Seja bem vindo ao Itapetininga, um prédio residencial e comercial localizado em alguma cidade grande do sudeste brasileiro. Para acompanhar uma seqüência de histórias ou alguém em especial, clique no número do apartamento ou escritório para ler as histórias
Ana Rosa
Acompanhe esta história. Leia também: 6º andar, Apartamento 616
- Ana Rosa!
Ana Rosa tinha o nome da estação de metrô e todo dia pegava a linha verde. Estava acostumada a não ligar quando ouvisse o seu nome, devia ser a estação. Era sexta-feira, fim de tarde, e o vagão estava cheio.
Não é muito comum encontrar as pessoas conhecidas aqui em São Paulo. "A cidade é grande demais, e encontrar gente certamente não é comigo", pensou. Ela está terminando o terceiro ano de geografia na USP e nunca encontrou um conhecido por acaso na rua. "Só em barzinho e em shopping. E na USP. Mas nenhum desses conta. Conta?"
- Ana Rosa!
"Bah. Preciso começar a ir de ônibus". Ela estava lendo, não olhou para a cima.
- Ana Rosa! Aninha! Menina!
"Êpa. É comigo.", ela olhou para cima e viu uma moça loira, uns seis anos mais velha que ela, acenando.
- Aninha, chamei a atenção do vagão inteiro antes de você notar!
- Meu Deus, Júlia?
Júlia era a vizinha da Ana Rosa lá em Bagé. Duas filhas únicas, a Júlia adotou a Ana como irmã mais nova. "Uma graça de pessoa" era uma frase que parecia ter sido feita para Júlia. Mas um dia ela foi estudar em São Paulo e nunca mais tiveram contato.
- Aninha, que bom, que bom, que bom te ver!
Se abraçaram. Atualizaram as notícias, trocaram os números de celular.
- Eu te convidaria para ir em casa, mas tá uma bagunça. República, sabe, Júlia? Não teria como...
- Entendo, entendo, não estou em melhores condições, mesmo, estou me mudando. Mas a gente marca um bar, a gente se liga quando a gente chegar em casa.
(Não se ligaram naquela noite, uma ficou esperando a outra e de qualquer maneira estavam muito cansadas.
Talvez se falem neste final de semana)
Quando saiu do vagão, sozinha, Ana Rosa pensou um pouco sobre o acaso. Estava sorrindo. "Desta vez vou ter que agradecer a esta cidade!"
Metrô
Acompanhe esta história. Leia também: 6º andar, Apartamento 616
Ana é por causa da mãe da mãe, que mora lá em Bagé e o Rosa, acredite, é porque quando ela nasceu era toda cor de rosa... Mas, peraí, se for assim, todo bebê deveria ter rosa depois do nome, né? Lúcia Rosa, Gabriela Rosa, Jurandir Rosa, Marcos Rosa... Deixa pra lá.
Ana Rosa. Nem é feio, bonitinho até. Ana Rosa Silva. Silva, Silva, Silva... Afinal, de onde vem isso? É italiano, só pode. Talvez seja indígena, é tão brasileiro. Se bem que a amiga equatoriana dela é Silva também. Tá bom, tá bom, é quase Silba...
O único problema é com a estação de metrô. Poxa, logo Ana Rosa? Quem era essa tal de Ana Rosa? Outro bebê rosa? Mais uma Silva? Será que ela gostou da homenagem? Sei lá, estação de metrô. É tão chinfrim. Se fosse um museu, uma avenida de 5 quilômetros, vai saber... Não importa. É que por causa causa dessa Ana Rosa (a do metrô), a Ana Rosa daqui tem um apelido, no mínimo, estranho. Metrô.
Amigos desnaturados. Começou na sétima série, hoje ela já está no 3 ano de Geografia e continua a mesma coisa.... "Metrô, você vai no churras?", "Metrô, terminou o trabalho?", "Vem cá, metrô". Até a mãe entrou na onda: "Mamãe tava preocupada, metrô".
Logo ela, que nem usa metrô. Prefere andar a pé ou pedalar na contra-mão da rua. Caminha 30 minutos pro trabalho, mais 25 pra faculdade e depois mais uns 40 pra voltar pra casa. Quando tá chovendo, pega ônibus... O metrô para longe demais.
Andar é gostoso e saudável. A Ana Rosa tem vários jeitos pra andar... Pulando os ladrilhos azuis da calçada, contando os passos, se equilibrando no meio-fio, dando nomes para as pessoas que cruzam seu caminho ou, quando rua está livre, andando de costas.
No domingo ela foi na casa da tal amiga equatoriana, que mora na Liberdade. Um pouco longe pra ir a pé, ônibus no domingo é dose... Sobrou o metrô. Entrou na estação - que não era a Ana Rosa - ficou observando os outros passageiros enquanto aguardava o trem.
Poxa, um garoto segurando um cão-guia (esses que guiam os cegos e que são os únicos animais autorizados a entrar no metrô) e lendo uma revistinha. Cão-guia? E lendo uma revista, que nem em braile é? Suspeito. Do outro lado, nada demais, uma velhinha simpática comendo aquelas pipocas de saquinho roxo... Mais à frente, um senhor lendo os cartazes na parede.
Depois, uma outra meia dúzia de transeuntes, nada especial, a não ser o judeu com barba grande e chapeuzinho: Como chama mesmo?".
Ela ficou observando aquelas pessoas, por uns cinco minutos e pensou consigo mesma: "Ah, até que o metrô é legal. Bem legal."
"Ah, e se eu me chamasse Armênia, além de ser nome de estação de metrô, também seria de um país... Armênia, Geórgia, Guiana... É, Ana Rosa, é legal."
Los paraguadjos
Acompanhe esta história. Leia também: 6º andar, Apartamento 611
Sonhar, ter pesadelos, é normal. É normal sonhar com o mundo acabando, com a namorada ou o namorado, com muito dinheiro. E geralmente o sonho tem conexão com algo que se passa ou se passou no dia.
Este já não é o caso da Luciana. Estudante, solteira e brasileiríssima. Brasileiríssima? É! Filha de mãe carioca e pai paulista, adora arroz com feijão, banana, salada de alface, carnaval, cerveja e praia. Sim, tudo bem... Mas e daí?
E daí que Luciana, desde os 12 anos, todas as noites invariavelmente, sonha que é a Primeira-dama do Paraguai. Logo ela, que nem sabia que o Paraguai era na América, nem que tinha um presidente e muito menos uma primeira-dama, oras.
Vários presidentes passaram pelo Paraguai (e várias primeiras-damas) desde que ela sonha com isso. Mas nada mudou para Luciana. Ela continua se vendo nos sonhos sempre ao lado de um bigogudo com chapéu mexicano (!), inaugurando turbinas de Itaipú ou passeando pelas ruas da capital (que ela nem sabe que é Assunção).
Na última noite, ela despertou ao som da banda que tocava o Hino do Paraguai na frente do palanque onde ela estava ao lado do presidente.
São rosas, são rosas!
Como diziam os professores de latim: rosa, rosam, rosae, rosae, rosarum. Mas na Lutti Idiomas, que também aluga o 602, não se dá aula de latim, e sim daquelas línguas típicas: inglês, espanhol e francês. Vez ou outra, conseguem formar uma classe da alemão.
Mas voltemos às rosas. Como dizia Dorival Caymmi, "rosas, rosas, rosas formosas. Rosas a me confundir". Estávamos no intervalo da aula de inglês, estão as vinte pessoas na classe, todas entre seus 17 e 20 anos.
Chega o funcionário da Lutti e pergunta para a classe:
- Quem é Mariana?
A Mariana (ah, então esse era o nome dela?) se identifica, não sabe para quê. Uma chave perdida, um carro mal estacionado? Não. Ele entra com um gigantesco buquê de rosas. Com um cartão.
"Todos querem muito bem a rosa", mas não a Mariana. Pela cara que ela fez, é de algum ex-namorado de quem ela não quer mais saber. Alguém chato o suficiente para te fazer receber um buquê de rosas no meio de uma aula!
O ex-namorado, acho, não foi muito feliz. As rosas, o que fazer com elas? As amigas, esquecendo a situação e o remetente, só ficaram admirando as rosas vermelhas. Mariana não teve dúvida: começou a distribuir as rosas todas. Na história, nem a professora ficou sem uma rosa. E as amigas ficaram um pouco encabuladas em ficar com o presente de outra pessoa
- Ah, mas a rosa... Você vai me dar, assim? Mesmo? Elas são tão bonitas, por que você não fica?
- Eu não! Vai que tem macumba...
- Haha! Se é assim, então, muito obrigada, mesmo!
- Não, você não está entendendo. Eu é que te agradeço!
Ela odeia feriados
Acompanhe esta história. Leia também: 6º andar, Apartamento 613
Márcia mora no apartamento de 2 quartos que o ex-marido lhe deixou no testamento por engano, com seu novo (mas bem novo mesmo) companheiro, o policial militar Jurandir.
Mesmo com 56 anos, ela não teve vergonha nenhuma ao assumir seu romance com o policial 21 anos mais novo, ignorando até as atrocidades ditas pelas vizinhas: "Ele tem idade de ser neto dela!", "Ah, ele só tá com ela por causa do dinheiro".
O que Márcia mais odeia são os feriados. Principalmente os feriados prolongados, quando alguns batalhões da capital são destacados para o litoral, entre eles, o do marido dela.
A idéia de traição com alguma sereia encantada do Guarujá está deixando-a louca.

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