Profissão Economista

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Alberto Delgado, formando em economia, chamado para entrevista na B3 Recursos Humanos.

- Alberto Delgado, aqui de São Paulo mesmo?

- Isso.

- Certo, Alberto. Vamos ver seu currículo... Hum, bom. Bom, bom. Economia, formado em 99. Na USP. De onde veio seu interesse por economia, Alberto?

- É coisa de família. Meu pai era economista, trabalhou no governo... Meu vô também foi.

- Ah, seu pai trabalhou para o governo, que interessante. O que ele fazia?

- Ele foi do Ministério da Fazenda, no governo do Sarney. Depois pra alguns bancos, como o Banco Nacional, o Bamerindus...

- Sarney? Hmmm... Bom, mas falemos de você. Aqui diz que você fez estágio, né?

- Fiz sim. No último semestre eu estagiei na administração do Mappin.

- Ah, do Mappin? Aquela rede de lojas que fa... digo, que encerrou as atividades?

- É, eles fecharam uns 4 meses depois do meu estágio, aí eu fui pra Transbrasil.

- Ah, você também estagiou na Transbrasil?

- Só peguei o finalzinho dela, em 2001. Logo depois eu fui pra outra empresa do mesmo setor, a VASP.

- Certo. Aí depois da faculdade você fez pós, certo?

- Foi pelo programa de intercâmbio da universidade. Fiz pós em Buenos Aires, na Argentina.

- E você ficou uns seis meses lá... Daí que você aprendeu o espanhol, suponho.

- Isso mesmo.

- No mesmo ano você teve outra vivência no exterior, pelo que diz aqui no seu currículo.

- É, eu fui selecionado no programa de trainee da Enron, nos Estados Unidos.

- E qual é a atuação dessa empresa lá? E o seu cargo?

- Era uma das maiores empresas de energia lá dos Estados Unidos. A sede era no Texas. Eu trabalhei em Houston, no QG deles, na área de contabilidade.

- Era uma das maiores? O que aconteceu?

- Ah, lá pra 2001, 2002, teve um escândalo financeiro... Eu não fiquei muito a par, porque meu setor foi dissolvido na empresa... Foi por causa desse escândalo que a empresa abriu falência.

- Hmm, claro... Acho que é tudo por ora. Olha, Alberto, seu currículo é excelente. Inglês, espanhol, francês. Vivência no exterior e em processos de concordata. Assim que obtivermos um retorno, contataremos você, tá bom?

Assim que o candidato saiu, a entrevistadora virando-se para seus colegas de trabalho:

- Pessoal, tem um candidato ótimo aqui. Algum dos nossos clientes está em processo de falência?

Simpatias de Ano Novo IV

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- Pai? É o Bernardo...
- Fala, filhão! E aí, decidiu sobre a viagem?
- Sim, sim...Eu e a mamãe vamos descer amanhã. A Flávia, minha namorada, e a família dela também vão.
- Ah e vocês vão ficar com eles? - dava pra perceber pela voz do pai de Bernardo que agora que Adriana também iria pra praia ele preferia ficar longe deles.
- Com você, ué! O apê da Flá já tá lotado. Mas eu preciso do seu endereço pra te encontrar aí...

Bernardo anotou o telefone e voltou pro quarto.Cinco minutos depois de fechar a porta ela se escancarou e Adriana jogou uma sunga branca na cama do filho. Só fazia uma semana que tinha se separado de Carlos e já parecia a velha Adriana com enxaqueca, irritada e mal-educada.Nessas horas o garoto pensava se deveria ou não investigar o picareta do futuro-padrasto.

 

No dia seguinte desceram a serra no Civic vermelho de Adriana na companhia de Dona Lucrécia e Flávia e alguns lanchinhos e farofas pra comer na ceia de Ano Novo.
Flávia e a avó ficaram no apartamento da família, logo na entrada da cidade enquanto Adriana e Bernardo seguiram até o centro, no chalé de Jaime.

Era um chalé espaçoso de 4 quartos, 3 suítes, salão de jogos, churrasqueira e uma bela varanda com algumas redes na entrada.
Jaime saiu sorridente no portão, abraçou Bernardo e cumprimentou Adriana com a distância de um desconhecido. Foi até o Honda tirar as malas enquanto Adriana ficava medindo centímetro por centímetro o jardim do chalé.

- Adriana, você não tem usado muito o carro, né?
- Por que você tá perguntando isso?
- Já faz algum tempo que não me chegam contas de mecânicos por conta de batidas, hahahahaha!
- Jaime, me poupe de suas delicadezas e brincadeiras, tá bom? Você pode andar mais rápido com essas malas? Minha enxaqueca está voltando e estou louca pra ir me deitar.

- AAAAAAAAAH! SOCORRO! LADRA! - Adriana gritou quando abriu a porta do chalé para que Jaime e Bernardo pudessem entrar com as mãos carregadas

Simpatias de Ano Novo III

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- Bernardo! Até que enfim! Seu sumiço já tava me dando dor de cabeça!
- Mal por não ter avisado, mãe. Tava na Flávia resolvendo as paradas de Ano Novo...
- Ah, filhinho! - Adriana fez questão de fazer cara de choro - Você vai mesmo viajar e deixar a mamãe sozinha?
- Ah, então, acontece que o pai ligou, também. Vou passar o ano com ele em Praia Grande. A Flávia também vai pra lá com a família dela, mas o apê deles já tá cheio.
- Ah, Bê...Você tá sabendo dos casos de água-viva por lá, né? Eu acho melhor você não ir! Sem falar que a mamãe não quer ficar aqui sozinha...Nem o Carlitinho tá aqui pra me fazer companhia! - a voz voltou a ficar chorosa.
- Bom, o papai sabia que você ia mesmo fazer drama...Ele te convidou pra descer, também...
- O SEU PAI ME CONVIDOU PRA VIAJAR COM VOCÊS? Mas ele não fazia isso nem quando éramos casados!
- Pra você ver como ele tava de bom humor...
- Ah, aí tem! E eu vou descobrir!
- Então, tá, mãe, vô arrumar as coisas pra descer e acho bom você fazer o mesmo logo, antes que o pai pense que nós não vamos...
- Mas e se o Carlitinho ligar, Bê?
- Ele não liga desde que viajou e vai ligar agora? Presta atenção, né?
- Ele disse que ia pra uma fazenda de um tio distante na ceia de Natal...Lá não deve ter telefone e nem sinal de celular, filhinho.
- Pois é. E onde ele deve passar o Ano Novo também não. E qualquer coisa ele liga no seu celular, vai...
- Ah, é verdade! Ele pode me ligar bem a meia noite no celular e enquanto o céu se enche de cores, eu vou ouvir aquela voz sexy bem no meu ouvidinho...
- MÃE! Me poupa, né?
Bernardo saiu da sala e foi pro quarto separar a roupa de banho e as outras roupas que levaria.
A mãe correu pro supermercado para comprar vários cachos de uva pra comer à meia-noite.

Simpatias de Ano Novo II

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- BÊ! - Flávia se agarrou no pescoço de Bernardo.
- Oi, Flá! Bebê, como ficou o negócio do ano novo?
- Ah, Bê...Eu ia te ligar a noite pra falar sobre isso...Miou o lance
de você ir com a gente pra praia - Flávia fez uma voz manhosa que quase
derreteu a alegria de Bernardo ao saber que poderia viajar sem magoar a
namorada - O apê da mãe vai lotar! Minha vó resolveu convidar as amigas
da Associação da Terceira Idade pra ir com a gente! Acredita, môzinho?
Agora o meu bebê não vai mais jogar as flores pra Iemanjá...
- Que pena, Flá...Mas as flores e os pulinhos tão parcialmente garantidos! - dessa vez Bernardo se sentiu no direito de sorrir - Meu pai ligou dizendo que tá em Praia Grande e quer que eu desça!
- Praia Grande? Você tá brincando, né, morzinho?! - mais um pulo sufocante no pescoço de Bernardo - O nosso apê também fica lá!!!
- Sério, môr? - Bernardo não podia acreditar em tanta sorte de uma vez só! Poderia passar o ano novo com o pai, a namorada, a família super legal da namorada e, com um pouco de sorte, com a mãe!

Ele ficou na casa de Flávia até escurecer. Assistiram Street Fighter na Sessão da Tarde. Bernardo foi então para a batalha final: a mãe.

Simpatias de Ano Novo I

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- Alô?!
- Bernardo? Filho?
- Pai?!
- Filhote! Como vai? Tudo bem?
- Sim, tá tudo bem, pai...
- Filhão, desculpa não ter te levado na casa da vó no Natal...O pai foi viajar! Tô falando agora aqui da Praia Grande...
- Viajando com os amigos?
- Ah, não exatamente...Mas isso é algo que eu quero te falar pessoalmente, hahaha
- Hum...
- Filhão, quer vir pular as 7 ondinhas esse ano novo?
- Como?
- É, filho! Estou ficando num chalé enorme! Achei que você ia preferir passar o Natal com a sua mãe e o ano novo comigo, já que ela é mais ligada em Natal em família e tal...
- Ah, pai, eu não sei...O namorado da mamãe viajou e eu não quero deixá-la sozinha! E tem a Flávia, também...Ela tava falando de me levar pra descer a serra com a família, já...
- Bom, filhão, conversa direitinho e liga no celular do papai. Se quiser...Bom...Se quiser... - ouviu-se um suspiro do outro lado do fone - Se você for se preocupar muito, pode trazer a sua mãe!
- Uau! Essa é novidade! Hahaha! Tá bom, pai.
- Falou, filhão! Fui!

Bernardo desceu a escada, pegou a bicicleta na garagem e foi falar com Flávia. Ele nunca tinha passado ano novo na praia e no mesmo ano tinha dois convites!
E o do pai era realmente especial. Fazia anos que seu pai não o convidava pra nada além de ir na casa da vó ou comprar o seu presente de aniversário. Por isso foi à casa de Flávia, ver como estavam os planos de ano novo e pra onde iriam, se fosse o caso.

 

Natal... em família?

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Bernardo sempre teve horrores a feriados. Isso significava tentar comemorar algum dia com sua mãe, Adriana, reclamando o tempo inteiro.

Esse Natal era o primeiro que eles iam pasar junto do namorado novo da Adriana, o picareta do Carlos. Picareta pelo menos é o que o Bernardo achava dele.

- Mas você vai viajar no feriado de Natal, com a sua outra namorada! - disse a Adriana, gracejando para o Carlos, no dia 19 de dezembro. E isso era significativo: a Adriana raramente tinha gracejado alguma coisa na sua vida inteira.

No final das contas, ele anunciou dois dias depois que ele iria passar o Natal com a família, em Goiás. Ninguém sabia que ele tinha uma família em Goiás e ele não especificou a cidade. Uma tia mudou para lá, depois trouxe junto a mãe do Carlos quando o pai dele morreu. História longa, aborrecidíssima, e seria melhor a Adriana nem ir porque seria muito chato e ele só está indo mesmo porque... Além de tudo, coitado do Bernardo, não merece passar o Natal numa cidadezinha (não especificada) de Goiás só porque... etc.

Pois é. Não acaba por aí a história. Quando soube disso, a namorada, agora a namorada do Bernardo, Flávia. Quando a Flávia soube disso tudo, mandou que o Bernardo levasse a mãe dele para jantar fora no dia 24 e que fosse mesmo e num lugar bom porque ela (a Flávia) ia junto.

Foram todos - namorada, filho e a mãe que estava sem o namorado - num restaurante de massas. Comeram pouco, pediram o que nenhum dos três gostava, pagaram demais, tiveram problemas com o vinho e com o estacionamento.

Foi alguma coisa pelo menos. E pelo menos tiveram no dia 25 um bom almoço, agradável, no 1416, da Dona Lucrécia, a avó da Flávia.

Frida e Fridinha

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Frida Kahlo é uma das habitantes do Itapetininga. Ela é pintora, usa uma grande monocelha e tem uma história de vida meio atribulada.

Não, não é a Frida Kahlo que você está pensando. Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, a verdadeira, nunca pisou no Itapetininga.

Frida Kahlo Dornelles, a falsa, é uma das pessoas mais frustradas que existem no Itapetininga, considerando que o edifício é o antro de pessoas insatisfeitas. O estranho é que sua frustração não ocorre porque ela é feia, solitária, pobre ou os três ao mesmo tempo, mas por simplesmente não ser Frida Kahlo. Vale notar que a escolha do nome veio pelo fato dos pais adorarem ela e quererem uma filha igual (?).

Frida Kahlo nasceu no México de pai judeu e mãe mestiça. Frida Dornelles nasceu em Ourinhos, de pai evangélico que se converteu ao movimento hippie quando entrou na primeira turma de Ciências Sociais na UNESP e mãe mestiça de paraguaio com húngara que estudou Música na mesma instituição. Até "Fridinha" completar 10 anos, os três moravam em um trailer, que ficava parado na maior parte do tempo em frente a um laranjal em Lorena.

Frida Kahlo sofreu de poliomelite. Frida Dornelles, devido às péssimas condições do trailer e da falta de higiene dos pais, sofreu de difteria, sarampo e tifo (por duas vezes).

Frida Kahlo, aos 18 anos, sofreu um grave acidente que a deixou em uma cama por meses, quando seu ônibus se chocou contra um bonde. Frida Dornelles foi atropelada, quando tinha 13 anos, por um ônibus da Caprioli que partia em direção a Sinop. Saldo: meio ano em coma, 11 costelas quebradas, problemas cardíacos e perda de um dedinho do pé. E umas boas surras dos pais quando voltou pra casa, por estar segurando um disco raro do Jimi Hendrix quando foi atropelada.

Frida Kahlo cursou desenho e modelado. Frida Dornelles estudou na maior parte do tempo em uma escola rural em Lorena. Por ser muito inteligente, conseguiu passar com facilidade em Artes Plásticas, na USP, em 1997. Na faculdade, descobriu quem era Frida Kahlo e simplesmente passou a considerá-la sua meta de vida. "Vou ser que nem ela". Ela, que usava cabelo loiro grande e quase nada de sobrancelha, decidiu cortar um pouco, pintar tudo de preto e deixar a sobrancelha virar uma lagarta. Se na Frida Kahlo original, era um charme, em Frida Dornelles ficou feio e ridículo.

Frida Kahlo virou pintora e militante comunista. Frida Dornelles, já morando sozinha no Itapetininga e sem arranjar emprego nas artes, começou a dar aulas de Português para alunos do ensino fundamental de um colégio público no Tremembé. Se Frida Kahlo era meio infeliz, Frida Dornelles era a imagem do desânimo: "Frida Kahlo foi comunista, conquistou Trotsky, virou iconoclasta, e eu aqui corrigindo prova de Predicado Verbal de moleque chiliquento de 11 anos?"

Frida Kahlo foi amada por Diego Rivera e León Trotsky. Frida Dornelles foi amada por Diogo Pederneiras, o auxiliar da cantina da escola. Amor não correspondido. E ela nunca amou ninguém, com exceção de uma pessoa: Tadeu Limanski. Ambos se conheceram na FNAC, na seção de história. Este é Tadeu: filho de russos de origem judia, foi para a Alemanha Oriental estudar História em 1988, depois morou no Vietnã, na Lituânia e em Cuba por muito tempo. Apesar de ter deixado Cuba, é amigo pessoal de Fidel Castro até hoje. Fala fluentemente 11 línguas. QI de 188. Loiro, cabelo grande e barba de Che Guevara. Anda de boina, roupa rasgada e chinelo de dedo. Dá aulas de cursinho no Anglo e no Objetivo, e ainda escreve livros didáticos e poemas.

León Trotsky era amigo de Frida Kahlo e foi morar com ela no seu exílio. Frida Dornelles e Tadeu são bons amigos, se encontram sempre na FNAC, trocam cartas e e-mails. O problema é que Tadeu é casado com uma russa com 70 de busto e 60 de QI, o que faz Fridinha corar de raiva e inveja. Pior para Frida foi ter ouvido de Tadeu: "eu ainda espero que você encontre sua cara-metade porque você é muito inteligente". Frida chorou por três dias depois que ouviu isso. A amizade, porém, continua.

Frida Kahlo morreu sem grandes sonhos. Frida Dornelles possui um sonho: ir morar no México, pintar quadros por lá e conhecer algum soviético expatriado. Tudo bem que entrar no México é dificílimo, pintar quadros não dá dinheiro e a União Soviética e o comunismo morreram, mas Fridinha está juntando o dinheiro que ela não gasta com higiene e beleza para comprar uma passagem de ida para lá.

Esta é Frida Kahlo, uma das personagens mais enigmáticas da história da arte. Esta é Frida Kahlo Dornelles, professora de Português de uma escola pública do Tremembé.

O Gerente

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Nerval Antunes, artista plástico, quarenta e dois anos, filho de uma família rica pernambucana. Planejava uma exposição, mas teria de convencer o dono da galeria que ele merecia. Uma coisa Nerval sabia, mais até do que pintar quadros: é preciso bajular quem vai te garantir dinheiro.

Nem seria tão difícil assim: o marchand estava interessado e até tinha pedido para dar uma visitada na casa do artista.

Nerval ficou tenso, mas se animou. Arrumou a sala o quando podia e bagunçou o estúdio o quanto podia, para dar a impressão que trabalhava bastante. Selecionou os quadros e esculturas entre os "melhores" (para apresentar ao marchand), os "bons" (para irem para a galeria) e os "ruins" (para mandar para a tia, orgulhosa, que morava hoje no Rio de Janeiro). Decidiu que o grande trunfo seria um armário de bebidas bem farto. Comprou todo o tipo de destilado, um pouco de vinho e, para garantir, algumas latinhas de cerveja. Preparou alguns beliscos chiques para acompanhar.

E, então, o marchand, chegou. Nerval só tinha falado com ele pelo telefone. Pela voz parecia um sujeito empolado, alguém suficiente empolado para trabalhar numa galeria de arte. Mas quando chegou, era um moço de seus trinta anos, sufocado por uma gravata amarela e um terno caro, mas - não tem outra palavra - feio. Eficiente, rápido e o pior: não bebia.

O artista ficou estarrecido: pedira um marchand e viera um... "gerente"!

Quebra de rotina II

A quebra

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Esse sábado Flávia e Bernardo não vão assistir nada no shopping. Vão comprar os presentes do dia dos pais.

Flávia foi pronta pra comprar um grill desses com recipiente pra gordura pro pai que adora churrasco, mas que tem tido problemas com colesterol alto.

Bernardo, em compensação, não sabe o que comprar. Convive pouco com o pai, quase não o vê e mesmo falando com ele uma vez por semana, os assuntos não vão muito além de como anda o time de Bernardo e que ele vai se tornar um grande campeão.

- Amore, por que você não dá um grill pra ele também?
- Ahn, se eu me lembro bem, ele era vegetariano...
- Hum, um par de sapatos sociais? Ele é advogado, não é? Precisa sempre de sapatos novos!
- Eu não sei quanto ele calça...
- Bom, então filmes e cds muito menos, porque você também não conhece, né?!
- Acertou!
- Aff!! Que coisa horrível, você não sabe nada do seu pai!
- Ele saiu de casa quando eu era muito pequeno e nunca aparece...O que você queria?!

Antes que Flávia pudesse retrucar, Bernardo parou assustado, olhando um casal que ia em direção a saída do shopping.

- Flá, aquele não parece o Carlos?
- O namorado da sua mãe? De costas parece sim...
- Mas ele tá com uma mulher!
- E que mulher, né? Combinar sapatos marrons com mini-vestido vermelho? E aquela bolsa dourada?! Eu juro, Bê, se a gente estivesse na rua eu acharia que era uma prostituta de péssimo gosto!

Mas Bernardo não deu muita atenção pras alfinetadas de Flávia e começou a seguir o casal que entrou rapidamente num Chevette ocre rebaixado.
Quando voltou Flávia estava emburrada num daqueles sofás macios disputadíssimos nos finais de semana.

- Não era o Carlos...Entrou num Chevette e o carro dele é um Gol.
- Lógico que não era ele! Ele só usa camisa de pagodeiro! Aquele lá tava usando terno e tudo! Parecia o Richard Gere em Uma Linda Mulher, de tão elegante!
- É, é verdade...Vamos...Acho que vou comprar um vale-presente pro meu pai, mesmo...
- Ai, Bê, que anti-sentimental, você!

Compraram o presente, foram embora e Bernardo encontrou a mãe em casa, assistindo a novela das 8 e reclamando de como o Antenor era um homem impossível de lidar e que se ela fosse a Lúcia já teria dado um pé na bunda dele.

- Que você comprou pro seu pai, Bernardo?
- Um vale-presente...
- Só isso, filho? Ai, que anti-sentimental! Parece mesmo com seu pai!
- Ah, ele nem vai ligar...E cadê o Carlos? Não era dia de sair com ele?
- Ah, coitadinho! Foi pra Goiás visitar a mãe, coitadinha, tá doente! Ele tá arrasado!!
- Coitado. E já falou com ele hoje?
- Ah, não...Eu liguei, mas ele não podia falar, porque a mãe tava precisando de ajuda!
- Ah, tá...Vou pro quarto ver tv. Boa noite!

Bernardo deu um beijo na mãe e se trancou no quarto. Enquanto assistia Mucho Macho, percebeu que a voz do Marcos Mion era muito parecida com a voz do Carlos e lamentou que o namorado da mãe não fosse o seu apresentador favorito, pois aí ele teria dinheiro, andaria de ternos, carros chiques...
Foi então que ele percebeu: homens elegantes como Richard Gere não andam por aí em um Chevette rebaixado...
Suspeito! Muito suspeito!!

Quebra de rotina I

A rotina

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Já faz algum tempo que a vida no apartamento 514 tem seguido uma certa rotina.

De segunda a sexta, Bernardo acorda às 6, sai com a mãe às 7 e chega a escola às 7 e meia. Às 10 ele vai encontrar Flávia na sala dela e passam os 20 minutos de intervalo juntos. Ao meio dia a mãe aparece para buscá-lo. Chegando em casa almoçam a comida normal preparada pela empregada e a tarde fica sozinho em casa enquanto a mãe vai fazer compras.

De segunda e sexta Bernardo vai para a casa da namorada jantar com ela e assistir a novela das 8 com a família.

De terça e quinta, Carlos, namorado da mãe aparece para jantar com Adriana e insiste em jogar video-game com o futuro-enteado.

Às quartas o pai de Bernardo liga pra saber como anda tudo e saber se Adriana precisa de algum dinheiro extra.

Sábado, Bernardo e Flávia vão ao shopping, pra assistir qualquer coisa que esteja passando no cinema, jogar Pump It Up ou simplesmente ficar rodando pra lá e pra cá.
Adriana também sai a noite com Carlos sem hora para voltar e chega sempre muito sorridente.

Domingo Bernardo joga futebol com os amigos e a mãe passa o dia sozinha em casa, porque Carlos também tem futebol e precisa dormir cedo para começar a semana.

O búlgaro, o Sérvio e o russo (2)

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Tem duas semanas, o Sérvio (um rapaz totalmente brasileiro) descobriu a existência de um búlgaro (totalmente búlgaro) morando no Itapetininga.  O Pável (totalmente russo) não ficou tão interessado assim, mas e daí?

O caso é que o Sérvio (aliás João Roberto) estava na portaria esperando o Pável descer. Quando o russo chegou, o Sérvio estava todo animado, quase saltitando:

- Pável, Pável, sabe quem passou por aqui?

- ?

- O búlgaro! O búlgaro que mora aqui.

- Agora?

- Subindo, vindo com um pouco de pão, algo mais da padaria. Um velho loiro, alto. Vi no painel do elevador que ele foi pro segundo andar. Ele estava resmungando em búlgaro... Em búlgaro!

- Você ientendeu alguma coisa?

- Nada.

- Que bom! De fato, isso é muito bom, realmente é muito bom sinal para você, sabe?

O namorado da mãe e a própria namorada

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Bernardo, apesar da sua vida extremamente de colegial, andou tendo alguns agitos (perfeitamente nomais...) na sua vida. No mesmo dia, brigou com a namorada e soube que a mãe tinha arranjado um namorado. Hoje, com a namorada, tudo bem. Estão juntos de novo e felizes. Já com a mãe não está tudo tão bem assim.

Feliz ela está, afinal é algo depois de sete anos de estiagem. Mas mesmo assim, quem é esse sujeito? Carlos é o nome do dito cujo, que aliás tem uma cara terrível de picareta. Sempre de camisa social listrada com o último botão aberto, um carro novo, grande e meio quebrado. Trabalha não se sabe bem em o quê em algum lugar longe do centro da cidade. Ter dinheiro, tem, porque sermpre paga alguma coisa ou traz um chocolate. (será que aquilo no dedo é marca de aliança? Não acho que não, devo estar inventando...) Além de tudo tem um sorriso simpático até um pouco demais. E o Bernardo não gosta muito de ver sua mãe sendo chamada de Dizinha e muito menos ser chamado de "ô filhão".

Pelo menos a mãe está mais calma, pensa Bernardo. Se tiver alguma coisa, depois a gente vê, mas melhor deixar essa casa ter pelo menos dois meses de sossego.

O MSN atrapalha a minha vida!!! - 51.644 membros

Parte II (ou V, se preferir)

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Foi a vez de Flávia ficar muda. Não importava pra ela que ele tivesse
dito aquilo sem um buquê de rosas vermelhas ou uma caixa de bombom em
formato de coração.
Então Bernardo percebeu que aquela foi a coisa mais espontânea que ele
já tinha falado na vida. E ficou muito orgulhoso daquilo.

- Posso ir aí te ver? Eu preciso te contar tanta coisa!
- Claro que pode!
- Mas você não ia sair?
- Ah, o Lucas não vai ligar se eu não for no cinema com ele. Muito menos eu!
- O Lucas...Tá...Tô indo, então!

Bernardo chega na porta de casa de Flávia, eles sentam no banco que tem no jardim da casa e ele conta do namoro da mãe.

Conta que ela ficou muito bravo com ele, porque ele não tava dando bola
praquilo e por isso ficou de castigo, mas até que tava gostando do
cara, porque a mãe passava muito menos tempo em casa e quando estava só
sabia cantarolar ao invés de reclamar. Conta da professora gorda e fanha de história que deixou ele com 4,8 na última prova do semestre. Conta como foi ruim ficar sem falar com ela esse tempo todo e como foi fácil dizer o que sentia.

Enfim, eles fizeram as pazes e atualmente estão muito felizes como um casal adolescente pode estar!

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Parte I (ou IV)

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- Alô?!
- Oi, Rita?
- Fala, Bernardo! Tudo bem?
- Vai indo... A Flávia tá aí?
- Tá sim...Só não sei se vai querer falar com você, espera um pouco.

Já tinham se passado 10 dias desde o dia do MSN. Bernardo estava proibido de usar a internet, a Flávia o evitava na escola e o telefone vivia ocupado pela mãe. Sem falar da quase recuperação de História que prendeu o garoto no quarto mais tempo do que ele desejava.

- Alô... - disse uma voz bastante melancólica do outro lado do fone.
- Flá? Sou eu, o Bernardo.
- Eu sei.
- Flá, eu queria me explicar sobre aquele dia...
- Hum, dez dias depois é um pouco tarde, né?
- Isso faz parte da explicação, Flá...Aconteceu tanta coisa lá em casa!
- Bernardo, por favor! Você teve n chances de falar comigo e não falou porque não quis. Se você vai pedir desculpa, tá desculpado, agora dá licença, eu preciso sair.
- Onde você vai?
- Isso não te interessa!
- Me interessa sim! Eu sou seu namorado, eu te amo e quero saber onde você vai!

Chacrinha morreu... - parte II

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Bom, o que se seguiu aí foi que eu tava quase morrendo. Tive traumatismo craniano grave, hemorragia cerebral e tudo o que teoriamente me deixaria meio "devagar" caso eu sobrevivesse. Entrei em coma profundo. Isso foi lá em Maio de 1988.

Todo mundo pensou que eu passaria o resto da vida em uma cama, olhando pra cima e babando. Eu não pensava em nada: estava em um modo stand by (é stand by que se fala, certo?) indefinido, não tinha como saber se eu iria religar ou se pifaria de vez. Neurônios de greve, meu corpo cheio de tubos e um punhado de enfermeiras cuidando de mim, isso foi o período entre 1988 e 2007 para mim.

Bom, mas milagres acontecem, né? De repente, no dia 18 de Maio de 2007, me deu vontade de acordar. Despertei do coma, o que surpreendeu a todos. E... eu fiquei muito assustado com o que eu vi! As enfermeiras usavam cabelo curto e pouca maquiagem! Pareciam garotos! Aquele cabelo encaracolado e o excesso de batom não estavam presentes nas enfermeiras... fiquei assustado.

- Em que ano estamos? - primeira coisa que consegui perguntar.

- 2007 - respondeu, simpaticamente, uma enfermeira.

O quê? Estamos no terceiro milênio? O mundo não acabou? O que aconteceu nesse período? Acho que voltar e perceber que tudo tava meio diferente foi a parte mais estranha da recuperação.

Meus amigos vieram me visitar. Que estranho! O Ricardo barrigudo! Fred careca? A Camila já estava na menopausa... meu pai! Senti falta do Ulisses, mas me contaram que ele foi para a Alemanha. "Pra qual das duas"? Me assustei quando contaram que só havia uma Alemanha.

Saí do hospital 1 mês depois. E... que horror! Os carros estão redondos, parecem discos voadores! Não voam, mas parecem! Os prédios e placas estão mais coloridos. Telefone agora tem 8 dígitos, antecedidos de algo que eu não tinha conseguido entender: 0 (xx) 11. A Telesp não existe mais. Telefone agora é barato. Inflação baixa, uau. Refrigerante é servido em latinha. Dinheiro, agora, se chama Real. Jogador de futebol bom se chama Ronaldinho. Senna morreu. Lady Di morreu, o comunismo morreu. Michael Jackson parece uma mulher que sofreu queimaduras no rosto. Rolling Stones, Madonna, Raul Gil, esses continuam. Que merda... O mundo virou de cabeça pra baixo!

Agora eu tô conseguindo me acostumar um pouco mais. Mesmo assim, as pessoas estranham:

  • Quem é Cindy Lauper?
  • Não, não tem mais comerciais da Hollywood porque propagandas de tabaco estão proibidas faz tempo.
  • Hahaha, não, a União Soviética não existe mais. Agora, são vários países.
  • Por que você se assustou com atrizes seminuas na novela das 7? Até parece que você não é dessa época, hehe.

Mas o mais frustrante foi uma descoberta, em uma conversa com um amigo da faculdade:

- Então, eu queria prosseguir com o meu projeto de criar uma rede de informações por computadores.

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA.

- O que foi?

- Sinto dizer, cara, já existe!

- Como assim?

- Nós chamamos de Internet.

- Uma rede de informação onde cada um poderia enviar informações para computadores em vários lugares do mundo? NÃO DIGA!

- É, faz isso e até mais coisas. Pode-se enviar músicas, vídeos, mensagens pessoais.

Não acredito! Roubaram a minha idéia! Alguma pessoa conversou comigo enquanto eu estava no coma e roubou a idéia!

Broxante. Agora, eu trabalho na loja de, olha só, celulares de um amigo meu, como vendedor. Preciso retomar a vida, né? OK, já sabia o que eram celulares, em 1988 eu lia muito e sabia que telefones móveis eram comuns no exterior. Mas o que é o celular de hoje? Bluetooth? MP3? Câmera de 1.3 MP? Browser? Isso é um celular ou um foguete da Nasa? Pra mim, celular é o que você usa para telefonar e ponto final. Pior que, quando eu vendo, e o cliente me pede um aparelho com MP3, eu ainda me confundo: "o que é MP3 mesmo, desculpe?" e o cliente me olha com cara assustada.

Bom, hoje eu sou um cara meio perdido a tanta tecnologia, correria e profissionalismo. Ah, essa é a minha história de vida. Bom, agora vou descansar um pouco, ir assistir ao Chacrinha. Ops... esqueci, ele já está morto. Merda. Preferia não ter acordado...

Chacrinha morreu... - parte I

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Sabe a história de Adeus, Lênin, que a mãe fica em coma por muito tempo e, quando acorda, está tudo diferente? Pois é. Adeus, Lênin foi uma das primeiras coisas que me mostraram quando acordei. Sim, eu estive na mesma situação da mãe.

Meu nome é Richard Velloso, hoje estou com... quantos anos? Deixe-me ver, nasci em 1966... exato, estou com 41 anos. E, desses 41, eu não vi 19 anos passarem. Fiquei vegetando entre 1988 e 2007. Minha vida nesse período foi mexer os olhos, me alimentar por sonda e, eventualmente, ouvir alguma enfermeira falando. Um porre! Pior que ouvir Carpenters!

Como eu disse, nasci em 1966, aqui mesmo, em São Paulo. Meu pai era diretor de uma filial do Banespa e ganhava muito bem. Mamãe costurava, cozinhava e sonhava em ter uma TV à cores para assistir às telenovelas da Tupi. Nós éramos bem de vida nos conturbados anos 70: papai tinha um Galaxie e até mamãe dirigia uma Variant. Enquanto isso, ficava jogando meu Atari importado. Varava a noite jogando Enduro e Pac-Man!

Os anos 80 foram aquela coisa que todo mundo conhece: danceterias, roupas coloridas, cabelos gigantescos e música new wave. Eu usava camisa rosa, calça azul claro, sapato e dançava YMCA como ninguém! Tinha uma vida legalzinha, até. Em 1984, passei no vestibular da USP e fui fazer Engenharia da Computação. Sempre gostei dessas coisas de tecnologia e computadores e tinha um sonho: fazer uma rede de computadores, que interligasse as informações! Seria um máximo! A informação sairia, por exemplo, dos EUA e chegaria em pouco tempo no Brasil! Já tinha decidido: era meu projeto de final de curso, interligar computadores para transmitir informação em tempo real.

Em 1988, ganhei um carro do meu pai. Um Escort XR3 zero! Quantas pessoas naquela época não desejariam um? Minha vida tava ótima, tinha o melhor carro do Brasil, podia sair com qualquer menina e faltavam apenas dois anos pra acabar o curso! Fui estrear a caranga lá na Avenida Paulista, com alguns amigos.

Foi aquela história: um cara, de 22 anos, com um carro esportivo, alguns amigos bêbados, andando na Paulista às 10h30 da noite com chuva não poderia dar muito certo. Na mosca: o carro derrapou e bateu de frente em um relógio patrocinado pela Marlboro. Maldito cigarro! O relógio atravessou o vidro e acertou JUSTAMENTE a minha cabeça.

(continua...)

O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)

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O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.

- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.

- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.

- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.

- Um búlgaro? Que concidyência.

- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.

(a história continua)

O búlgaro, o Sérvio e o russo (1)

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O Sérvio é um rapaz completamente brasileiro, que gosta muito do Leste Europeu. Fez amizade com um rapaz russo, o Pável, que mora também no Itapetininga. Mas essa semana descobriu que há mais um eslavo no prédio.

- Ei Pável, sabe quem eu encontrei hoje na portaria? A Dinorá. A corretora de imóveis.

- Sei, yela também vendeu o apartamento pra gente.

- Ela estava vendendo um escritório. Conversei um pouco com ela e ela disse que tem um búlgaro morando por aqui.

- Um búlgaro? Que concidyência.

- Foi o que ele disse pra ela. Que era de uma família rica da Bulgária que perdeu tudo. Mora no 212.

(a história continua)

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(Parte III)

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Amanheceu.

Bernardo tinha dormido em cima do computador, tentando reconectar.

Quando ele acordou foi pra cozinha pegar um pouco de suco enquanto o Speedy tentava conectar.
Abrindo a porta do quarto Bernardo vê Adriana com as sandálias de salto na mão, o cabelo bagunçado abrindo a porta do quarto dela com todo cuidado.

- Filhinho, querido, você em pé, essa hora?

- O mesmo digo eu, mãe...Onde você foi??

- Ah, eu...Eu fui comprar pão!

- De vestido vermelho e salto alto??

Adriana fica quase tão vermelha quanto o vestido. Bernardo entendeu:

- Ah, deixa, não importa... 

A mãe aproveita a deixa e entra correndo no quarto pra voltar a ter cara de mãe. Com suas pantufas ela entra no quarto de Bernardo que finalmente conseguiu conectar o Speedy e tá abrindo o Orkut pra deixar um scrap explicando tudo pra Flávia.

- Bernardo? A gente precisa conversar...
- Mãe, eu já sei de onde vêm os bebês...
- Bernardo, é sério, a mamãe tem muito pra falar com você...
- Mãe, eu tô ocupado. Se é sobre qualquer coisa relacionada a bebês fica tranqüila, acho que nessa altura eu não tenho nem namorada mais
- Eu sei que você tem juízo, bebê...E a mamãe também tem, mas a mamãe...
- MÃE! Pára de ser tão egoísta...Eu preciso falar com a Flávia!
- Bernardo! Não grite comigo! Eu sou sua mãe! E sai já desse computador! Está de castigo!
- Ah, não! Você já me deu castigo no dia da Miss, de novo, não! E eu já disse que preciso falar com a Flá!
- E por isso você não quer ouvir o que eu tenho pra te dizer? Eu sou sua mãe!! E eu tô namorando! - disse Adriana aos gritos.

Bernardo parou. Olhou a mãe de cima a baixo. Ele não acha que a mãe seja feia ou assexuada, mas ela é mãe! E por um momento ele pensou se a mãe já tinha dito que amava esse novo possível padrasto... 

 

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(Parte II)

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Bernardo não deixou Flávia no vácuo, como pode parecer e como ela pensou.
A internet caiu mesmo. Mas ele também não estava apto a responder declraçaõ de Flávia.

Flávia
tem 14 anos, Bernardo já tem quase 16. E ela é uma menina que agrada
bem o tipo do Bernardo. Ela ouve JoJo, vai pra baladinha, usa chapinha,
lápis de olho e tem foto das miguxas no orkut.

Bernardo já namorou antes. Um mês e meio com uma clone de Flávia, só que essa bem mais emo.
Flávia só tinha ficado. Bernardo é seu primeiro namorado. E isso dá um toque muito mais romântico em tudo.

Bernardo
nunca aprendeu a amar de verdade. Com o pai longe, desde bebê e a mãe
reclamando o dia inteiro, ele nunca ouviu a palavra amor dentro de casa
e nunca se sentiu como se fosse amado.
Flávia era a primeira pessoa que lhe dizia isso, com todas as letras e
que fez com que ele realmente se sentisse alguém especial.

Ele tinha ficado ali, 4 minutos e 30 segundos parado na frente da tela do computador.
Quando ele começou a digitar a porcaria do Speedy caiu!
Flávia ficou 30 segundos esperando...E começou a chorar. Chorava feito
um bezerro desmamado. Sua pele super clara ficava rosa, vermelha, roxa!

E a porcaria do Speedy não voltava!!!