No lugar errado

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Dona Mª Eugênia, muito conservadora, voltando de uma noitada no bingo, aborda uma mulher negra que entrava no elevador social:

- Minha senhora, o elevador de serviço é aquele ali.
- Ah, muito obrigada. Vou avisar aos meus empregados!

Bons pecadores

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José Antônio Cardoso é filho de família importante do interior de São Paulo (Campinas), daquelas que possuiam fazendas, armazéns e escravos e que perderam tudo nas corridas de cavalo.

Ele é católico apostólico romano praticante e orgulhoso de sê-lo. Vai à igreja todo domingo, paga o dízimo, não come carne na sexta-feira santa, reza antes das refeições, faz o sinal da cruz quando passa em frente à igreja, é contra o aborto, o divórcio e o casamento de gays e, sinceramente, acha que as missas deveriam voltar a ter partes em latim.

É funcionário público federal, trabalha no INSS e em mais de vinte anos de carreira nunca fez greve e sequer faltou um dia sem justificar. A boa colocação, graças aos anos de estudo em colégios salesianos e posteriormente na PUCC, lhe confere o status de classe-média, os bons cidadãos que pagam impostos e se sentem ludibriados pelo governo.

José também é de extrema direita, ultra conservador, desde sua juventude, quando denunciou para o DOPS colegas da universidade que planejavam atacar o fórum da cidade.
Paulista convicto, ainda defende a idéia de São Paulo como locomotiva do Brasil e acha que o excesso de migrantes nortistas atrapalha o desenvolvimento do estado.

Além de tudo, é culto, lê a Folha, O Estado de São Paulo, Carta Capital, Veja e, recentemente, gostou da Piauí.
Ouve Wagner, música francesa, Chico Buarque e Tom Jobim.

Hoje, aos quarenta e tantos anos, divide um luxuoso apartamento no Itapetininga com a mãe, Dona Maria Eugênia Cardoso, senhora de distanta elegância, católica fervorosa e viúva de General do Exército Brasileiro (o que lhe garante uma gorda pensão vitalícia).

Ambos freqüentam o teatro, bons restaurantes, ouvem música clássica e acordam tarde no domingo.
São cidadãos de indubitável moral.

José tem um carro luxuoso, boas roupas, situação financeira confortável mas mesmo assim morre de inveja do vizinho judeu, o Shlomi. Principalmente por causa da bela Elisa.

A mãe dele (!) nunca encontrou uma mulher que estivesse à sua altura (física, moral, intelectual e econômica). O maior medo da Dona Mª Eugênia é que seu filho seja vítima de alguma vigarista atrás de dinheiro fácil ou que ele saia de casa. O fato de José ser extremamente arrogante, de ares rompantes, também afasta futuras companheiras.

Isso o leva a freqüentar casas noturnas, em busca de alguma vagabunda (aquelas mesmas que ele tanto pragueja contra) para satisfazer suas perversões e tão muquirana quanto o vizinho, José sempre tenta pagar menos do que a prostituta cobra.

Enquanto ele se refestela nos bordéis da cidade, a mãe satisfaz sua gula nas lojas de chocolate, seu maior vício depois do bingo.