Platonismo

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Faz 24 anos que meu marido morreu. Ou melhor, daqui a 8 dias. 20 de Junho de 1983. Nós morávamos em Presidente Prudente, ele tinha um emprego bom lá, éramos felizes. Mas, naquele dia, estava começando a chover forte, e eu pedi pra ele pegar as roupas no varal. Ele saiu. Um raio acertou a cabeça dele. Ficou uns dias em coma e morreu. Tudo isso por mim.

Desde então, não posso dizer que sou feliz. Sim, meus filhos cresceram, são saudáveis e estão estabilizados na vida (um é engenheiro, a outra faz pós-graduação na Inglaterra. Mas desde que a Lolita, a minha filha mais nova, saiu de casa, eu vivo sozinha, cozinhando pra mim e assistindo ao Vale a Pena Ver De Novo.

Bom, a minha vida ainda não acabou. Na verdade, desde que eu me mudei para cá, há 6 anos, eu amo. Ai, ai, meu coração pulsa quando eu penso nele. Não há marcapasso que segure! Ai, ele é um pão, um charme.

O nome dele eu descobri em uma reunião de condôminos: Hans Chinela. Esquisito o sobrenome dele, né? Deve ser porque ele é estrangeiro. E que pão!

O Hans mora aqui do ladinho! Que sorte a minha! Desde a primeira vez que o vi, passo todos os dias com os ouvidos nas paredes e com o olho no olho mágico. De vez em quando, bato na porta dele pedindo farinha de trigo ou coisa assim. Adoro quando ele rosna pra mim! Ui! Ele é tão difícil...

Meu cotidiano depende do dele. Quando eu acordo, vou direto ao olho mágico ver ele se agachando e pegando o jornal e as revistas! É emocionante! Tem horas que ele fala sozinho e a voz dele é tão bonita! Pena que eu não entendo nada... imagina ele cantando uma música do Roberto Carlos pra mim com aquela voz... ai, ai.

Ele passa o dia todo dentro de casa. De vez em quando, ele grita algumas coisas. Não consigo entender. Queria muito saber russo para entendê-lo. E o melhor é quando ele sai de casa, todo bem vestido. Ele, além de charmoso, bonito e com uma voz, se veste maravilhosamente bem!

Pena que o Hans não presta atenção em mim. O que acontece? Sou uma mulata bonita, muitos homens ainda olham pra mim. Talvez ele seja tímido... mas nesse dia dos namorados, não tem como ele escapar.

Deixei uma carta no tapete da casa dele. Eu escrevi em folha de caderno mesmo. Tem alguns erros de português e a minha letra não é tão bonita, mas ele não vai se importar. Nessa carta, eu disse que ele tinha uma admiradora secreta e que ela estava mais perto do que ele imaginava. Ele vai ler e vai gostar. E nós ainda vamos ficar juntos.

E eu ainda vou agarrar aquele braço lindo com aquela tatuagem de cruz. E vou lavar aquela roupa, daquela grife que ele usa, qual o nome mesmo? Ah, sim, SS. Esse dia ainda vai chegar... ele não vai resistir à mulatona aqui.