Nerval Antunes, artista plástico, quarenta e dois anos, filho de uma família rica pernambucana. Planejava uma exposição, mas teria de convencer o dono da galeria que ele merecia. Uma coisa Nerval sabia, mais até do que pintar quadros: é preciso bajular quem vai te garantir dinheiro.
Nem seria tão difícil assim: o marchand estava interessado e até tinha pedido para dar uma visitada na casa do artista.
Nerval ficou tenso, mas se animou. Arrumou a sala o quando podia e bagunçou o estúdio o quanto podia, para dar a impressão que trabalhava bastante. Selecionou os quadros e esculturas entre os "melhores" (para apresentar ao marchand), os "bons" (para irem para a galeria) e os "ruins" (para mandar para a tia, orgulhosa, que morava hoje no Rio de Janeiro). Decidiu que o grande trunfo seria um armário de bebidas bem farto. Comprou todo o tipo de destilado, um pouco de vinho e, para garantir, algumas latinhas de cerveja. Preparou alguns beliscos chiques para acompanhar.
E, então, o marchand, chegou. Nerval só tinha falado com ele pelo telefone. Pela voz parecia um sujeito empolado, alguém suficiente empolado para trabalhar numa galeria de arte. Mas quando chegou, era um moço de seus trinta anos, sufocado por uma gravata amarela e um terno caro, mas - não tem outra palavra - feio. Eficiente, rápido e o pior: não bebia.
O artista ficou estarrecido: pedira um marchand e viera um... "gerente"!

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