- A minha história? Eu acho ela engraçada, porque é ao contrário... Mas é só o comecinho que é diferente, depois ela fica normal. É que quando a gente pensa em doméstica é sempre assim: ela veio lá do norte, aqueles estado ali, sabe? Paraíba, Ceará, Bahia - Acho que tem Maranhão também, né? - trabalhar pros patrão aqui no sul, né, em São Paulo.
Só que eu que sou de São Paulo e minha patroa que veio de lá... Ela é - como chama? - natalense, isso. É, ela veio lá de Natal pra trabalhar aqui, no sul. Só que ela tinha estudo. Acho que o pai dela era doutor lá. Então, aí dona Ana - é assim que ela chama - estudou medicina pra ser... otoriligogista, aí, é aquele médico que cuida da orelha e da garganta, sabe? Aí ela veio pra cá, pra trabalhar lá no Hospital das Clínica. Pra mim é bom, porque às vezes ela consegue marcar uma consulta bem rapidinho pra mim... Lá no postinho do meu bairro demora muito, nunca tem o médico.
Que nem eu falei, minha história só é diferente até aqui, porque ela veio de lá e eu, daqui. Acho engraçado o jeito que a dona Ana fala... É que nem minha vizinha, só que ela é do Ceará. As duas fala "bichinho", mas pra falar de gente...
Eu num estudei muito, porque como meu pai foi embora de casa, eu fui trabalhar bem cedo... Pra ajudar minha mãe criar meus irmão, que era tudo mais novo. Eu tinha nove irmão... Só que dois morreu bem pequinininho ainda e uma foi pra Itália, agora eu tenho seis - quer dizer, ainda são sete, porque a que tá na Itália ainda é minha irmã, né? Num é porque ela tá em outro país que num é mais minha irmã, sabe? - Essa aí, a que tá na Itália, é a Romualda. Ela deu sorte... Conheceu um moço lá no restaurante que ela trabalhava e ele era de lá e apaixonou por ela... Acho que é porque minha irmã tem um bundão, sabe? Eles vão casar agora, numa cidade lá... Acho que chama Milhão.
Só que como eu num tenho bundão, nem estudei, tive que vim trabalhar em casa de família... Vixe, eu já perdi as conta de quanta casa eu trabalhei. Até pra gente famosa, sabe? Aquela moça que tá na Record agora e também um outro rapaz, que trabalhou no Programa do Ratinho. Aí, né, eu já trabalhei nos Jardins, no Higienópolis, no Pinheiros - lá foi em três casa - e, nossa, mais um monte de lugar. Agora eu vim aqui no Centro... É melhor porque é menos condução que a gente tem que pegar.
Ahh, peraí, eu num falei, né? Mas eu sou casada... Meu marido trabalha lá em Diadema, numa firma que faz vidro de carro. E eu tenho três filha, a Nayla Karina, a Sheila Stephanie e a Rebecca Jennifer - eu gosto dos nome delas, sabe? É porque quando elas for gente importante quando crescer, vai ficar com nome bonito, né? Imagina... Doutora Rebecca Jennifer... Nossa, parece aquelas moça de filme, né?
E voltando pro meu trabalho, eu sempre fui doméstica, sabe? Uma vez eu trabalhei numa firma de limpeza que limpava mercado e shopping, num gostei não. É mais fácil limpar banheiro de casa que tem uma privada só... Lá no shopping, era umas vinte. Aí até o ano passado, no comecinho, eu trabalhei pra um moço que morava sozinho aqui no prédio, só que ele foi embora, trabalhar lá num outro país... É, na... Como chama aquele que tem nome de chocolate? - Depois eu vim aqui pro apartamento da dona Ana.
O ruim é que ela mora aqui no primeiro andar... Faz muito barulho, tá ouvindo? E também entra muita poeira... É porque é pertinho da rua. Dá pra ouvir até o moço que fica gritando ali na porta da loja. Eu tenho que tirar pó todo dia quase... Dona Ana é alérgica.
Ah, eu falo só da minha patroa porque é mais ela que fica em casa e fala comigo... Mas ela é casada com o patrão, o seu Geoberto, ele trabalha na Bastremp, que faz as geladeira, sabe? Aí eles tem a Juliana que é a menina mais velha e estuda na faculdade já, ela vai ser arquiteta, pra construir casa... Aliás, desenhar as casa, porque quem constrói é o pedreiro.
E também tem o Léo, é Leonardo o nome dele, mas a gente aqui chama de Léo. Ele ainda é novinho, tá na terceira série, é bem esperto... Fala até inglês já. Ah, também tem o Nico... Mas ele é o cachorro, mas mora aqui também, né? Aí eu não sei se conta... Ele que faz companhia aqui pra mim, à tarde. Às vezes vem a Nilzete, que trabalha ali no cento e doze... A gente conversa um pouquinho, mas só um pouquinho, porque nosso serviço num para, né?
Falando em serviço, eu tenho que ir ali terminar o almoço da dona Ana, ela vem comer em casa hoje... Pediu pra fazer um peixe que eu nem sei como é o nome... Acho que é vernuza. Ela só come peixe, sabe? Tem dó das galinha e dos boi que morre pra virar bife. Eu só acho que ela devia ter dó dos peixe, porque eles também é gente, né? Não, gente não, bicho...

Delicious
Digg
Reddit
Magnoliacom
Newsvine
Furl
Facebook
Google
Yahoo
Technorati
Assine nosso RSS
Comentários recentes
11 semanas 13 horas atrás
12 semanas 6 dias atrás
13 semanas 16 horas atrás
14 semanas 23 horas atrás
17 semanas 6 dias atrás