"29 de outubro... É meu aniversário, mais um aniversário; ou um ano a menos de vida, depende do ponto de vista. Quando eu era pequeno, ficava impaciente... Esperar um ano todinho quase para o meu aniversário?! Ah, as festas, os presentes (convenhamos, mesmo aquelas meias listradas que as tias davam eram legais). Eu era viciado em brigadeiro, sem granulado.
Até completar dezoito anos, a espera pelo meu aniversário era dura. E me lembro do pior ano, 1975 ou 74, quando esperava pelos meus 18! Ah, carro, universidade, exército, mulheres! No fim, foi só o exército mesmo, que dureza! Teve uma namorada também, mas prefiro nem comentar.
Aí já não estava tão ansioso para chegar aos 19, muito menos aos 20... Acho que era uma espécie de crise da metade da meia-idade. Aquela velha história de ser novo demais para algumas coisas e velho demais para outras. Meu pai achava que eu ainda era muito novo para ir de carro (ah, que nostalgia... Aquele Simca Tufão!) até Santos e minha mãe, por sua vez, quase me batia quando ia jogar bolinha de gude com meus primos: - Mas Alberto! Você já está quase em idade de casar e formar família, e ainda brincando de fubeca?! - Ah, Dona Diolina, que Deus a tenha!
Veio o trabalho no banco, camelar oito horas por dia, mexer com zilhões de cruzeiros, cruzados, sei lá (tudo bem que não valia grande coisa) e ganhar aquelas moedinhas no fim do mês... Veio também a faculdade... Direito eu larguei, fiz Administração, quase arrisquei Processamento de Dados, mas achava que não ia ter muito futuro; espertinho, não? Talvez hoje eu pudesse ganhar um pouco mais de dinheiro, ou tivesse saído do banco. Só sei que quando eu reparei, já estava batendo na porta dos trinta.
Naquele tempo, lá pra oitenta e sete, eu ria dos meus colegas de trabalho que estavam se casando: "Casar? Só depois de ter conhecido o mundo o todo e saído com todas as gatas da cidade" - eu brincava. Dito e feito, não me casei. Tá, também não conheci o mundo todo: só Buenos Aires e Santiago, por 4 noites, excursão de sacoleiros pro Paraguai e 5 dias em Roma (a única promoção que ganhei na minha vida, acho que de uma pizzaria). Ah, também não saí com todas as gatas da cidade. Aliás, nem com todas do bairro, nem do prédio...
Por falar em prédio, eu moro neste aqui desde que nasci... É, me conforta saber que pelo menos ele é mais velho do que eu. O apartamento é o mesmo... As únicas coisas que mudaram foram a pintura da sala, por causa do mofo e também a vista, que acho que mudou em noventa e poucos, quando fizeram esse prédio aqui na frente, desde então vejo a mesma cortina azul, bem de frente pra minha janela.
Bem, quando eu completei 38 ou 39, me senti meio sozinho. Até pensei em casar, mas a barriga de chopp e esses cabelos a menos não me ajudaram muito. E novamente a história de ser velho ou novo demais ao mesmo tempo. As garotas por quem me interessava me chamavam de tio e as garotas que se interessavam por mim, bem, essas eram mais velhas que minhas tias.
Quando fiz os tais quarenta anos, achei que fosse morrer. Exame de próstata? Meia-idade? Ficar pra tio? Meu aniversário passei sozinho num bar na beira da estrada perto de Belo Horizonte, meu carro quebrou antes que pudesse chegar na casa de uns parentes. Na volta pra São Paulo, me comprei um cachorro. O Golias. Ficou só duas semanas comigo, não sei, acho que eu era chato demais até para ele... Só sei que um dia saiu pela porta dos fundos e nunca mais voltou.
Quarenta anos, menos dinheiro e cabelo do que eu pretendia, mais dívidas e dores nas costas do que eu queria. Mulheres? Nem como esposa... Ah, mas e o possante? Um monza, quase tão velho quanto eu. Bem, passei os cinco outros anos pensando em como minha vida era boa dez anos atrás. Quando acordei, poxa, 45! Se eu fosse um etíope, já teria superado a expectativa de vida do meu país.
Acho que meus quarenta e seis anos merecem um capítulo especial. Foi quando me promoveram a gerente da minha agência. Era a agência mais diabólica de todas, ao mesmo tempo tinha a maior quantidade de usuários e o menor volume de dinheiro, poxa, coisas da periferia, não? O importante é que eu ganhava mais... E, enfim, pude trocar de carro. Estou andando de Fiat Siena desde então. Andando? he he he...
Mais salário, mais trabalho. Ah, menos cabelo, mais cigarro. Férias? Vinte dias em Santos, com alguns colegas do trabalho... Se choveu? Por exatos dezenove dias: o sol raiou para nos dar tchau.
Bem, acho que o tempo compreendido entre os quarenta e sete e os cinqüenta e nove é perdido, nada mais que uma contagem regressiva para o dia da aposentadoria. Talvez possa me dar por feliz por chegar na beira do precipício, digo, dos sessenta, sem diabetes, osteoporose, dor no fígado... Só um resfriado esporádico.
Só não estou livre dos malditos cinqüenta! Ah, e eu que ficava me imaginando com cinqüenta... Parecia que nunca ia chegar, mas chegou... E olha, que grande co...
Peraí, estamos em 2007?!
[contas]
Ah, ufa! Hoje é meu aniversário, mas de 49 anos! Acho que vou beber para comemorar...
Ops, esqueci do antibiótico."
- Alberto Gomes da Cruz, 50 anos, é o quinto morador mais antigo do prédio.
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