- Alô?
- Poderia falar com o Hugo Arantes?
- Olha, moço, não mora nenhum Hugo aqui não.
- Não mesmo, senhora?
- Não, não mora, não.
- Hum... qual é o seu nome?
- Quê?
- Seu nome, senhora.
- Que história é essa?
- Não, nada. É que... deixa pra lá.
- Pode me contar o que está acontecendo?
- Nada (snif), não quero incomodar a senhora (snif) com meus problemas.
- Você está chorando?
- (snif) N-não, não se preocupe.
- Meu filho, conte o que está acontecendo. Quem sabe eu não possa ajudar?
- Eu... só precisava de alguém para conversar...
- E o tal do Hugo?
- Ele é um... (snif)... desculpe, é que ele está doente, doença grave, e eu gostaria de dar a minha força a ele, até porque ele vinha me ajudando muito a superar uma fase difícil da minha vida.
- Fase difícil?
- É, sofri um acidente de carro com meus pais em 1997, quando tinha 15 anos. Eles morreram nesse acidente e eu fiquei em coma até o ano passado. Quando acordei, não tinha ninguém, pois toda a minha família era de Palmas e meus pais e eu vieram para cá para conhecer o Sudeste.
- Nossa, e como você está se virando?
- Morei nas ruas por um mês. Nesse período, conheci uns caras nas ruas. Esses amigos posteriormente me colocaram na casa de uma velhinha que parecia ser simpática. Nesse período, conheci ela...
- Ela?
- Gabriela era o nome dela. Morena de olhos verdes e cabelos esvoaçantes, que ficavam ainda mais lindos no vento. O sorriso dela era espetacular, desses que justificam acordar e abrir a janela para se ter um novo dia. Ela era o crepúsculo e a aurora pra mim.
- Que bonito um homem dizer isso de uma mulher! Meus parabéns!
- Mas ela... (snif)... (snif)... ela... depois de quatro meses em que nos encontrávamos nos fins de semana, ela me disse que gostava de outro. E que eu era só diversão para ela...
- Que horror! Que sirigaita!
- Por mais que isso tenha me machucado, eu ainda amava ela. E ainda tinha uma esperança, ainda que ínfima, de ter ela para mim...
- Entendo...
- Só que um dia, descobri que Gabriela tinha morrido. De desgosto. E o pior é que era por causa do cara com quem ela estava. Ela amava ele, dava tudo por ele, só que ele não retribuía, maltratava, batia nela, saía com outras. Era um desgraçado!
- Meus pêsames, meu jovem.
- Desde então, sofro de depressão profunda. Já tentei fazer besteira várias vezes, mas eis que apareceu o Hugo e ele me deu uma força grande. Só que ele tá com uma doença grave e... eu me sinto abandonado!
- Coitado!
- Pior que estou sendo quase expulso da casa onde estou pela velhinha. Ela me maltrata, não me deixa comer ou usar o banheiro e me xinga o tempo todo. Ela já pegou um prato de jantar que eu estava comendo e deu pro cachorro dela... agora, eu só estou usando o telefone porque ela não está.
- Meu jovem, por favor, qual é o seu nome?
- Eu me cham... ops... não... e...
O telefonema caiu. Dona Veridiana passou três dias seguidos insones e pensando no pobre anônimo, esperando uma ligação de volta.

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