Dona Eunice e os ratões - Terceiro ato

Sem uva, por favor.

Acompanhe esta história. Leia também: ,

A sobremesa foi tão indigesta quanto o almoço, agravada pelo Guaraná quente e pela Marta, que não parava de chorar e soluçar.
Tânia encheu a tigela com as frutas e serviu também o filho.

Por azar, na tigela de Ricardo foram parar praticamente todas as uvas da salada. Na primeira colherada, ficou vermelho e sem ar. Começou a tossir muito. Desespero total.

"Leva pro hospital!", "Dá sal e açúcar!", "Faz ele vomitar!". O menino caiu da cadeira, puxando a toalha e levando tudo pro chão.
Dona Eunice trouxe água tônica.

Duas horas depois, o menino estava deitado no sofá com a cabeça no colo da mãe, cheio de manchas vermelhas. A avó estava terminando de recolher a louça destruída. TV ligada, passava Raul Gil.
Rolando estava lendo a parte de esportes no jornal. Geraldo, comendo alguns bombons. E a Marta, ainda soluçando, não deixou de lado as provocações, falando para si mesma:

- E tipinho de gente, não consegue nem cuidar do próprio filho.
- Pelo menos esse tipinho de gente teve filho, né? - Respondeu Tânia, prontamente.

Geraldo interveio:

- Tá bom de as duas pararem, né? Já estragaram o almoço todo, ahn?
- É, e você com sua caixinha de bombons ajudou muito! - Contestou Tânia.

Rolando desligou a televisão.

- Marta, você não vai falar?
- Começa você, Rô...
- Tá bom, vai.

Olhou para Dona Eunice, que estava apoiada na mesa, assistindo à TV:

- Mãe, é... A gente precisa falar de uma coisa séria.
- Diga, pode falar.
- Então, a gente veio aqui hoje, primeiro porque é dia das mães, né? E também porque a gente precisava se juntar pra discutir sobre esse apartamento, né?
- Esse apartamento? Como assim?
- Ah, mãe, né... É claro que a gente jamais quer pensar nisso, né? É difícil falar... Mas...
- Hmmm... É sobre o testamento? Pra quem eu vou deixar o apartamento?
- É, mãe... A senhora sabe que uma hora todo mundo parte, né? Mas a família fica, né?

Dona Eunice desejou, naquele momento, que todos fossem alérgicos a uva.

Dona Eunice e os ratões - Segundo ato

A última coxa do frango

Acompanhe esta história. Leia também: ,

Apesar da comida estar ótima, uma nuvem negra pairou sobre a mesa durante o almoço todo. Ninguém queria assumir a culpa.
As trocas de olhares fulminantes, o silêncio que só era quebrado pelos garfos raspando nos pratos.

Dona Eunice só pôde comer a salada de palmito, por causa da diabete. Os outros, em poucos minutos, devoraram tudo.
Sobrou uma única coxa de frango. Geraldo ia colocando o garfo para pegá-la no mesmo momento em que Marta teve a mesma idéia.
Os dois se olharam. E falaram juntos (ambos com má vontade):

- Pode ficar.
- Pode ficar!

E juntos novamente:

- Tá bom.
- Tá...

Garfaram ao mesmo tempo. Geraldo tirou o garfo e empurrou a bandeija para perto de Marta, que aceitou de bom grado.

Ricardo, o filho da Tânia, foi rápido na observação:

- Nossa mãe, a tia Marta é gulosa, né?
- Filho, não fala isso. Que feio.
- Mas foi você quem disse, mãe!
- Cala boca, nunca que eu falei isso... Come quieto aí, vai.
- Falou sim, manhê! Lembra aquele dia que ela foi lá em casa e comeu a torta...

Tânia deu um beliscão na perna do menino. E comentou:

- Não liga pra ele não, Marta. Ele fala muita bobagem.
- Ah, Tânia, eu sei que você sempre falou isso. Você adora falar dos outros pelas costas. E sempre me chamou de gorda, gulosa...
- Eu não falo de ninguém, você que fica com essas futricas aí.
- Tá bom então, santinha...
- Se bem que algumas verdades têm que ser ditas, né?
- Vai, sua encalhada. Que adianta ser magrinha e não conseguir segurar nem um marido...
- Não se mete, sua baleia mal casada.

Marta levantou de sopetão, segurando as lágrimas e correu para o banheiro. O ar na mesa ficou mais pesado ainda.
Para quebrar o silêncio, Dona Eunice pegou a salada de frutas.

- Quem quiser chantily, tem na geladeira.

Dona Eunice e os ratões - Primeiro ato

Dia das mães no 313

Acompanhe esta história. Leia também: ,

Já sabemos que os filhos de Dona Eunice não têm o costume de visitá-la. Ela finge que não se importa. Ela finge. E sempre com aquele sorriso no rosto, não deixa transparecer uma certa angústia.

Nas festas, no Natal, na Páscoa, no aniversário dela, ela fica, como quem não quer nada, rodeando o telefone. Senta e fica olhando para ele. Verifica a tomada e se tem sinal de linha. Não liga a TV para caso ele tocar, ela ouvir.
Senta e levanta mil vezes. Vai até a janela e volta.

E passa o dia todo assim, andando de um lado para o outro, esperando alguma coisa que no fundo ela já sabe que não vai acontecer. E fica tentando convencer a si mesma de que todos tiveram um bom motivo para não telefonar...
Talvez um neto doente, a linha cortada, trabalho. Mas ela sabe que não é nada disso.

Mas o sábado passado foi uma surpresa. Lá pela hora do Jornal Nacional, alguém resolve ligar. Voz grossa no outro lado da linha. Ela não sabe se é o Rolando, o Geraldo ou a Tânia. Mas a felicidade é imensa:

- Alô.
- Alô, mãe?
- Oi. Quem tá falando?
- É a Tânia, mãe.
- Ah, oi minha filha! Que surpresa. Tá tudo bem?
- Tá sim, mãe. O Ricardo pegou catapora mas já passou.
- Tadinho dele...
- Mãe, a gente tá combinando de ir almoçar aí amanhã... A senhora acha que dá?
- Claro minha filha. Vem todo mundo?
- Acho que sim. Só o Rolando que ainda vai ver. Mas acho que vai todo mundo.
- Que maravilha. Venham sim, tô com saudade de vocês.
- A gente também. Ah, e não se preocupa com a comida, a gente vai levar tudo.
- Tá bem... Acho que vou só fazer aquela saladinha de fruta que todo mundo gostava.
- Hmmm... Só não coloca morango e uva, porque o Ricardo é alérgico, tá?
- Tudo bem minha filha, tô esperando vocês!
- Tá bom então, mãe. Até amanhã, um beijo.
- Beijo. Tchau.

Ah, Dona Eunice não pôde esconder a felicidade. Depois de tanto tempo, enfim, a família junta de novo.
Em pouco tempo arrumou a casa toda e colocou a toalha mais bonita na mesa (manchada de calda de abacaxi desde o Natal de 96).

Ela só não acreditou muito na idéia de que eles iam cuidar do almoço. Lembrou-se de quando os quatro, ainda jovens, resolveram lhe preparar o café da manhã e colocaram fogo na cozinha.
Por via das dúvidas, passou o dia todo cozinhando: frango recheado, lasanha à bolonhesa, salada de palmito e salada de frutas (com uva).

No domingo, o primeiro a chegar foi o Geraldo. A contribuição dele para o almoço? Uma caixa de bombons Nestlé (para uma senhora diabética, talvez a melhor opção...).
Depois chegaram juntas a Marta (que trazia uma garrafa de Guaraná) e a Tânia (com um pote de gelatina de limão), que já vinham discutindo desde o elevador:

- Mas Marta, você tinha ficado de trazer o prato principal! Eu fiquei com a sobremesa.
- Ah, mas você sabe como minha vida é corrida, eu não consegui parar um segundo. Foi difícil até ir no Pão de Açúcar comprar esse refrigerante, poxa. E eu pedi pro Rolando cuidar do principal.
- Espero que ele se lembre, senão a gente vai almoçar gelatina e guaraná...

Cerca de uma hora depois, chega o Rolando, sujo de farinha e carregando... Uma caixa de bombons, da Garoto:

- Gente, desculpa. Eu tentei fazer um prato bom, um rocambole de atum, mas desandou tudo. Aí como tava muito em cima da hora, só deu pra pegar esses bombons. Pelo menos a sobremesa tá garantida, err...

Todos se entreolharam, mal estar geral.
Na mesa? Só sobremesas. Duas caixas de bombom, gelatina e refrigerante.
Quando todos já pensavam em qual restaurante ir e quem iria pagar, Dona Eunice traz os pratos, quentinhos e cheirando muito bem.

Dona Eunice e os ratinhos

Éramos seis versão Itapetininga

Acompanhe esta história. Leia também: ,

Dona Eunice é uma velhinha baixinha, bem magra e no auge dos seus 86 anos não aparenta mais que 65. Tem muita disposição e energia, pelo menos bem mais que seu marido Antônio, de 71 anos, vítima de um derrame, que não sai da cama.

Apesar de todo esse vigor, Dona Eunice sofre de algumas doenças. O diabete não lhe permite mais comer docinhos da Padaria Atlântida, um de seus poucos vícios. Essa mesma doença prejudicou sua visão e, assim, assistir aos programas do Sílvio Santos - uma paixão - tornou-se algo complicado.
E a asma já não permite que ela freqüente o bingo.
Seja por qual motivo for, agora podemos dizer que Dona Eunice é uma pessoa sem vícios.

Nada disso influencia no humor da velhinha, sempre com um sorriso e um bom dia em voz baixinha. Diz ela que o melhor remédio que ela tem é a paciência. Nunca se irrita, sejam com as aplicações de insulina, com o elevador quebrado ou com os ratinhos no armário, os únicos que fazem barulho no apartamento.

Além disso, Dona Eunice sempre foi de situação, sempre votou no candidato que ganhou, nunca reclamou da economia mesmo quando tinha que ir para as filas para comprar carne ou manteiga. Nunca se opôs a ninguém e também não foi a favor.

Ela trabalhou até os 68 anos e criou seus quatro filhos: a Marta, mais velha, hoje advogada formada em instituição particular, o Rolando, filho do meio, 56 anos, asmático e professor de matemática, o Geraldo, 51 anos, participante profissional de concursos públicos e contador nas hora vagas e a Tânia, filha mais nova, cinqüentona solteira com um filho gay.

A última vez que Dona Eunice falou com um dos filhos foi no Natal de 2006, quando Geraldo ligou pedindo dinheiro para consertar o carro quebrado.