia sair com qualquer menina e faltavam apenas dois anos pra acabar o curso! Fui estrear a caranga lá na Avenida Paulista, com alguns amigos.

Foi aquela história: um cara, de 22 anos, com um carro esportivo, alguns amigos bêbados, andando na Paulista às 10h30 da noite com chuva não poderia dar muito certo. Na mosca: o carro derrapou e bateu de frente em um relógio patrocinado pela Marlboro. Maldito cigarro! O relógio atravessou o vidro e acertou JUSTAMENTE a minha cabeça.

(continua...)