Chucrute Apimentado

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Um dos moradores mais antigos e mais enigmáticos do Itapetininga é Hans Schmitthelm, um velhinho de 87 anos. Apesar da idade já avançada, Hans é um morador lúcido, ativo e... nazista. Exatamente. Nazista. Não é brincadeira, pelo fato dele ser alemão, não: ele é LITERALMENTE nazista. E destes patológicos. Pode-se dizer "é a idade", mas Hans sempre foi assim.

Ou melhor, nem sempre. Hans nasceu em Stuttgart, em 30 de Abril de 1920. Filho de um padeiro e de uma enfermeira, Hans teve uma vida confortável e normal. Seu único (e definitivo) contratempo foi um acidente que matou seu melhor amigo, seu cãozinho Warze, em 1931. O cachorro foi atropelado por um vizinho, que era judeu. Hans não superou a perda de seu companheiro de aventuras e jurou vingança. A partir deste episódio traumático, Hans virou outra pessoa, de personalidade soturna, deprimida e antisocial.

Com a popularidade crescente de Hitler e a propaganda antisemita que se espalhava pela Alemanha, Hans começou a se simpatizar com o Partido Nazista. Agora sim, aqueles judeus malditos iriam pagar pela morte de Warze! Aos 14 anos, Hans entrou na Juventude Hitlerista e começou a receber treinamento militar. Aos 18, já estava lutando pela Alemanha contra todo o resto do mundo. Ajudou a capturar vários judeus (inclusive, e para seu deleite, seu vizinho e toda a família dele) e torturou alguns pessoalmente. Mesmo assim, ele não se conseguiu se sentir satisfeito: a luta antisemita passou a ser um estilo de vida, que deveria ser seguido religiosamente.

A vida seguiu assim até 1945, com o suicídio de Hitler. Enquanto muitos colegas seus foram presos ou mortos, Hans conseguiu escapar, indo para a Suíça. Lá, ficou por 6 anos, escondido em Gênova. Em 1951, decidiu se mudar para um lugar mais seguro, no Hemisfério Sul. Acabou escolhendo o país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, o Brasil.

Foi uma decisão controversa na cabeça de Hans: ao mesmo tempo em que fugia dos julgamentos na Europa, teria de conviver com essa gente imunda e inferior dos trópicos. Foi uma vida difícil, pois Hans chegou aqui sem conhecer a língua e os costumes. Até hoje, não conhece língua e costumes direito. E o alemão não escondia de ninguém que não gostava do Brasil: vivia emburrado, resmungando em Alemão, implicando com negros, mestiços e narigudos em um português medonho. E o pior é que nem era levado a sério ("coitado, a derrota da Alemanha fez esse cara pirar"), o que o deixava mais irritado.

Hans se mudou para o Itapetininga em 1977. Estabeleceu-se em um apartamento de um quarto, meticulosamente arrumado. Em seu interior, fotos de seu führer, seu uniforme da SS exibido como troféu, uma foto sua com uma espingarda e vários desenhos da suástica. Sua vida era tranquilamente patética até a chegada de uma família nova, os Rosemann, que eram judeus, para desespero de nosso pobre nazistinha. É óbvio que Hans não poderia mostrar sua identidade, mas era desesperador quando Shlomi dizia bom dia, ou pior ainda, quando o gato de Shlomi, o Youssef, saía e dava umas voltas pelo andar, tirando uma soneca no tapete da porta de Hans. Hans odiava e era alérgico à gatos. Isso quando os filhos metaleiros de Shlomi não decidem tocar alguma barulheira. Incomodava os vizinhos, mas incomodava muito mais nosso "querido" Hans.

Assim como a maioria dos moradores de certa idade do prédio, Hans é um velho decrépito e solitário. Mas tem uma admiradora secreta. Matilde Santos é uma moradora do apartamento ao lado, o 1813, igualmente solitária e decrépita. Todos os dias, ela fica no olho mágico, vendo Hans reclamando, pegando o jornal ou jogando o lixo fora. É óbvio que Hans não sabe, e nem pode saber, pois Matilde é negra e descendente de ciganos...

E assim a vida de Hans segue. Ele passa o seu resto de vida crente de que Adolf Hitler está vivo (acredite!) e que a raça ariana ainda dominará o mundo. Ele acredita que, um dia, o Brasil, assim como o resto do mundo, falará a língua alemã. E que ele irá se vingar pelo seu cachorrinho morto. E que ele irá se livrar daquela família horrível de judeus fedidos e nojentos, principalmente daquele gato asqueroso. E ele grita isso em voz alta e dá risada que nem um vilão de desenho animado!!

Até que algum vizinho bata na porta e grite "seu velho caquético"!