Drama consumista

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Dia dos namorados! Que dia fofo! Namorados trocando presentes, abraços, beijos e farpas! Lojas vendendo a granel e shoppings lotados!

Hoje era um dia especial para Vitória Marques. 21 anos, estudante de Letras, cabelo ruivo, olhos claros, sardas, jeito de fadinha feliz. Era o primeiro dia dos namorados para ela, garota extremamente tímida. Gosta de ler, escrever e jardinagem. Seu namorado, que ironia, é Jessé Luis, 23 anos, aluno de fisioterapia, músculos, piercings, músculos, careca e músculos. Gosta de videogame, futebol e Playboy. Os pais de Vitória desaprovam o namoro, mas o amor, ah, o amor, é mais forte do que isso.

Eles se encontram no apartamento de Vitória. Como nenhum deles era exatamente endinheirado, passariam o dia dos namorados vendo filme e comendo pipoca. O problema é na hora do presente:

- Jessé?

- Fala, amor.

- Você vai ter de adivinhar o que eu comprei pra vocêêê...

- Nossa, olha o tamanho dessa caixa!

- Pois é.

- Deixa eu balançar.

- Aham!

- Nossa, o presente não parece grande. Acho que você tá tentando me enganar, haha.

- Hehehehe.

- A propósito, tenta adivinhar o meu.

- Puxa, que embrulho fofo. Ursinhos! E a caixa também é bem grande!

- Parece pequeno... é o DVD do Clube da Luta, Vi?

- Nããããão, hehe. Vai tentando adivinhar.

- É o CD do Racionais MCs!

- Er, não.

- Puxa, que será que é? E o meu, amor, adivinhou?

- Bom, o presente me parece grande o suficiente para estar nessa caixa. É aquela estátua do Buda que a gente viu no shopping?

- Que estátua? Que bunda?

- Deixa pra lá. Não é CD, não é livro, só se for um enfeitinho.

- Iiih, passou longe, meu amor. É bem mais legal do que isso!

- Puxa, desisto, não sei o que que é. Mas adivinhou o meu?

- Parece bem pequeno. Será que é um CD de Playstation 2?

- Nããão, amorzinho, é bem melhor!

- Bom, eu não faço idéia, amor.

- OK, vamos abrir.

- Juntos, Vi?

- Juntinhos.

Os dois abrem.

Vitória ganhou, veja só, um Total Shape, da Polishop. Sim, aquela maquininha que você envolve no abdômen para tonificá-lo. Sem cartão.

DESTINO DO PRESENTE: está guardado. Bem guardado. Tão bem guardado que Vitória nem se lembra dele mais. Só foi lembrado no dia em que seu pai o encontrou e comentou "esse cinto é meio esquisito, não é?"

Jessé ganhou, veja só, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Acompanhado de cartão bonitinho.

DESTINO DO PRESENTE: teve melhor uso: serve como calço para a cama de Jessé. Sorte que Vitória nunca percebeu isso. O cartão, bem, foi jogado no lixo em um descuido qualquer.

O namoro continuou muito bem depois disso. No ano seguinte, aconteceu dos dois terem comprado caixa de bombons. Terminaram a noite com ele colocando um bombom na boca dela e vice-versa. Aaaah, o amor...