Sabe aquele poema da Cecília Meireles que tem em toda cartilha do pré-primário?
Arabela
abria a janela
Carolina
erguia a cortina.
E Maria olhava e sorria:
"Bom dia!"
Arabela
Foi sempre a mais bela.
Carolina
a mais sábia menina.
E Maria apenas sorria:
"Bom dia!"
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"
Dona Raquel leu esse poema na sua primeira cartilha e suas filhas ganharam esses nomes.
Mas as personalidades não são exatamente condizentes com o pequeno poema.
As duas mais velhas (Arabela e Carolina) têm 17 anos, são gêmeas e nasceram albinas,
portanto, não chegavam perto da janela por causa do sol e Maria sofre
de enxaqueca crônica, por isso acorda mau humorada e passa o dia
reclamando.
Agora, o pior é a falta de educação de suas filhas.
As duas mais velhas, são duas patricinhas insolentes e mesquinhas. Usam a desculpa da pele sensível pra sairem todas as noites em infinitas baladas. Gastam toda a mesada em roupas e acessórios psicodélicos.
Quando a mãe pergunta por mais tempo em família elas respondem, de forma grossa e aos berros:
- Nós não somos como você que formou família aos 16 anos! Nós temos direito de aproveitar nossa idade!!
Isso machuca Dona Raquel que ficou muito alegre com a chegada das meninas e conseguiu seguir profissionalmente mesmo com dois bebês em casa.
Maria é pior ainda. Com as dores de cabeça se tranca no quarto.
Mas ela não fica lá por dor de cabeça... A enxaqueca, crônica, passou quando ela completou 12 anos. Agora, aos 15, ela diz que está com dor de cabeça pra poder se isolar no seu quarto com as revistas de adolescentes e ouvir as músicas que seus amigos virtuais lhe mandam no último volume no fone de ouvido.
Às vezes Raquel tenta entrar no quarto pra dar remédio pra filha, mas ela tranca a porta e finge que não ouve (e na maioria das vezes não é fingimento) e diz, no dia seguinte, que tinha pegado no sono quando a mãe a procurou.
Os únicos momentos que a família tem unida é quando Seu Alceu, pai das meninas, marido de Dona Raquel e jornalista que escreve para uma revista de turismo, volta de viagem trazendo presentes e a família toda se reúne na mesa.
Raquel, apesar de tudo, é uma mulher feliz. Ela se considera uma pessoa realizada, que não tem muito, mas o suficiente: um marido bom, três filhas lindas, um belo apartamento de três quartos, um Celta prata do ano na garagem e um bom emprego no RH de uma empresa de tecnologia.
Ela só se sente realmente triste e incompleta quando lê o poema na sua cartilha velha anotada com uns garranchos infantis.

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