Pérolas às vacas II

O porque das pérolas... E das vacas...

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Desde o episódio da polenta, a Geise e o Valdilson não se falaram mais. Foi quase uma semana sem comentários sobre a economia ou o casamento. Aliás, esses dias o Valdilson nem assistiu ao Jornal Nacional e as jantas só tinham o barulho dos garfos raspando nos pratos.

Dia onze, um dia antes do que prometia ser mais um dia insoso para eles, Geise limpando a casa encontra a fatura do cartão de crédito do marido:

H.STERN JOA PARCELA 1/10 R$306.75

Meu Deus! Em um segundo, Valdilson passou de magrelo, corcunda e resmungão a marido cavalheiro, bonito, romântico... Que dava uma jóia de 3 mil reais para a esposa!

Geise era só alegria. Deitou no sofá e ficou se imaginando com um pedra de diamante no pescoço, desfilando diante das vizinhas embasbacadas. O que seria? Diamantes? Rubis? Ouro branco? Ahh...

Ela resolveu preparar uma janta especial (sem pimenta) afinal... Afinal, era H.Stern!

O marido chegou e não entendeu nada. A casa limpa, a janta bem servida em bandejas lustradas, a esposa penteada...

Foi um jantar bom. Ela oferecia mais lasanha o tempo todo, com um sorriso no canto da boca. Ele meio constrangido, sorria, mostrando os dentes amarelados.

Foram dormir mais cedo, com boa noite e beijo na testa. Até de mãos dadas...

O Valdilson saiu para trabalhar cedo e o dia da Geise estava mais radiante. O céu mais azul, o sol mais brilhante, os pássaros cantavam mais feliz... Ok, sem exageiros. Ela tirou do armário o vestido justo vermelho, que não usava há muito tempo. foi ao cabeleireiro e decidiu que não jantariam em casa aquela noite.

Bem, ele chegou perto das oito horas, com um embrulho quadrado nas mãos (seria uma caixa de jóias?) e viu a esposa como há muito não via... Vestido vermelho sexy, salto alto, maquiagem... Apressou-se em dar-lhe um beijo e entregar o presente:

- Feliz dia dos Namorados, Gê!

Ah, como ele era lindo! Ela sempre soube, por trás daquela carranca de contador havia um belo homem! (Ok, contenhamos os exageiros...)

Ela se fingiu de surpresa e chacoalhou o pacote:

- O que será, o que será? - Era pesado... Que jóia seria aquela?

Qual não foi sua surpresa ao tirar o papel e encontrar um... Ponto de Impacto do Dan Brown. Ela desconfiou que fosse um daqueles livros falsos, mas não encontrou jóia nenhuma dentro. E olhou com aquele sorrizinho para o marido:

- Ah, benhê. Fala sério... Cadê?

- Cadê o que? Não gostou...?

- Gostei... Mas... Ah, você sabe, seu bobo!

- Não sei. Você queria outra coisa, é?

- Ahhh... Você não vai me fazer pedir, vai?

- Uai... Pedir?

- Já sei... Você quer que eu faça o cafuné gostoso antes, né? - (Cenas patéticas)

- Bom, você pode até fazer... Mas... Meu presente é...

O sorriso da Geise se transformou numa expressão de decepção e desconfiança.

- Val, fala sério. Eu vi... Você sabe que eu não sou muito paciente, né, amor?

- Eu não sei o que foi que você viu, pô... Eu só sei que eu não vi janta nenhuma, isso sim...

- Valdilson Nunes... Não brinca mais comigo, já encheu, pô.

- Geise Nunes, eu não sei mais o que te dizer, caramba. Pára de coisa. E diz, a gente vai jantar ou não??

- Tá, tá, tá... Entendi, porra. Mas me conta quem é a vaca, então?

Valdilson não respondeu nada, ligou a TV.

A Geise foi pra cozinha e colocou o livro no microondas, potência máxima.

- A janta tá no microondas, eu vou sair e não sei que horas volto.

- Feliz dia dos namorados pra você também, mal agradecida.

Pérolas às vacas I

Os porquês...

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A Geise tem um casamento, por excelência, capenga. São 14 anos de monotonia (monotonia, não confunda com monogamia) comendo a mesma comida, com o mesmo tempeiro feita nas mesmas panelas.

O marido dela tem cara de coitado. É o Valdilson (e nome de coitado). É magrelo, meio curvado, de poucas palavras e poucos cabelos. Contador desde que se entende por gente.  Desde de 1993 ganha o mesmo salário, volta pra casa no mesmo horário, beija a esposa no mesmo lugar, liga a TV pra ver o JN (que diga-se de passagem também é o mesmo desde 93) e comenta a mesma coisa: "Esse país não tem mais jeito."

Esses dias, no meio do jornal:

- Meu Deus, esse país tá perdido! Que roubalheira!

- Valdo... Não é só o país.

- Ahn? Ah, é, acho que o mundo todo, né?

- Não, porra. É a gente. É essa merda aqui.

- Do que cê tá falando, mulher?

- Tô falando de você, de mim, dessa coisa de casamento, dessa porcaria de jornal, dos seus comentários... Da sua frieza. Sei lá, isso aqui é um saco! - Jogando o pacote de Tio João no chão.

- Ué, mas quem tem que esquentar a relação é a mulher, ué. Sabias palavras do Nelson: "Não é o marido que perde o interesse e sim, a mulher que perde o que há de interessante." - Nelson é o amigo bêbado e solteiro do Valdilson.

Eles foram dormir aquela noite sem nem aquele "boa noite" sem graça e automático.

No dia seguinte tudo ia ser igualzinho, mas...

- Porra, o que é que você botou nessa polenta, Geise?! - Tossindo.

- Ah, aquela pimenta mexicana que você comprou...

- Putamerdameu... Mas você virou o vidro todo aqui! 

- Mas... Mas... Não era a mulher que tinha que "esquentar as coisas", bem?