O Gerente

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Nerval Antunes, artista plástico, quarenta e dois anos, filho de uma família rica pernambucana. Planejava uma exposição, mas teria de convencer o dono da galeria que ele merecia. Uma coisa Nerval sabia, mais até do que pintar quadros: é preciso bajular quem vai te garantir dinheiro.

Nem seria tão difícil assim: o marchand estava interessado e até tinha pedido para dar uma visitada na casa do artista.

Nerval ficou tenso, mas se animou. Arrumou a sala o quando podia e bagunçou o estúdio o quanto podia, para dar a impressão que trabalhava bastante. Selecionou os quadros e esculturas entre os "melhores" (para apresentar ao marchand), os "bons" (para irem para a galeria) e os "ruins" (para mandar para a tia, orgulhosa, que morava hoje no Rio de Janeiro). Decidiu que o grande trunfo seria um armário de bebidas bem farto. Comprou todo o tipo de destilado, um pouco de vinho e, para garantir, algumas latinhas de cerveja. Preparou alguns beliscos chiques para acompanhar.

E, então, o marchand, chegou. Nerval só tinha falado com ele pelo telefone. Pela voz parecia um sujeito empolado, alguém suficiente empolado para trabalhar numa galeria de arte. Mas quando chegou, era um moço de seus trinta anos, sufocado por uma gravata amarela e um terno caro, mas - não tem outra palavra - feio. Eficiente, rápido e o pior: não bebia.

O artista ficou estarrecido: pedira um marchand e viera um... "gerente"!

Muito barulho para...

Continuação de "Muito Barulho para quê?"

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Durante doze longos dias os vizinhos do 515 tiveram que suportar um barulho de lataria sendo remexida e um cheiro forte de alguma tinta pesada. Durante doze longos dias, viram um monte de peças de ferro, pano, algumas caixas grandes e pneus entrando no 515. Mas nada saiu de lá.

Durante um mês, os vizinhos do quinto andar ficaram tentando espiar para dentro do 515 para ver o que raios tinha feito o Nerval Antunes. Até que um dia, quando Nerval estava abrindo a porta para uma amiga entrar com ele, a menina do 516 saiu de casa e viu tudo.

Nerval Antunes, artista plástico, tem um Fusca dentro do seu apartamento. Ele desmontou todo um fusca, remontou a lataria, sem as portas, e pintou psicodelicamente. Os bancos agora estão estofados e servem de sofá. Atrás, no lugar do motor, ele colocou um pequeno bar.

Curioso, mas não deixa de ser criativo. No meio da sala do apartamento 515 tem um fusca.

Muito barulho para quê?

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Durante doze longos dias os vizinhos do 515 tiveram que suportar um barulho de lataria sendo remexida e um cheiro forte de alguma tinta pesada. Durante doze longos dias, viram um monte de peças de ferro, pano, algumas caixas grandes e pneus entrando no 515. Mas nada saiu de lá.

Nerval Antunes, um artista plástico, filho de uma família rica pernambucana, vive hoje confortavelmente no Itapetininga com uma renda vinda sabe-se lá de onde. Levemente arrogante, mas nem por isso antipático, nunca chegou a conversar muito com os vizinhos embora sempre comentasse com alguém quando montava uma exposição de suas obras - principalmente pinturas, mas às vezes alguma escultura em ferro - ou então quando vendia alguma.

Mas desta vez entrou um monte de entulho e nenhuma obra saiu. E desta vez ele não comentou nada. Depois de doze longos dias, os vizinhos procuraram descobrir o que ele tinha feito tão ruidosamente.

Mas desta vez, nenhuma informação, nenhuma pista. Nerval percebeu a curiosidade alheia e resolveu fazer mistério.

Agora mantém a porta fechada.